junho 26

Construção de personagem

    Já faz um certo tempo que não escrevo nada aqui no blog, e nesse meio tempo, muita coisa aconteceu. Agora, além de escritora, sou também revisora e editora na Editora Literata.  Também ajudo a selecionar os livros que serão publicados. Com esses encargos, tenho aprendido ainda mais sobre “A Arte de Escrever” e quero dividir isso com vocês, leitores do blog. Quero, primeiramente, abordar o tema “Construção de Personagens”, algo vital para qualquer obra.
    Você, aspirante a escritor, deve, antes de tudo, ter em mente o público alvo que deseja atingir, pois isso irá determinar como seu personagem deverá ser construído. Exemplificando: Se você pretende escrever algo na linha de “O Senhor dos anéis”, ou “Guerra dos tronos”, ou seja, se pretende escrever para o leitor que aprecia esse tipo de Literatura, você deve se preocupar bastante com a construção de seu personagem, bem como com o cenário em torno dele. Apreciadores desse tipo de literatura, gostam de descrições detalhadas, de personagens com personalidades profundas, fortes e marcantes. Portanto, se esse é o seu objetivo, prepare-se: seu público é mais exigente e seu trabalho deverá ser mais cuidadoso.
    Já se você pretende escrever histórias mais “sentimentalizadas”, ou seja, onde o que realmente importa é o sentimento, tais como: “As vantagens de ser invisível”, “A culpa é das estrelas”, “Crepúsculo” e afins, a descrição física do personagem deverá ser superficial, dando margem à livre imaginação do leitor, já que este tipo de livro requer uma empatia, uma identificação do leitor com o personagem, de forma que, quanto mais abrangente e “vagas” forem suas características, melhor, assim, possibilitará que uma maior gama de pessoas se identifiquem com ele. Esse tipo de personagem, deverá ser o mais “comum” possível, dando a impressão de que você poderá cruzar com ele a qualquer momento na rua.
     O que deve-se tomar cuidado, em ambos os casos, é em não se contradizer. Se o personagem possui determinadas características, não se deve atribuir outras, contrárias àquelas, “do nada”. Exemplo: um dia desses, li um livro onde, no primeiro capítulo, a personagem dizia que preferia andar de ônibus, que odiava andar de carro. Apenas alguns capítulos depois, ela assumia o volante de seu carro, feliz, dizendo que adorava dirigir. Há aí, um contrassenso: ou ela gosta de carros, ou não gosta. A não ser que algo a tivesse feito mudar de ideia nesse interim, o que não é o caso. A autora disse que sua personagem era “meio bipolar”. Gente, pelo amor de Deus, isso não é explicação. Bipolaridade é uma doença psiquiátrica séria, com características específicas e não deve ser tratada assim, levianamente, para explicar um erro de enredo. Você pode sim construir um personagem bipolar, mas isso então deverá ficar claro e a doença deve ser algo a ser tratado de forma importante na história. A personagem em questão, era mal construída, e ponto.
    Tome cuidado também para não criar personagens pedantes, a não ser que se trate do vilão, apesar de hoje em dia, até mesmo o vilão tender a ser cativante. Li um livro um dia desses, onde a personagem principal só sabia chorar, que saco! A leitura se torna maçante e enfadonha e levará o leitor a nunca mais querer ler algo seu.
   Tenha cuidado também com estereótipos. Vi muitos homens, por exemplo, ao construírem uma personagem feminina, pecarem pelo excesso, criando uma mulher chorona, frágil e histérica, como se todas as mulheres fossem assim. Outros, criam personagens femininas à luz do que eles são: duronas, insensíveis, frias e calculistas. Nem tanto o céu, nem tanto o inferno. Mulheres são mais sentimentais e intuitivas que os homens, mas isso não quer dizer que elas não tenham autocontrole e que se desesperem diante de qualquer dificuldade. Há de se saber dosar.
    O escritor, ou aquele que pretende sê-lo, deve ser, antes de tudo, um bom observador da natureza humana. Deve perceber as sutilezas de cada caráter, as características que motivariam um vilão, o que gera empatia ou não nas pessoas e conseguir colocar isso tudo no papel.
     O que me desgosta, é que hoje em dia, todo mundo pensa que pode ser escritor. Que basta ter uma ideia – que muitas vezes nem chega a ser boa – e colocá-la de qualquer jeito no papel, sem se preocupar se as frases estão coerentes, se os personagens estão bem construídos, se a história está bem “amarrada”. Pensam que o revisor irá corrigir tudo isso. Ele não vai. Como o próprio nome já diz, cabe ao revisor, revisar, ou seja, corrigir os erros gramaticais e só. Ele não deve reescrever a história, tentar salvar algo que não tem salvação.
      Conselho de amiga: antes de enviar seu livro para uma editora, peça a um consultor literário (sério) para que avalie seu livro. Ele lhe dará uma opinião sincera sobre seu manuscrito, sobre o que deve ser melhorado, o que deve ser suprimido, o que deve ser ressaltado. Não confie na opinião de familiares e amigos que simplesmente dirão que seu trabalho é lindo, lembre-se que os leitores não terão estima alguma por você, muito menos a obrigação de gostar de um livro ruim. 
Para ver mais postagens minhas, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br


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Posted 26 de junho de 2014 by Hermes Lourenço in category "Dicas Sobre A Escrita

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