A Estrada Maldita

Era uma noite calma e fria. Tão calma como uma igreja vazia e fria como um iceberg no meio do oceano, onde o silencio era uma mistura destes dois lugares.

Voltava para a cidade de Belo Horizonte. Compromissos inadiáveis me aguardavam em minha empresa pela manhã. Gostava de viajar de madrugada, ainda mais quando tinha que passar por uma estrada de terra de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais – uma forma perspicaz de evitar de comer a poeira deixada por outros carros durante o dia.

A estrada era iluminada pelos faróis de meu carro e pelo pisca-alerta que havia acionado, pelo menos até onde eles podiam alcançar. O restante a lua gorda e soberba se encarregava de clarear.

Havia estacionado o carro próximo a um pequeno barranco, devido a uma devastadora vontade de urinar. Infelizmente o frio faz isso com as pessoas, é claro que não posso omitir o chá de hortelã que minha avó Justina me fez tomar.

Vovó odiava que eu viajasse de madrugada.  Vinha sempre com a velha história — mais velha do que ela — de fantasmas, almas penadas, corpo seco, além é claro do perigo de assalto.

É lógico que não acreditava nas histórias da minha avó e duvidava de que algum criminoso se aventurasse a realizar um assalto na madrugada em uma estrada deserta.

Bem, o fato era que eu havia achado o lugar ideal para urinar. Seria o “mijo” perfeito, se não fosse por alguma pane elétrica que fez com que as luzes de meu carro ficassem piscando como se estivessem em curto circuito, antes sequer de eu colocar para fora da calça meu objeto de poder e encontrar o alívio que almejava.

Antes que eu voltasse para o carro, as luzes do meu veículo se apagaram por completo e o frio pareceu se intensificar.

O manto perene da lua — após minhas pupilas se adaptarem — traziam a imagem da estrada e seus arredores.

Caminhei em direção a meu carro. Sabia que não portava nenhuma lanterna comigo. Minha salvação seria meu celular, mas ao retirá-lo do bolso, percebi que ele simplesmente havia parado de funcionar.

Foi então que ouvi uma voz. Confesso que meu coração acelerou, pois jamais imaginava encontrar uma alma viva no meio da madrugada.

“Ei moço! Voismicê me discurpa, mas o sinhô ta atrapaiando o cortejo.”

Ao olhar para traz, havia um senhor de aproximadamente uns cinquenta anos. Vestia um terno preto destes antigos com um chapéu da mesma cor. Usava um cavanhaque bem aparado, num rosto enrugado.

Bem, tive a certeza de que não era um criminoso, caso contrário já teria me atacado. Um boia fria talvez… Mas bem vestido? Um cortejo de madrugada? Não fazia sentido…

“Me perdoe, mas um cortejo neste horário? Foi isso mesmo que o senhor me disse?”

“Sim sinhô. É só o cê oiá no finar da istrada”.

De fato, ele tinha razão. Quando olhei para o horizonte, diversas pessoas caminhavam a curtos passos em nossa direção. Algumas a cavalo, enquanto outras pessoas carregando velas acesas, acompanhavam o defunto .

O que me chamou a atenção era que ao invés do caixão, o cadáver estava numa rede que fora colocada em um longo pedaço de madeira, sendo carregado em suas extremidades por dois homens fortes, que também se vestiam de preto e usavam chapéu.

Jamais imaginava que as pessoas eram sepultadas em pleno século XXI dessa forma.

Em respeito fui para a beira da estrada acompanhado do estranho homem.

“Quem é o falecido?” Perguntei curioso. As vezes podia ser algum conhecido de minha avó.

“Num é falecido não”. Falou o estranho. “ É falecida, i vai pru inferno”.

“Ela devia ser muito ruim…”  Disse enquanto olhava a rede com o defunto que se aproximava.

“Ela feiz pacto cum o tinhoso para que o netinho dela tivessi muito dinheiro, num demoro pra ele vim cobra o acordo.” Falou o séquito homem.

“Se ela era tão ruim assim, por que esse tanto de gente no cortejo?”  Perguntei, enquanto as primeiras pessoas passavam devagar em minha frente.

“É que nóis qué fica livre dela dipressa e tê certeza de que ela foi interrada. O Cê que vê ela? Acho que voismecê deve conhece.”

Era uma oferta assustadora no meio da madrugada. Fui tomado por uma terrível onda de curiosidade.

Acompanhado do estranho senhor, aproximei-me da rede que conduzia o cadáver.

O cortejo parou. Aproximei-me do defunto.

