abril 25

Como escrever uma cena em seu livro…

Qescrita_cientifica_-_reproducaouando era criança, certa vez antes de chegar as amigas de minha mãe, ela me chamou no canto e disse: “Filho, está para chegar visita, e eu só tenho um pouquinho de doce de abóbora para servir. Por favor quando elas chegarem não peça doce de abóbora que eu não terei para servir todo mundo.”

Na época eu era apaixonado por doce de abóbora, independente de ter visitas ou não, mas  elas chegaram. Assim que minha mãe serviu as amigas, eu olhei aquele prato de doce de abóbora e disse na frente das pessoas queridas e tão aguardadas pela minha amada matriarca: “Mãe, eu quero doce de abobora!”

Mamãe na hora ficou da cor do arco-íris, indo gradativamente do branco ao violeta até que uma das amigas dela se dispôs a dividir o doce comigo. Após as visitas terem ido embora, minha mãe foi em uma vendinha onde ela comprava a bendita abóbora e voltou para casa com uma gigante. Descascou, enquanto eu inocentemente brincava com meu único boneco de playmobil* não vou explicar o que é playmobil, pois eu sei que este bonequinho franjinha ainda existe.

Para minha surpresa, após algumas horas, mamãe me chamou sem eu sequer imaginar o que me aguardava.
Ao chegar na cozinha havia na mesa um prato fundo de doce de abóbora quase transborndando ao lado de um vidro de mais ou menos 5 litros, repleto até a tampa do bendito doce.  Minha mãe com o olhar lustroso de vingança disse algumas palavras que me marcaram toda vida: “Come tudo ou você vai se arrepender. Não queria comer doce de abóbora?”

O fato é que depois de mais de trinta anos é que voltei a sentir sabor por este doce, mas o amor acabou.

Em uma época da minha vida — principalmente quando era rejeitado pelas editoras — começei a devorar livros importados de escrita, gastar fortunas com cursos de escrita criativa — e havia alguns cursos  que me faziam sentir que iria vender mais do que o Stephen King —, até que montei uma pasta recheada de técnicas e orientações para se escrever, em outras palavras, tinha um vidro gigante de doce de abóbora e a obrigação de devorar as técnicas evitando a rejeição da editora.

No mercado brasileiro você encontra poucos livros que ensinam como escrever um livro. Já o mercado americano e europeu está lotado. Qualquer esquina você encontra esses livros como pragas e se deixar eles quase que se reproduzem.

O fato é que neste amontoado de livros, poucos realmente trazem informações necessárias que irão auxiliar o aspirante a escritor em sua jornada de aprendizado. O Resto é pura bobagem.

A maioria dos cursos e oficinas que participei, vendiam pequenas dicas que eu encontrava no rodapé dos livros importados e os cursos eram vendidos  a preço de ouro, com aulas enfadonhas.

O pesadelo tornou-se real quando minha mente saturada de técnicas e mais técnicas, tornava o trabalho de escrever uma página num martírio — algo como ter que comer mais do doce de abóbora quando você já esta lotado e quase vomitando, até chegar num ponto que eu não conseguia mais escrever saturado por tanta técnica.

Nesse momento tive que rever todos meus conceitos sobre escrita e cheguei a simples conclusão de que o excesso de técnica e meu respeito implacável por elas me impediam de escrever e bloqueavam meu processo criativo.

Foi uma grande lição. É claro, que em meio a imensidão de informações, “pesquei” as que eram necessárias e fundamentais no processo da escrita.

Recentemente um leitor me enviou um comentário, após o rompimento da corrente que me prendia pelo tornozelo,  dizendo que minhas últimas publicações tinham uma escrita bela, “desatadas das técnicas”  e por isso a obra tornou-se preciosa e encantadora, melhor do que as anteriores que foi minuciosamente escrita sobre a compulsão inquisidora das normas de escrita.

Porém, nem tudo são flores e é só sair escrevendo como se fosse uma metralhadora. Algumas regras são fundamentais na hora da escrita.

O Primeiro e mais básico erro do escritor iniciante é quando falamos de POV. O que é isso? Na verdade POV é uma abreviação americana de Point Of View, que nada mais é do que o famoso ponto de vista.
Para você entender com mais facilidade imaginemos que cada POV seja uma câmera de cinema disposta em algum lugar da cena.

