novembro 24

Vozes na Escuridão – Fernando Rodrigues

Olá pessoal, tudo bem?

Hoje apresento a vocês o conto “Vozes na Escuridão” escrito pelo autor Fernando Rodrigues. Não deixem de conferir!

Vozes na Escuridão

Susan ri enquanto tenta, pela enésima vez, ligar o carro. Seu riso demonstra sua incredulidade com o que está acontecendo. O carro rosna, mas não passa disso. Apenas resmungos. Susan apoia a cabeça ao volante.
           |“Meu Deus, me ajude a sair daqui.”
Tenta mais uma vez dar a partida. Nada.
Grita de raiva. Chora de desespero.
           |“Preciso de ajuda!”
Susan pega a bolsa e tenta o celular.
           |“Sem rede”
Deixa cair os ombros e a cabeça.
           |“Por favor, meu Deus, me ajude!”
Fecha os olhos.
A rua, completamente às escuras, está deserta. Não há casas. Apenas galpões e contêineres de lixo.
           |“Vamos lá garota, precisamos manter a calma e sair daqui”.
Susan toca na maçaneta da porta. Olha à frente, através do para-brisas. Está com medo. Sua respiração torna-se ofegante à medida que compreende sua situação. Abre a porta do carro. Olha para o céu. Está nublado e uma nuvem carregada cobre a lua.
           |“Meu Deus, meu Deus… o que faço?”
Olha para trás. Não há sinal algum de luz ou movimento. A rua é longa, tanto à frente quanto na direção contrária. Vários contêineres, de um lado e outro da rua. Susan se pega pensando se haveria alguém escondido, ou dormindo, atrás de algum daqueles contêineres. Aflita. Com medo.
           |“O que faço… o que faço! Bom, fico aqui e espero amanhecer ou procuro ajuda agora mesmo?”
– Ei!
Susto. Susan se vira. Olha para a frente. Seu coração bate acelerado. Alguém a chamara.
– Olá? – Sua voz soa estridente. Fere seus ouvidos. Ecoa na rua deserta. Susan fecha a porta do carro e caminha para a frente.
– Alguém? – Acelera o passo – por favor, preciso de ajuda! – Susan para. Observa a rua à sua frente.
           |“Acho que estou ficando louca. Não há ninguém.”
Vira-se para trás, tencionando voltar ao carro.
           |“O que?!”
Há alguém sentado ao volante. Susan corre em direção ao carro.
           |“Mas o quê…”
– Ei, por favor! – Susan ouve alguém a chamando na direção contrária. Para e se vira.
Está ofegante. Coração ecoando suas batidas dentro do peito. Não há ninguém
           |“Meus Deus, o que é isso?”
Se vira para o carro novamente. Não há ninguém. Não há ninguém em lugar algum.
Abre a porta.
           |“Havia alguém.”
As chaves balançavam na ignição. Susan arregala os olhos. Gira a cabeça para todos os lados. Procura. Tenta encontrar. Alguém. Algum movimento. Não há nada. Entra. Fecha os olhos. Apoia a cabeça ao volante do carro. Respira fundo. Bate a porta e abaixa os pinos de tranca das pontas. Silêncio. Apenas o vento.
           |“O que é isso… o que está acontecendo? Meu Deus, meu Deus, me ajude!”
Susan levanta a cabeça. Há um contêiner de lixo logo à frente. Está escuro. Algo se movimenta atrás da caixa de aço. Há uma sombra.
           |“Tem alguém!”
Susan fica paralisada. Olha fixamente para a sombra, atrás do contêiner. Apenas um pedaço de sombra. Está imóvel.
           |“Vamos, se mova! Eu sei que está aí, estou te vendo seu filho da mãe!”
Os segundos passam. Susan sente uma gota de suor descer-lhe pelas costas. Gelada.
Arrepia-lhe os pelos dos braços. A sombra permanece imóvel. Susan percebe que havia prendido a respiração. Olha para as próprias mãos e as vê avermelhadas. Estava apertando o volante. Respira. Solta o ar lentamente a afrouxa as mãos. Olha para o contêiner. A sombra se move.
           |“Filho da mãe!”
Susan leva a mão à maçaneta da porta. Olha mais uma vez para o contêiner.
           |“Desgraçado!”
Abre a porta do carro.
           |“Espera.”
Fecha a porta. Passa por entre os bancos da frente e alcança o porta malas, na parte detrás do banco traseiro. Sob o tapete, pega uma chave de roda. A chave tem o formato de uma cruz e é pesada. Susan volta ao banco da frente e abre a porta. Devagar. Olhos fixos no pedaço de sombra. Coloca uma perna para fora e inclina o corpo. Agora pode ver a caixa de aço sem a interposição do para-brisas.
– Ei, estou vendo você! Saia daí! – diz.
A noite fica mais gelada. Susan sai do carro e sente o vento frio cobrir-lhe o rosto. Resolve deixar a porta aberta. Caminha na direção do contêiner. Devagar. Chave de roda em punho.