Ao afastar o tecido da rede, minhas pernas perderam a força e minhas mãos ficaram frias e trêmulas enquanto meu coração parecia que iria sair pela boca. Queria gritar mas minha voz não saia. Parecia que havia engolido uma pedra que ficara entalada em meu estômago, enquanto a urina quente escorria perna abaixo.

Na rede estava o cadáver de minha querida avó.

Quando olhei para o estranho, seu rosto transformou-se na imagem de uma caveira — dessas parecidas com as dos piratas — e em um instante, todos desapareceram ao mesmo tempo que as luzes de meu carro se acenderam e o celular de meu bolso começou a vibrar.

Guardei o ocorrido em segredo. Tive medo de contar para alguém o que havia acontecido. Talvez pudessem achar que tivesse ficado louco, mas os fatos me perturbavam, até que seis dias depois, vítima da explosão de um botijão de gás, minha querida avó veio a falecer.

Hermes Marcondes Lourenço / Todos os direitos reservados@

Clarisse Cristal in memento mori – Samuel da Costa

Olá pessoal, tudo bem?

Hoje apresento a vocês o conto “Clarisse Cristal in memento mori” do autor Samuel da Costa. Não deixem de conferir!

 

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Clarisse Cristal: A Cidadã das Nuvens – Samuel da Costa

Olá pessoal, tudo bem?

Hoje apresento a vocês o conto “Clarisse Cristal: A Cidadã das Nuvens ” do autor Samuel da Costa . Não deixem de conferir!

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Vozes na Escuridão – Fernando Rodrigues

Olá pessoal, tudo bem?

Hoje apresento a vocês o conto “Vozes na Escuridão” escrito pelo autor Fernando Rodrigues. Não deixem de conferir!

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O Gato Persa

 

Olá Amigos! Por questões de saúde e sobrecarga de trabalho andei meio fora do ar. Mas aos poucos vou voltando. Que tal um pequeno conto para acalentar o ânimo?

 

O Gato Persao gato persa

Moro em um pequeno apartamento no Gutierrez na grande Belo Horizonte. Um apartamento velho, fruto maior que minha renda me permitiu comprar na minha fase produtiva, enquanto atuava como advogado.

Quando adquiri o imóvel, fiquei indignado. Isso porque minha renda que somada com a herança que recebi após a morte trágica de meus pais, ter sido suficiente para comprar um imóvel sem garagem.  Confesso que hoje agradeço, pois até minha habilitação foi suspensa. Afinal, quem iria deixar um velhote de 82 anos, com Parkinson dirigir. De nada ia servir a garagem a não ser para deixar o carro enferrujar e ter que pagar imposto.

Ficar velho é uma bosta. Desculpem-me pela expressão, ainda mais quando seus dois filhos moram no exterior e sua esposa faleceu consumida pelo câncer há mais de 10 anos.

Meu único companheiro nessa jornada, tem sido meu amigo pecaminoso.

Não pense que sou um velho doido ou tarado. Pelo contrário, Pecaminoso é o nome de meu gato. Um gato persa branco, com um olho amarelo e o outro azul, que pelo andar das carruagens, ele já deva ter a mesma idade do que eu ou talvez seja um pouco mais velho. A única vantagem que ele tem sobre minha pessoa é que ele não treme, em compensação o olho está quase colando um no outro de tanta remela chegando a aderir nos pelos da órbita ocular. Às vezes acho que ele um guaxinim desnutrido, pois ultimamente ele está puro osso. Já tentei limpar essa secreção dos olhos e a tinta vermelha que não sei onde foi que ele se lambuzou; mas é difícil. Eu com Parkinson, e o filho da puta do gato com Alzheimer, pois parece que ele não me conhece mais e toda vez que tento me aproximar dele o desgraçado do bichano parece que incorpora um exú e começa a rosnar e corre para os cantos.

É lógico que não vou pegá-lo, pois se você tivesse um bico de papagaio na coluna duvido que iria fazê-lo. Já faço muito em ver ele andar de um lado para o outro, como se estivesse perdido em casa.

Pode parecer mórbido, mas eu e pecaminoso fizemos uma aposta tão logo que Elizete, minha esposa faleceu (Que os anjos cuidem de sua nobre alma…). Nos pactuamos que quem morresse primeiro viria buscar o outro, pois nenhum de nós iria ficar sozinho.

Coisa de velho…. Pode até ser, mas nunca acreditei na vida após a morte.

Do jeito que pecaminoso anda magro, acredito que ele “vá pro saco” primeiro. Acredito que o pacto tenha sido uma forma que encontrei de quebrar a solidão e ter algo para fazer no resto de minha vida.