Por exemplo uma narração em primeira pessoa, você coloca uma única e exclusiva câmera em cima da cabeça de seu personagem e essa câmera será utilizada durante todo o filme — no caso seu livro. Em outras palavras essa câmera nada mais é do que os olhos de seu personagem e as impressões que ele tem de tudo o que acontece ao seu redor, dentro da estória.

Vamos retirar a câmera da cabeça de seu personagem e instalar várias câmeras dentro do quarto em que ocorreu um assassinato e filmar as reações de seu personagem. Você irá conseguir vê-lo com todos os detalhes, ele arrastando o corpo de uma mulher para a cama; irá ver o sangue manchando o lençol e até visualizar a sudorese no rosto de seu assassino. Poderá detalhar a arma do crime caída ao lado da cama. É como se você fosse uma testemunha ocular crime e tivesse dentro da cena sem que o assassino imaginasse que você está la.

Imaginemos que você mora no prédio do outro lado da rua, e você estivesse bisbilhotando a janela do seu vizinho na hora do crime. Você irá perceber — se a rua não for movimentada — que parecia que eles estavam discutindo, poderá descrever “sem muita segurança”, como eles estavam vestidos e que depois de algum tempo você não viu mais a mulher.

Agora imagine que você fosse um policial que passava de helicóptero a dois quilômetros de altura. Você não iria ver nada e o crime iria acontecer de qualquer forma, embaixo de seu nariz.

O POV é fundamental na descrição de uma cena. Já vi livros e até filmes que ocorrem erros gravíssimos do ponto de vista do personagem. Nunca devemos nos esquecer que uma câmera não registra cheiros, temperatura, intensidade sonora, sabores e essas sensações enriquecem e devem fazer parte de sua estória. É claro que não precisa detalhar o grão de arroz do prato que seu personagem está comendo, basta seu leitor saber que seu personagem está almoçando.

Outro assunto é a criação da cena.

A primeira pergunta é: O que é uma cena? É o mesmo que um capítulo?

Não. Um capítulo é um conjunto de cenas enquanto a cena é o somatório do cenário, temporalidade, ações dos personagens, POV. Resumindo é uma ação que ocorre em determinado local em determinado espaço de tempo.

Vários livros trazem as técnicas que foram descritas pelo site advanced fiction writing (http://www.advancedfictionwriting.com/articles/writing-the-perfect-scene/, que na verdade facilitou para o escritor o desenvolvimento da cena. Há autores que a seguem metodicamente — Objetivo, conflito, desastre e as sequelas da cena: reação, dilema e decisão; — proposto pelo advanced fiction writing  — e acabam se esquecendo da principal pergunta a ser realizada antes de construir a cena, seja de roteiro ou de um livro.

A pergunta é simples: O que há de grandioso em sua cena e como você irá emocionar seu leitor? Essas simples perguntas destrói qualquer regra, e carregam o principal objetivo de qualquer livro, ou seja, “amarrar o leitor e emocioná-lo”.

Eu particularmente prefiro substituir a técnica acima, pelas famosas e pouco divulgadas regras dos 6W que fazem parte do jornalismo investigativo: WHO, WHAT, WHEN, WHERE,  HOW, , WHY — quem, o que, quando, onde, como e porque.

Vamos exemplificar as duas técnicas.

Primeira pelo advanced fiction writing.

Premissa: Protagonista chega no apartamento e encontra a esposa morta e é surpreendido pelo vizinho que estava acostumado a ouvir as brigas do casal. Ele tem duas opções: Explicar ao vizinho que é inocente ou fugir e deixar para tentar explicar depois.

Objetivo: Personagem chegar no apartamento após um exaustivo dia de trabalho.

Conflito: Ao chegar em casa, ele não consegue abrir a porta, e ele vê marcas de sangue no chão. Ele arromba a porta e entra.

Desastre: Ele encontra a esposa morta, com a faca suja de sangue ao lado.

A seguir são as sequelas, em outras palavras as consequências…

Reação: Chamar a polícia, mas um vizinho bisbilhoteiro (que escutou a porta ser arrombada — já estava familiarizado com as brigas do casal) chamou a polícia quando ouviu o chute na porta — e entrou na casa encontrando o protagonista segurando uma faca suja de sangue ao lado da esposa morta

Dilema: Permanecer na cena e tentar explicar para o vizinho e a polícia que não tardaria em chegar, que ele arrombou a porta porque a esposa não atendeu e a chave não funcionava e encontrou a esposa morta ao lado de uma faca suja de sangue; ou fugir, contratar um advogado e tentar provar a inocência depois.

