outubro 20

Nossa Vida dava um Filme

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Nossa Vida dava um Filme

                                                           Ana Faria

 

Gosto de filmes como Boyhood, do diretor Richard Linklater, que mostram o cotidiano de pessoas comuns, vivendo seus conflitos e paixões em algum canto do planeta, seja em um subúrbio ou no coração de uma metrópole. A sensação que fica é a de que a nossa vida também poderia dar um filme. Sim… Um filme. Por que não? Talvez não um filme de ação ou aventura, com a jornada do herói bem delineada. Pode ser que nunca consigamos identificar o verdadeiro clímax da nossa própria história. Mas ainda assim a nossa vida poderia se tornar um filme. Boyhood é assim. Conta a história de Mason, um garoto comum, filho de pais divorciados, com uma irmã mais velha e irritante, e uma vida de instabilidade financeira e familiar. Esse não seria o retrato de grande parte dos nossos garotos de hoje em dia?
            A história começa com Mason aos cinco anos e acompanha o crescimento e amadurecimento do menino pelos próximos doze anos. O interessante é que o filme foi produzido literalmente em doze anos e o elenco é exatamente o mesmo. Dessa forma o expectador pode ver nitidamente as mudanças dos personagens, acompanhando a ação do tempo em seus corpos, personalidades e caráter.

Se pudéssemos registrar doze anos de nossa vida, o que teríamos como memórias? Diplomas, filhos, relacionamentos construídos e destruídos, corações partidos, bens materiais adquiridos, dívidas, livros comprados, livros lidos, quadros pintados, poemas escritos em meio a risos ou lágrimas, letras de músicas e suas melodias incrustradas em nossa mente, esperando somente os primeiros acordes para surgirem na ponta da língua. É assim que fazemos nossa história. É assim que construímos nossa identidade, nosso “eu”. A partir dos momentos. Não exatamente aqueles momentos de glória, nem os de profunda dor, mas os pequenos e simples momentos do dia a dia. Francis Schaeffer já dizia que “as pequenas coisas são profundas e as coisas profundas são surpreendentemente simples”.

            Assim é o filme Boyhood, simples e profundo. Assim é também a nossa vida (bem, da maioria de nós), simples e profunda. Eu no mundo sou apenas como um virar da página de um livro. Contudo, para o meu “eu”, não há nada que eu queira mais do que fazer desse virar de página algo sublime.

            Em uma das cenas de que mais gostei, Mason está se preparando para sair de casa. Ele vai para a Faculdade. Sua mãe ficará sozinha e por isso decide se desfazer da casa e de grande parte dos objetos que ela contém. Mãe e filho travam um diálogo a princípio trivial. Questionador como sempre, o garoto analisa a maneira como a Faculdade escolhe os colegas de quarto e o nível de aprovação desse processo. Parece mesmo que a mãe dele está tirando de letra o fato de viver sozinha dali para frente, mas de repente ela desaba em lágrimas. A queixa dela ainda ecoa em minha mente. A vida passou rápido demais. Outro dia o filho ainda era um garotinho e agora já é um homem de dezoito anos indo morar fora. O que será dela dali para frente? O que a vida ainda lhe reserva? Há algo ainda para acontecer? Era só isso? “Eu pensei que haveria mais”, ela diz.

            Não é assim que nos sentimos em relação há tantas coisas? “Era só isso?”, nos perguntamos. Pensamos que haveria mais. Isso bem pode ser culpa dos livros e filmes nos quais temos como referência: romances tórridos, beijos de tirar o fôlego, golpes de mestre, uma virada de mesa no final das contas… Talvez estejamos nos inspirando nos filmes errados. A vida bem pode ser eletrizante ou assustadora. Mas na maior parte do tempo, o que a vida é? Monótona, engraçada, repetitiva. Nossa vida é um filme simples… Simples e profundo.  

 



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Posted 20 de outubro de 2015 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

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