Minhas contas estão todas no débito automático. De vez em quando vem a vizinha do 301 bater aqui na minha porta saber se eu estou vivo. Já tem uma semana que ela não faz isso. Deve estar viajando ou arrumou outro affaire pois desde que ela se separou o quem mais tem feito é dar aquilo que não procuravam enquanto ela era casada.

Para piorar meu pesadelo, esta merda de televisão só pega um canal. O mesmo canal de notícias, sensacionalistas, com reportagens tão sangrentas que dariam para encher a lagoa da Pampulha.

O que me resta além do pecaminoso? Meu sofá confortável, a comida vencida na geladeira e os vizinhos com seus barulhos peculiares. Som de mijo do apartamento de cima, minha vizinha do 301 trepando as 23:00 e o arroto do porco do filho do 405 às 6:30 da manhã, logo antes dele ir para a escola. Isso sem contar o motor dos carros e motos que aceleram de madrugada, como se correr fosse resolver algo. É claro que não posso esquecer das músicas do Elvis Presley do morador do 101, que fuma um baseado e depois começa a cantar como se fosse o rei do roque. Isso por volta de meia noite.

O que tem me incomodado é que ouço alguns moradores que reclamam do cheiro podre que infesta o corredor (He he…. Cheguei a pensar que o pecaminoso tinha morrido e apodrecido na casa de algum vizinho, mas não. O desgraçado do gato está vivo, tão fraco quanto eu.  Mas essa é uma das vantagens de ser velho. Você vai perdendo o olfato. O risco é só soltar um pum, pois você nunca sabe o que é que vai sair).

Meus filhos no início eram presentes e telefonavam. A princípio todo dia, depois todo mês, depois só nos dias dos pais, natal, ano novo, aniversário e hoje eles não ligam mais. 

O culpado por isso, talvez tenha sido eu que os enchi de mimos, dando a eles tudo de bom e do melhor. De qualquer forma eles constituíram suas famílias e sei que tenho 3 netos e 1 netinha.  Pelo menos é a informação que tive há 7 anos. Não os culpo. Um velho com Parkinson e um gato com Alzheimer só iria complicar mais a vida deles, além de que vivo em minha “Terra adorada” que não tem sido uma mãe gentil.  Só fico na dúvida se meus filhos irão vir no meu velório…

De qualquer forma, fiz meu plano funerário, para ao menos ter o mínimo de dignidade quando for para a terra dos pés juntos.

De fato, pecaminoso está muito estranho. Não para de miar grosso. Agora só fica deitado no tapete da sala.

“Morre pecaminoso”, “Morre gatinho! ”.

Não tenham raiva de minha pessoa. Ver o pecaminoso morrer é pura diversão e libertar-se do sofrimento que tanto lhe aflige. O que mais eu poderia fazer? Amigos…. Fala sério!  Parte deles estão no cemitério e a outra parte virou pó e flutua em um algum lugar do Sena, do Tâmisa ou as cinzas foram carregadas para algum lugar onde o vento faz a curva.

Ouço batidas em minha porta.

Confesso que já não tenho forças para levantar e sequer receber visitas. Quando você ficar velho irá entender o porquê.

As batidas persistem e tornam-se mais intensas.

— Puta que o pariu! — Gritei com toda a força que fui capaz, só que de nada adiantou. Após um chute violento, vi minha porta cair rumo ao chão.

Era a piranha da minha vizinha que invadiu minha casa, sem minha autorização. A vagabunda estava acompanhada de dois policiais, que ao adentrarem na sala, um virou de lado, ou outro tapou o nariz enquanto minha vizinha começou a gritar e a seguir vomitar no chão da sala.

Foi então que me dei conta do que estava acontecendo.

Quando olhei para trás vi meu corpo que jazia sobre sofá da sala em frente à televisão ligada.

Múltiplos nacos de carne faltavam em meu corpo já em decomposição que aliado a água da privada, garantiram a sobrevivência do pecaminoso.

Bem, quanto ao resto do meu corpo, foi cremado.  As cinzas foram lançadas na lagoa da Pampulha para alimentar o jacaré pelas mãos da piranha de minha vizinha. É obvio que meus filhos não vieram. Quem se importa com quem já morreu em vida?

Já meu gato persa foi levado para um abrigo de animais.

O que pecaminoso não sabia era que dois anos depois dele ter sido adotado e ganhar o direito de morar num luxuoso apartamento no Belvedere (com ração importada e banhos semanais), é que nos reencontraríamos — por culpa do vício que lhe assegurou a sobrevivência —, após ele morrer afogado enquanto bebia a água da privada e sem ninguém para o socorrer.

