No meio do caminho havia uma flor

 

No meio do caminho havia uma flor

 

O ponteiro do relógio parecia que havia parado marcando quatro horas da manhã.

O tempo parecia não passar, era lento como uma infindável fila do caixa do supermercado ou dos bancos no dia pagamento; só que minha paciência era maior.

Não era a primeira vez que Letícia voltava tarde do plantão. Teoricamente o plantão que devia terminar as 19h, que somado as horas extras terminaria por volta de 23horas; mas 4 horas da manhã?

Não sei explicar o que acontece com meus pensamentos.

 Sim, as vezes nosso cérebro nos prega peças, como no meu caso em imaginar a própria esposa embaixo dos lençóis com um algum médico bem-dotado — financeiramente falando —; ideias parasitas que de forma pulsátil corroíam minha alma, aceleravam meu corpo, em especial meu coração e minha respiração, deixando meus sentidos alertas, como um lobo selvagem que se aproxima em silêncio da presa.

O fato era que meu casamento não andava bem. O peso das cobranças se acumulavam em minhas costas, tornando-me na imagem de Quasímodo.

Estava sentado no sofá da sala, olhando para o chuvisco da televisão que automaticamente havia silenciado, com a emissora que saia do ar.

Como seria ele? Rico, mais forte do que eu?

Não me considero um fracassado, apesar de defender criminosos e coloca-los na rua. Não sei explicar esses sentimentos. Talvez uma afinidade, pois todos nós temos nosso momento de fúria.

A história de minha vida se resume em dor, perdas de meus pais em minha infância e o acidente de meu tio quando eu tinha nove anos, que me deixou preso no carro com ele morto ao meu lado, com um pedaço de ferro atravessado no tórax, até que corpo de bombeiros chegasse e liberasse minhas pernas, me resgatando do carro e a seguir o corpo de meu tio.

A segunda parte de minha vida, chama-se orfanato. Ela era dividida em momentos de bullying, exploração e abuso.

Já a terceira parte, foi quando conheci Letícia e junto com ela a chance de ter um “lar” para morar. Nunca quis ter filhos. Odeio crianças.

No início do casamento até que foi bom, apesar de nunca conseguir dizer um Eu te amo verdadeiro. O amor que sinto por ela e pelo mundo são como peças de polímero, frias em uma exposição de arte moderna.

Foi então que ouvi a porta se destravar.

A sala estava escura. Estava sentado na poltrona e desliguei a TV, deixando um breu total.

Vi que a luz automática do corredor de meu apartamento se acendeu. Letícia abriu a porta, carregando os sapatos e sorrateira passou pela sala e foi para o quarto de hospedes.

Eu era um vulto. Estava vestido de preto e mesmo que ela quisesse ela não me enxergaria.

Aprendi que todos que todos os criminosos, cedo ou tarde cometem um deslize, e talvez o maior erro de Letícia, foi ir para o banho no quarto de hospedes e deixar a bolsa sobre a cômoda do quarto.

Vasculhei a bolsa e lá estava em meio a diversas mensagens, uma especial do neurocirurgião…

“Amanhã, depois do plantão, te quero outra vez, minha fina flor.
Com amor, Fernando.”

As palavras diziam por si só.

Escondi por trás da porta e quando ela saiu do banho, com uma velocidade que minhas aulas de Muai tai me proporcionavam, a joguei contra a banheira, fazendo-a quebrar o pescoço. Uma morte rápida, que ela não teve tempo para entender.

Havia conquistado minha liberdade. Faltava apenas Fernando, o neurocirurgião.

Fui até a sala e chamei uma ambulância, sem antes deixar o vidro de shampoo derramar sobre o piso de granito.

Ao chegarem, ela estava sem vida e uma médica apiedou-se deste pobre homem que acabara de ficar viúvo, por uma fatalidade do destino. A polícia me interrogou, mas foi fácil despistá-los, ainda mais quando se conhece a lei.

O fato que no dia seguinte no velório de Letícia, lá estava ele. O neurocirurgião Fernando, que se aproximou com a cara mais vil. Mal sabia ele, que enquanto ele estava no velório o carro estava sendo sabotado. As vezes colocar criminosos na rua, faz com que esses bandidos fiquem lhe devendo favores.

Ele se aproximou com a cara mais deslavada.

— Luciano, sinto por sua perda. — Me disse colocando as mãos em meus ombros. — Sou colega de sua falecida esposa e trabalhávamos juntos. Ela era uma grande amiga.

— Compreendo — respondi me segurando para não quebrar os dentes do filho da puta, e derrubá-lo sobre o caixão de minha ex-mulher. Mal sabia que ele tinha os minutos de vida contados.

— Luciano, sua esposa era uma pessoa fantástica. Ela estava me ajudando em um romance com uma médica e amanhã ela iria mandar um buque de rosas para Aline. Deixei até o cartão que ela colocaria no arranjo. Só que ontem, chegou um baleado e ficamos até tarde na cirurgia. Ela falou tempo todo de você. Disse que lhe amava e quando chega tarde ela prefere dormir em outro quarto pois sabe que você tem uma vida corrida. Agora, olhando para ela, realmente fico a pensar sobre o quanto somos pequenos diante do mundo e que a morte pode nos visitar quando menos esperamos.

Bem, naquele momento não havia mais o que dizer. Fiquei por um tempo, pensativo. Há determinadas atitudes que quando tomamos não tem mais volta.

Fiquei atormentado por pensamentos que me corroíam. Sabia que a solidão e a angústia se tornariam minha melhor companheira, pela eternidade.

Horas depois, sepultando a terceira e melhor parte de minha vida, recebi a notícia do acidente de carro fatal do neurocirurgião. Havia me esquecido que o carro havia sido sabotado…

Bem, depois disso, hoje já não sei mais nem mesmo quem sou eu.

 

Hermes Marcondes Lourenço