Decisão: O Personagem decide fugir para descobrir quem matou a esposa e provar a inocência depois.

A mesma estória pode ser construída usando as regras do 6W

O Que: seu personagem está buscando: Personagem chegar no apartamento para descansar após um dia cansativo da rotina do trabalho.

Quem: Um sujeito que brigava muito com a esposa a ponto de incomodar o vizinho.

Quando: após um dia exaustivo de trabalho.

Onde: No apartamento do casal.

Como: O Personagem ao chegar no apartamento, não conseguiu abrir a porta e teve que arromba-la. O som chamou a atenção do vizinho, que preocupado com a segurança do prédio, chamou a polícia.  O vizinho impulsionado pela curiosidade foi ao apartamento, surpreendendo o protagonista ao lado da esposa morta, segurando a faca do crime.

Porque: O protagonista decidiu fugir, pois não havia como convencer o vizinho de era inocente, e precisava descobrir quem realmente era o verdadeiro assassino, entregá-lo a polícia e dessa forma provar a sua inocência.

Na cena existe algo de grandioso? Sim, pois não todo dia que chego em casa e encontro a esposa morta.

Você conseguiu emocionar seu leitor? Claro, pois ele ficará apreensivo, querendo saber quem é o assassino e criará empatia pelo seu personagem por saber que ele é inocente.

Observação: esse conjunto de cenas que determinaram um capítulo.

Uma estória, deve apresentar obrigatoriamente um inicio, meio e fim — que nada mais é do que o antigo primeiro, segundo e terceiro ato, e deve ter seus pontos de virada.

O que é um Ponto de Virada? É algo que irá acontecer e marcar seu personagem, dando maior profundidade a sua estória e cativando ainda mais seu leitor. O cativar que me refiro e diminuindo a chance do leitor abandonar a leitura de seu livro.

Imaginemos um livro de 120 páginas. As trinta primeiras páginas serão reservadas para a apresentação de seu personagem até o primeiro ponto de virada, que colocará seu personagem num caminho sem volta. Ele terá que ir até o final. Já o segundo ponto de virada acontece no segundo ato, ou seja quando seu personagem descobre quem é o assassino — do exemplo das cenas acima — e se surpreenderá ao descobrir que o assassino por exemplo é o próprio irmão que um tinha secretamente um caso com a esposa. E terceiro ponto de virada irá ocorrer por volta da pagina 85 a 90, é representado pela confrontação onde ele ficará frente a frente com o irmão que fará de tudo para matá-lo e ele terá que se defender. Já as páginas 90 a 120, serão reservadas para o final de sua estória, onde seu personagem matou o irmão e termina internado, enlouquecido num hospício.

Alguns cuidados devem ser tomados com a conclusão de sua estória. Aprendi que devemos surpreender o leitor em cada página lida em seu livro, bem como podemos ou não dar a ele o final desejado. Por exemplo, você gostou do seu personagem terminar num hospício após ter matado o irmão, após provar sua inocência.

Há aqueles que iriam preferir, que ele terminasse em um bistrô em Paris, após descobrir que o irmão era um dos mais procurados traficantes de drogas, conhecendo uma linda mulher sugestivo de um futuro relacionamento.

Essa conclusão quem determina é o escritor e é claro tentando agradar seu publico alvo. Aos amantes de suspense, terminar num hospício ia ser ótimo. Já aos fãs de justiça feita e de romance, terminar em um bistrô em Paris, conhecendo uma linda mulher seria o final perfeito.

Cabe a você decidir.

Hermes Marcondes Lourenço

 

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Posted 25 de abril de 2015 by Hermes Lourenço in category "Dicas Sobre A Escrita

2 COMMENTS :

  1. By Josemar Alvarenga on

    Parabéns Hermes. Curto, prático, enfático e elucidativo para quem quer navegar na escrita literária.

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    1. By hmsfenix@gmail.com (Post author) on

      Obrigado Josemar!
      A simplicidade das técnicas é a chave para o sucesso da escrita.
      Forte abraço ao nobre confrade e presidente da nossa querida SOBRAMES – MG.

      Reply

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