fevereiro 20

Reencontro

Olá amigos do site A Arte de Escrever!

Bem, hoje trago para vocês, um conto de minha autoria.
Um forte abraço a todos!

 

Mehgan Heaney-Grier trying out a new style of swim fin in the waters of the Florida Keys.

REENCONTRO                                                   

 

Estava a deriva, no meio do oceano sentindo fome e sede.

Meu barco havia quebrado. Tive a ideia idiota de pegar o bote e sair a procura de ajuda. Infelicidade a minha.

Se soubesse que iria afastar tanto a ponto de me perder, jamais teria saído do barco.

Minhas roupas estavam rasgadas, minha pele queimada pelas longas horas de exposição ao sol.

Sim, o astro rei se escondia mais uma vez se no horizonte, enquanto a droga do bote oscilava para cima e para baixo deixando minhas esperanças cada vez mais distantes na imensidão do oceano.

Quando eu havia perdido a esperança por completo, foi que eu vi a água salgada perto do bote borbulhar, até surgir uma mão delicada, que trazia por entre os dedos uma estrela do mar.

Logo depois vi aparecer o mais belo rosto feminino que já vi.

Era uma sereia. Ela sorriu para mim.

— Te trouxe uma estrela. Vi que está perdido!

Ora bolas, o que eu iria fazer com uma estrela do mar no meio do oceano. Se fosse ao menos água potável e com ela poderia matar minha sede.

— Quem é você e o que fazes aqui? — Perguntei enquanto atirava a estrela do mar de volta ao oceano.

Ela não respondeu. Apenas me olhava, como se eu fosse a criatura mais estranha naquele momento de minha vida. Nem cauda eu tinha, diferente dela.

— Te fiz uma pergunta? Ou seus ouvidos estão cheios d’água incapazes de me escutar?

Ela continuava a me olhar. Parecia que estava lendo a minha alma e era detentora de todos meus sonhos e meus segredos.

— Por que jogastes a estrela de volta ao oceano?

Me controlei para não dar uma resposta mais desaforada ainda.

— O lugar das estrelas do mar é no fundo do oceano. Se a tiras do mar, elas morrem.

— Que estranho! — Ela me respondeu, apoiando-se em meu bote com os braços cruzados enquanto me olhava com cara de peixe morto.

— Estranho o que? — Questionei com a voz grossa e rude. Não estava para brincadeiras.

— Com você está acontecendo o mesmo. Se tiro a água de ti, você morre.

Ela havia me ferido profundamente com as palavras e o pior, ela tinha razão.

— Só que eu não sou uma estrela do mar! — Respondi, tentando virar o jogo — O que queres de mim? — Perguntei, mudando de assunto.

Ela riu enquanto abanava a cauda espirrando água para todo o lado.

— Do que está rindo? Não vês que estou morrendo? Ou você é uma alucinação, fruto de minha desidratação?

Ela continuava a espalhar água para todo lado enquanto agitava a maldita calda de uma lado à outro. Como se já não bastasse a água do oceano que afogava minhas esperanças.

— Vim aqui para lhe ajudar. Ou será que em suas últimas horas de vida, você será rude e amargo?

Era só o que me faltava, ter que encontrar um fantasma de Scrooge em forma de peixe, no meio do oceano.

— E onde está a delicadeza e o doce da vida? Se até a água em que vives é salgada e suas escamas são ásperas! — Zombei dela para ver se ia embora, mas ela parecia não desistir.

— No seu coração! — respondeu-me ela. — Ou já se esqueceu que um dia você amou?

Ela se referia a minha mulher que havia morrido de câncer, após vinte anos de casamento. Por alguns segundos lembrei-me de Lilian. Do olhar que implorava para que eu não a deixasse partir poucos segundos antes de seu último sopro de vida.

Não fui forte o suficiente. Lembrar de Lilian fez as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e gotejar no oceano.

— Não vê? Seu amor é doce e sua lágrima é salgada. Suas palavras são grossas e rudes, mas seu coração é delicado e suave.

Aquela sereia havia me colocado em xeque. Mas eu ainda poderia virar o jogo.

— De que adianta algumas lágrimas perdidas no oceano, se ninguém vai nota-las  ou sequer saber que um dia existiram? — Retruquei já meio sem paciência.

Ela riu, mas pelo menos parou de agitar a cauda e espalhar água.

— Hoje você não tem sua esposa, mas a saudade que carregas em seu coração a traz perto de ti. Não é?

Consenti com a cabeça. Era a primeira vez que ela parecia ter razão.

— O mesmo ocorre com sua lágrima no oceano. Todos que olham para o oceano verão apenas o oceano. Mas você que foi capaz de amar de verdade, toda vez que ver o oceano irá sentir saudades de Lilian. Suas lágrimas se fundem ao mar, ampliando a imensidão de seus sentimentos. Aqueles que olharem para você, apenas o verão, sem conhecer com profundidade, a extensão de sua capacidade de amar.

— Bobagem! — Respondi, já sentindo-me mais fraco. — De nada adianta minhas lágrimas no oceano se elas jamais poderão trazer Lilian de volta!

Ela me examinou com aquele olhar inquisidor. Odiava quando ela fazia isso.

— Nem tudo o que perdemos conseguimos ter de volta. Julga-se capaz de trazer de volta suas lágrimas que se misturaram ao mar? É claro que não, mas sabes que elas estão lá.

Ela era sábia. Tinha razão. Parecia que as palavras eram minuciosamente pensadas.

— E o que queres então? — Perguntei, já sem forças.

Ela segurou minhas mãos.

— O que quero? Um de meus objetivos já consegui. Era trazer boas recordações a seu coração em seu último minuto de vida.

— E qual seria seu outro objetivo? — Perguntei fatigado, percebendo meus olhos se fecharem.

Já não conseguia vê-la. A sereia tornara-se um vulto, mas sentia que ela ainda segurava minhas mãos e pude reconhecer aquela voz indistinguível e estridente, típica das sereias.

— Meu outro objetivo é leva-lo a encontrar sua lágrima que se perdeu neste oceano e, junto dela, você se reencontrará com Lilian.

Então tudo tornou-se um brilho intenso. A fome e a sede haviam passado. A sereia transformou-se em minha doce, delicada e amada Lilian.

Desde então, em meio a imensidão do oceano, vivo escondido dentro de uma lágrima, com minha amada, pela eternidade.

Autor: Hermes Lourenço

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Posted 20 de fevereiro de 2016 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

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