junho 13

Convulsão

Olá amigos do blog.
Trago mais um texto de minha autoria em homenagem ao dia dos namorados. Afinal, hoje é uma data tão romântica… E o que não somos capazes de fazer por quem tanto amamos?
Espero que gostem. Forte abraço a todos!
Hermes M. Lourenço

Convulsão
Tudo parecia estar caminhando para ser uma noite perfeita, numa pacata cidade deste imenso interior de Minas Gerais.
Sim, uma noite perfeita, aguardando para ser regada pelo vinho e pelo romantismo que aflorava em minha pele, se não fosse pelo excesso de bebida de meu namorado.
Na verdade, nunca esperei que Carlos fosse um de meus príncipes encantados da Disney — que fizeram parte de minha infância e de meus sonhos. Na verdade ele era o melhor partido que havia encontrado em Belo Horizonte e confesso que mesmo ele não sendo tudo aquilo que desejava, ele me fazia feliz, exceto pelos porres que ele tomava toda a vez que fazíamos qualquer passeio. Isso já estava se tornando uma rotina desagradável e eu sempre jurava que seria a última vez que eu iria aceitar essa situação.
Desta vez, decidimos vir comemorar nosso 5º Ano de Namoro em Lavras Novas – MG, que para quem não conhece, é um lugar acolhedor, pequeno e pouco movimentado desde que longe dos feriados.
O que mais me incomodava era que Carlos já havia começado a beber desde cedo e para variar, emendou a bebedeira após almoçarmos um Fettuccine preto – cuja principal característica era a massa produzida artesanalmente pelo senhor Eduardo, um exímio cheff de cozinha especialista em comida italiana.
Tinha esperança que o carboidrato amenizasse os efeitos da bebida. Mas o fato apenas se agravou, devido a meu namorado misturar uma garrafa de Vinho Xavier Chateauneuf-du-Pape Rouge, com aproximadamente 10 garrafas de cerveja, que era um ritual que sempre precedia o almoço.
Quando percebi que ele já estava começando a apresentar defeitos comportamentais, sabia que era a hora de voltarmos para a pousada. 
Com ajuda de alguns frequentadores do restaurante, carregamos meu namorado até meu carro e como não havia bebido, tinha condições plenas para dirigir. 
Estava determinada a acabar tudo.
Por outro lado, os fantasmas de meus relacionamentos anteriores assombravam minhas expectativas futuras, que era alicerçado em uma sucessão de experiências ruins.   Não queria que um namorado bêbado, se tornasse uma rotina em minha vida bem como um péssimo exemplo para meus futuros filhos.
Esperava apenas que ele acordasse para que eu pudesse colocar o ponto final em mais uma relação que me prejudicava, ainda que preservasse o temor em encontrar um outro namorado pior.
O fato era que não poderia deixar Carlos ao deus-d’ará.
Enquanto ele fosse meu namorado, tinha assumido o compromisso de cuidar do homem que aos meus olhos, tornara-se mais um “pinguço” – ainda que me arrependesse até a alma de ter de cuidar de uma pessoa que acabara de destruir um final de semana romântico, e enfiar minhas expectativas dentro em uma lixeira.
Já se aproximava das cinco horas da tarde, quando para minha surpresa, meu namorado começou a convulsionar.
Entrei em desespero! Era formada em arquitetura e não sabia o que fazer e para piorar, sabia que o hospital mais próximo ficava em Ouro Preto, que com muita sorte talvez eu gastasse trinta minutos para chegar até lá.
Meu namorado precisava de socorro imediato e não poderia arriscar uma viagem até a cidade vizinha sem que ao menos ele tivesse algum grau de estabilidade. Era impossível determinar o que chacoalhava mais. Se era meu namorado convulsionando ou a rua de pedras que fazia o carro trepidar de forma intermitente.
Assim que avistei a primeira pessoa na rua — um senhor sentado de cócoras fumando um cigarro de palha —, com as mãos tremulas, estacionei o carro, ainda com meu namorado contorcendo no banco de trás em meio a tremores recorrentes e persistentes.
— Moço! Pelo amor de Deus, onde encontro um pronto socorro ou um médico neste lugar?
Aquele senhor olhou para meus olhos, como se eu destruísse o momento de paz do qual ele usufruía.
— Olha dona… — Disse ele parecendo indiferente a minha emergência. — Com muita sorte a senhora ainda vai achar o médico ali no postinho da cidade. Ele só vem uma vez na semana, mas a senhora vai ter que correr pois ele sempre vai embora por volta das cinco horas da tarde. — Respondeu olhando para o relógio — E só falta cinco minutos pro postinho fechar. — Afirmou enquanto apontava com o dedo indicando a direção do posto.