           |“Espera”
Volta ao carro e recolhe as chaves da ignição. Retoma a aproximação lenta. Devagar. Sua respiração agora provoca nuvens de vapor. Está com frio. Está tremendo. Chega mais perto. Mais perto.
– Aaaaah! – Susan salta sobre a sombra. Grita e golpeia. Não há nada. Não acerta em nada. Apenas jornais enrolados.
           |“Meu Deus do céu!”
Ofega. Apoia as mãos nos joelhos.
           |“Se acalme Susan, se acalme!”
– Ei! – Alguém grita. Susan prende a respiração. Seu coração acelera novamente.
Levanta a cabeça. Olha para o carro. Há alguém sentado no banco do motorista! Está parado. Mãos apoiadas ao volante. Susan sente suas penas fraquejarem.
           |“Vou desmaiar…”
Apoia-se no contêiner. Seus olhos estão fixos na figura que a encara de dentro do
carro. Está sorrindo.
           |“O desgraçado está sorrindo!”
Susan se recupera. Agarra a chave de roda com força e caminha na direção do carro.
         |“Desgraçado, desgraçado…”
– Desgraçado! – Susan corre. – Eu te mato! Eu te mato!
Agarra a maçaneta da porta e puxa com força. Se prepara para atacar com a chave de roda. Grita, em fúria. O golpe estaca a meio caminho. Um gato. Há um gato sobre o painel do carro. Apenas um gato.
         |“Um gato! Meu Deus, um gato?!”
Susan se apoia com a mão esquerda na porta aberta. Respira fundo. Está suada. Sua blusa gruda nas costas. Ela olha para o gato, que a encara, imóvel sobre o painel.
– Saia! Sai daí seu puto! – Susan ameaça o gato com a chave de roda. Ele pula sobre o banco do motorista e alcança o chão, fora do carro. Corre e desaparece na escuridão. Susan entra no carro e bate a porta. Abaixa os pinos da tranca. Apoia a cabeça no volante.
         |“Meu Deus, estou enlouquecendo.”
Há algo sobre o painel, onde o gato estava. Susan olha o objeto.
         |“Mas o que…”
Uma adaga. Susan toca, lentamente, a adaga. Não acredita que seja real. É real. Segura o cabo. Manuseia, incrédula.
– Ei! – Alguém grita na escuridão.
Susan sai do transe. Olha através do para-brisa. Há uma figura em pé na frente do carro. Susan pode ver apenas a silhueta do estranho.
– Ei! Ei! – A silhueta repete o chamado. Uma sombra se mexe atrás do contêiner.
Outra silhueta aparece!
– Ei! Ei! Ei! – os chamados se multiplicam. Estão gritando. Dentro e fora de sua cabeça. Susan fecha os olhos.
         |“Por favor, parem!!”
Leva as mãos aos ouvidos. Pressiona os lados da cabeça.
– Parem!
Silêncio. Susan abre os olhos. Não há ninguém. As silhuetas sumiram. Ela chora. Segura o cabo da adaga. A aperta. Sente os nós dos dedos doerem. Chora.
         |“Por favor meu Deus, me ajude…”.
Soluça. Encosta-se no banco, ainda segurando a adaga. Relaxa o pescoço. Sua cabeça cai para trás. Susan fecha os olhos. Sente o coração batendo forte. Pode ouvi-lo.
Tum…tum…tum…
Há vozes em sua cabeça:
“ei…ei…ei”
De repente, o vento forte sacode o carro. Susan abre os olhos. Olha de um lado para o outro. Olha para o contêiner. Vê o rolo de jornal sendo carregado pelo vento forte. Aperta a mão fechada sobre a adaga. Um sussurro sopra em seu ouvido:
– Eeeeei…
         |“Estão aqui dentro!”.
Susan grita. Segurando a adaga, eleva o braço ao lado esquerdo do pescoço e abre a própria garganta, puxando a adaga de um lado a outro.

Fernando Rodrigues

@ Todos os direitos reservados

Conto publicado com autorização do autor.

Apresentação do Autor:

Meu nome é Fernando, mas meus amigos me chamam de Nando. Gosto de escrever contos de suspense e terror, mas não me sinto preso a este estilo. Se é interessante, então eu escrevo. Seja uma carta de amor ou uma história de terror (poxa, até rimou..rsrs).

Meu primeiro contato com a escrita foi aos 5 ou 6 anos, quando escrevi uma pequena história ilustrada e grampeei tudo para ficar com o formato de um livro em brochura (risos). Não me engajei na escrita direto, da infância até agora, mas o espírito nunca deixou de arrastar suas correntes pela minha cabeça. Então, estou aqui, tentando escrever algo que seja interessante o suficiente para alguém querer publicar.

Por enquanto, apenas contos. Mas, no futuro, quando eu aprender a escrever, quem sabe rola um romance né.

 


Tags:,
Copyright 2019. All rights reserved.

Posted 24 de novembro de 2016 by Hermes Lourenço in category "Conto

1 COMMENTS :

Deixe uma resposta para Desbravador de Mundos Cancelar resposta