Ao menos eu cumpri minha parte do trato.

HermesLourenco.com

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O Espelho

A chuva forte, fazia com que a rua Francisco de Sá em Belo Horizonte se alagasse, congestionando o trânsito já intenso, o
nde motoristas desesperados tentavam sair dos veículos, temendo pela própria vida. Exceto um.

Carlos estava parado atrás de um carro, enquanto observava o nível da água subir e via pessoas correrem, pelo medo de serem arrastadas pela enxurrada.

Olhava para o limpador do para-brisa, que oscilava de um lado a outro, movimento que o acalmava e desacelerava seus pensamentos.

A morte seria bem vinda, desde que fosse indolor. – pensou, enquanto via as gotas da chuva colidirem contra o para-brisa do veículo.imagem o espelho

Olhou para os carros que começavam a boiar diante de si, até que encontrou os próprios olhos na imagem do retrovisor.

Sim, o espelho. O maldito espelho, estava ali, face a face, mostrando seu lado mais sombrio e doloroso.

Era como se existissem duas pessoas, separadas por uma dimensão prateada.

Os olhos de Carlos não eram iguais ao do espelho. Os do espelho eram carregados de maldade, avermelhados, sem brilho e assustadores.

– Carlos, saia do carro. Preciso de você! – Falou os olhos vermelhos.

Ele observava, tentando compreender aquele lado sobrenatural que tornara-se parte da própria vida… Aquele maldito olhar, que mais uma vez, tentava dominá-lo.

Estava cansado da escravidão. O “olho”, assim o chamava, sempre que surgia lhe trazia uma nova e dolorida missão.

Viu as mãos sujas de sangue. Não traziam-lhe recordações, sequer remorsos.

Não queria sair. A enchente o pegara de surpresa, um imprevisto. Talvez um lance de xadrez numa partida contra o destino.

Desejava por um fim na própria vida e quem sabe encontrar o verdadeiro descanso.

“Os olhos” continuavam a observá-lo, com a frieza de outrora.

– Carlos, saía desta droga de carro, estou mandando!

Um sorriso surgiu no rosto pálido de Carlos. Pela primeira vez, tinha controle de si e não iria obedecer.

– Acabou! – Gritou, olhando para o retrovisor. – Vá embora. Você não vai mais me usar.

O olho continuava ali, frio, imponente e com a certeza de quem estava no comando.

Carlos olhou para os pés e viu que a água começava a entrar no próprio veículo e carregá-lo, como um barco a deriva, em meio a uma avenida alagada.

– Carlos, sua dor será eterna. Não adianta querer escapar. Saía já do carro! – Ordenou “o olho” mais uma vez.

– Não – respondeu oscilando a cabeça de um lado a outro, enquanto a água atingia a altura do joelho. – Sua capacidade de me controlar acabou. Essa foi a última mulher! – Respondeu para “o olho”.

– Você se lembra de sua mãe? Ela não pode ficar sozinha! – Afirmou o olho.

Carlos tentou pensar em algo diferente, mas o olho tinha razão.

Lembrou-se da noite em que o pai embriagado entrou em casa e com um pedaço de espelho dilacerou a vida da mulher que tanto amava. Jamais iria se esquecer dos cortes no belo rosto de sua mãe, do sangue se esvaindo no vestido branco. O olho tinha razão.

– Mamãe não pode ficar sozinha! – Afirmou Carlos para o olho.

– Então vá e faça o que você tem de fazer!

Carlos enfiou as mãos na água suja da rua que invadia o carro, lavando as manchas de sangue. Pegou uma pequena sacola, do banco de trás do veículo. Abriu o vidro do carro e driblando a enxurrada conseguiu chegar com segurança a uma loja, onde uma jovem atraente, apiedou-se do pobre homem.

– Venha, entre aqui! Meu Deus você quase morreu! – Disse ela.

Carlos apoiou-se na bela e atraente mulher e juntos, caminharam até um local seguro.

Horas depois, a chuva havia passado e deixou tatuado na principal avenida do bairro Gutierrez, as marcas da destruição.

A polícia, em meio a tanta tarefa, tentava compreender como uma pobre mulher, aterrorizada por uma enchente havia sido brutalmente assassinada. Teve o rosto todo dilacerado, igual ao da outra vítima, que havia sido encontrada pela manhã. 

O psicopata, usara como arma, o espelho retrovisor de um carro roubado, abandonado no meio da avenida.  O mesmo carro que havia sido visto na cena do outro crime.

Só não conseguiam entender, o porque os olhos das vítimas foram arrancados.