Nem tive tempo de agradecê-lo. Dirigi como uma louca para o local que aquele homem havia me mostrado enquanto os turistas que passeavam pelas ruas estreitas olhavam assustados para uma jovem de 28 anos dirigir como se estivesse em uma corrida. Estava lutando contra o tempo.
Ao chegar no local indicado, vi um casal de idosos saírem de mãos dadas com uma receita nas mãos.
Era um bom sinal, pois a probabilidade de eu encontrasse o médico no local era grande.
Olhei para meu namorado no banco de trás. Ele não parava de convulsionar.
Saí gritando por socorro, enquanto os turistas e moradores locais, me olhavam com os olhos esbugalhados.
Esperava que ninguém pudesse negar ajuda para uma mulher aflita.
Ao chegar no posto de saúde ­— na verdade uma velha casa improvisada para atendimento médico — dois homens surgiram não sei de onde para me ajudar.
Retiraram meu namorado do carro com tremores grosseiros e o levaram para dentro.
Os acompanhei, até que o colocaram sobre uma pequena maca e poucos minutos um médico já de meia idade surgiu, destacando fios de cabelos grisalhos.
— Boa tarde, moça. O que houve com esse jovem?
Perguntou enquanto coçava a cabeça. Confesso que achei a pergunta um tanto imbecil, pois ainda que eu fosse arquiteta, até meu irmãozinho de 9 anos de idade seria capaz de saber que aquilo era uma convulsão. Respirei fundo, tentando me acalmar.
— Meu namorado andou bebendo um pouquinho. Só que ele já fez isso outras vezes, mas nunca teve problemas. É a primeira vez que ele tem essas convulsões.
O médico retirou o estetoscópio do pescoço e aproximou-se da pessoa que havia destruído meu final de semana.
— Ele tem epilepsia ou faz uso de alguma medicação? Perguntou enquanto examinava o imbecil do meu futuro ex-namorado.
— Que eu saiba não. Pelo menos nestes últimos cinco anos que estou junto com ele, nunca vi ele ficar desse jeito e tampouco fazer uso de alguma medicação, exceto analgésicos para tratar algumas ressacas.
O médico olhou para Carlos que não parava de convulsionar.
— Senhorita, peço que aguarde lá fora. Seu namorado vai ficar bem. Vamos medicá-lo e se for preciso, iremos transferi-lo para Ouro Preto.
Não disse nada. Sai resignada do consultório. Quem sou eu para contrariar ordens médicas.
Sentei numa cadeira de plástico, colocada na entrada da pequena e precária unidade de saúde.
Na minha frente havia um relógio e vi o tempo passar.
Após duas horas sentada. Algo me incomodava. Praticamente todos os funcionários já haviam saído, exceto o médico.
Segui em direção ao consultório. Ao abrir a porta, vi apenas a maca vazia e o lençol que meu namorado havia sido colocado, havia sido trocado.
Estranho… Pensei enquanto caminhava pelo corredor. As luzes estavam apagadas. Parecia que não havia mais ninguém naquele lugar. Queria uma resposta sobre o que estava acontecendo.
Até que misteriosamente uma porta se fechou bem logo atrás.
Tentei abri-la, enquanto minhas mãos começavam a tremer.
— Será que algum idiota me trancou aqui? — Sussurrei enquanto voltava a caminhar até o final do corredor.
Foi então que me deparei com o quintal. A unidade de saúde era uma velha casa adaptada para o atendimento médico.
De longe, pude perceber que havia um homem cavando um buraco ao lado de um corpo que parecia estar enrolado em um lençol.  Uma onda de calafrio me atravessou.
Fiquei em silêncio. Por sorte o manto escuro da noite tornou-se minha proteção e me auxiliou a caminhar quase que de cócoras até um grande vaso de folhagens. Era perfeito e tornava impossível que alguém me visse.
Foi então que descobri que ele homem era o médico. Ele desenrolou o lençol e havia um corpo, cuja cabeça havia sido decepada.
Meu Deus do céu! Ele é um criminoso… Preciso chamar a polícia! Eram os únicos pensamentos que me dominavam naquele momento.
Vi que ele arremessou o corpo na cova e usando uma enxada enterrou o corpo do infeliz do meu namorado.
Uma sensação de remorso apossou de meu espírito. Não queria que tudo terminasse assim.
Tentei conter minhas lágrimas, mas sem sucesso. Tapava minha boca, de forma a não emitir nenhum ruído que denunciasse minha posição. Uma única verdade dominava meus pensamentos.
“Aquele maldito médico precisava ser preso! ”
Sabia que a minha única opção de saída estava bloqueada.
Tinha apenas duas opções. Ou permanecia onde estava em silêncio ou arriscaria procurar uma saída e chamaria a polícia para colocar aquele maldito meliante atrás das grades.
Foi então que lembrei de uma porta pela qual havia passado pelo corredor sem sequer tentar abri-la. Talvez fosse minha única oportunidade.
Voltei quase que me arrastando de cócoras em direção ao corredor até que encontrei a porta. Talvez minha porta para a liberdade…
Abri com cuidado para não fazer nenhum barulho de forma que não chamasse a atenção daquele maldito psicopata.
Assim que entrei na sala, ela lembrava um laboratório de algum cientista louco. Havia uma bancada de granito, com alguma experiência coberta por um pano branco.
Aproximei-me do recipiente e ao descobri-lo uma vontade de vomitar e de gritar me dominou quase que simultaneamente.
Havia descoberto um vidro na qual estava a cabeça de Carlos, meu namorado.
Precisava sair daquele maldito local o mais rápido possível. Estava desesperada e não encontrava nenhuma saída.
Ou eu enfrentava aquele maldito assassino, ou talvez minha cabeça fosse colocada junto a meu namorado.
Cautelosamente saí daquele macabro laboratório, sem antes segurar um bisturi que estava solto sobre a bancada.
Atravessei o corredor em direção ao vaso de flor, que praticamente me tornava invisível.
Percebi que aquele médico desgraçado ainda continuava com sua enxada a cobrir de terra o corpo de meu namorado.
Passo a passo, sem ser notada, segui em direção ao assassino com o bisturi em minhas mãos. Já podia apreciar o doce sabor da vingança.
Foi então que da mesma forma que uma serpente dá o seu bote, que encostei a lamina aguçada do bisturi na garganta do psicopata assassino.
— Não se mova, seu filho da puta ou eu arranco a sua cabeça do seu pescoço da mesma forma que você fez com meu namorado.
Para minha surpresa o médico começou a rir enquanto deixava cair a enxada suja de terra próximo ao buraco com o corpo de meu namorado já coberto. Não entendia o que havia de engraçado.
Foi então que senti uma onda de choque percorrer meu corpo e tudo se tornou uma escuridão.
— Doutor, minha filha está bem? — Perguntou a mãe de Alice, no hospital de Ouro Preto.
O médico coçou a cabeça enquanto olhava para a paciente sedada sobre o leito.
— Ela vai ficar bem. A senhora terá que mantê-la sobre constante cuidado, pois pacientes esquizofrênicos, tem que estar sobre constante vigília. Ela deu entrada aqui no hospital gritando que um médico em Lavras Novas, havia assassinado o namorado dela que se chamava Carlos, e que viu ele enterrá-lo no quintal do posto de saúde do pequeno vilarejo. Por sorte o segurança da unidade de saúde estava no local e quando a viu ameaçar o médico com um bisturi ele usando de um teaser, aplicou uma descarga elétrica não letal, e assim salvou a vida do médico e de sua filha.
A mãe de Alice, com os olhos marejados de lágrimas lembrou-se das diversas situações constrangedoras que a filha a havia colocado.
— Doutor, peço que desculpe minha filha. Ela não sabe o que faz. Sempre a mantive sobre meus cuidados e minha vigília constante. Ela nunca teve tempo de sair de casa e muito menos de arrumar algum namorado. Talvez eu a interne em uma clínica psiquiátrica, pois já não é a primeira vez que isso acontece e o psiquiatra que a acompanha já está ciente de tudo que está acontecendo. Na última consulta ele chegou até a indicar eletroconvulsoterapia.
O médico sorriu ao mesmo tempo em que colocava as mãos no ombro da mãe aflita.
— Ela vai ficar bem. Ela precisa apenas de cuidados especializados.
A mãe sorriu. Sentiu-se mais confortada.
— A senhora me perdoe, mas agora tenho que ir. Tenho outros compromissos.
A mãe de Alice consentiu com a cabeça enquanto afagava o rosto da filha.
O médico saiu da sala de emergência deixando a paciente sedada aos cuidados de outro colega que acabara de assumir o plantão.
Caminhou em direção ao estacionamento do hospital em direção a sua BMW e acionou o potente motor, seguindo com destino a Lavras Novas.

No porta malas, sujo de terra e enferrujada pelo tempo, havia uma velha enxada.


Hermes M. Lourenço


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