maio 21

Cuidado com os estrangeirismos: Ambientação, nome de personagens e pseudônimos

      
        Hoje quero falar sobre um assunto que sempre me incomodou muito e que tenho observado através de resenhas de diversos blogs especializados em Literatura, não é algo que apenas incomoda a mim. Trata-se da escolha de diversos autores nacionais quanto a ambientação que dão às suas histórias, bem como a escolha de nome de seus personagens. Já se tornou comum um brasileiro que jamais saiu do país – às vezes nem do estado – ambientar suas histórias nos Estados Unidos ou Inglaterra, achando que assim será mais cool. Gente, põe uma coisa na cabeça de vocês: livros ambientados no exterior existem aos montes, escritos – pasmem! – por pessoas que vivem naqueles países! Se eu, ou qualquer outro leitor/consumidor estamos adquirindo um livro nacional, queremos um personagem que come arroz com feijão, pão com manteiga, assiste novela, futebol, sofre com o calor, curte e respeita as diferenças culturais, ou seja, queremos um personagem BRASILEIRO com quem possamos nos identificar, um personagem que ao sairmos na rua, teremos a impressão de que podemos encontrá-lo em qualquer esquina, tal seja a familiaridade que ele nos traga, tanto em atitudes, quanto em relação ao local onde vive. Se eu quiser ler um livro ambientado em Londres, vou comprar um livro escrito por um autor inglês que vai tratar o assunto com a propriedade que lhe cabe.
          Existem inúmeros problemas que podem decorrer do fato de você escolher ambientar sua história no exterior, mas citarei apenas os mais óbvios:
1 – Ao basear-se em pesquisas na internet (recurso que a maioria utiliza) você pode dar diversos “furos”, utilizando dados ultrapassados ou irreais sobre os locais dos quais irá falar.  
2 – Você não tem como saber exatamente como o povo daquele país se comporta, por isso seu personagem poderá ficar “artificial” bem como a reação das pessoas à ele.
         E quanto ao uso de nomes “estrangeiros” ou nomes inventados por você para seu personagem, você também estará criando problemas, pois:
1 – Estará dificultando a identificação do público com ele,
2 – Estará dificultando a memorização dos nomes deles, o que sempre é ruim, tenho um colega que escreveu um livro com nomes bem originais e depois quando fui ler resenhas do livro dele, todos só comentavam que foi difícil compreender a história porque não conseguiam memorizar o nome dos personagens, por isso cuidado, originalidade e criatividade são bons, mas como tudo na vida, há limites.
           Para pra pensar em todos os livros nacionais que você já leu. Quais foram os que você mais gostou? Onde eles eram ambientados?
           Em minha adolescência, li vários livros ambientados no Rio de Janeiro e muitos mais ambientados em São Paulo. Achava maravilhoso quando o personagem pegava o metrô e descia na estação República, aquela mesma na qual eu havia passado no dia anterior.
           Pense em Monteiro Lobato com suas locações interioranas em Sítio do Pica-pau amarelo? Ele não é uma referência da literatura brasileira infantil até hoje à toa. Quantos de nós aprendemos a amar seus cenários que lembravam os sítios de nossos próprios avós onde vivemos aventuras mil?
           E André Vianco, cujo maior mérito sempre foi sua ambientação em São Paulo, colocando seus vampiros em meio a agitada vida da metrópole? E Eduardo Spohr com seus anjos sobrevoando o Cristo Redentor?
           É claro que há os que dirão: mas e Paulo Coelho? Ele geralmente ambienta suas histórias no exterior. Sim, concordo, mas veja bem, via de regra são lugares que ele DE FATO conheceu, em alguns, ele até morou alguns anos. Deste modo, ele consegue falar dos lugares e dos costumes de forma satisfatória.
           Ah, e é claro que tudo isso nos leva a mais um assunto que gostaria de abordar: a adoção de pseudônimos. Sabemos que 90% dos escritores fazem isso, mas eu gostaria de fazer aí uma ressalva. Tenho conhecido autores que adotam nomes tais como “Stefanie Brigdet“, “Carl Smith” e por aí vai – aliás, são os mesmos que ambientam suas histórias no exterior e dão nomes difíceis a seus personagens – e a justificativa deles é que pretendem alçar carreira internacional, por isso adotaram o nome “americanizado“. Ora, Paulo Coelho não tornou-se Paul Rabitt para ser melhor aceito no mercado internacional e mesmo assim ele é o autor brasileiro que mais vende lá fora.

           Nosso país é tão vasto e possui tantos cenários não explorados literariamente, que tal escrever um livro ambientado em Rio Branco, Manaus, Curitiba, Cuiabá? Nunca li nada assim! E que tal criar alguma Carolina, que se apaixona por um garoto chamado Pedro e assinar tudo isso com o singelo pseudônimo de João Silva? Por que não? Valorize suas raízes, tenha orgulho de seu país e de você, porque assim, nós, leitores, também teremos. 

            Já dizia o grande Tolstói:


Elaine Velasco é autora da série Limiar,ambientada em sua cidade natal,onde reside ainda hoje. A história se desenrola em torno de Samuel, Ester e Miguel. Para saber mais, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br

maio 21

Cuidado com os estrangeirismos: Ambientação, nome de personagens e pseudônimos

      
        Hoje quero falar sobre um assunto que sempre me incomodou muito e que tenho observado através de resenhas de diversos blogs especializados em Literatura, não é algo que apenas incomoda a mim. Trata-se da escolha de diversos autores nacionais quanto a ambientação que dão às suas histórias, bem como a escolha de nome de seus personagens. Já se tornou comum um brasileiro que jamais saiu do país – às vezes nem do estado – ambientar suas histórias nos Estados Unidos ou Inglaterra, achando que assim será mais cool. Gente, põe uma coisa na cabeça de vocês: livros ambientados no exterior existem aos montes, escritos – pasmem! – por pessoas que vivem naqueles países! Se eu, ou qualquer outro leitor/consumidor estamos adquirindo um livro nacional, queremos um personagem que come arroz com feijão, pão com manteiga, assiste novela, futebol, sofre com o calor, curte e respeita as diferenças culturais, ou seja, queremos um personagem BRASILEIRO com quem possamos nos identificar, um personagem que ao sairmos na rua, teremos a impressão de que podemos encontrá-lo em qualquer esquina, tal seja a familiaridade que ele nos traga, tanto em atitudes, quanto em relação ao local onde vive. Se eu quiser ler um livro ambientado em Londres, vou comprar um livro escrito por um autor inglês que vai tratar o assunto com a propriedade que lhe cabe.
          Existem inúmeros problemas que podem decorrer do fato de você escolher ambientar sua história no exterior, mas citarei apenas os mais óbvios:
1 – Ao basear-se em pesquisas na internet (recurso que a maioria utiliza) você pode dar diversos “furos”, utilizando dados ultrapassados ou irreais sobre os locais dos quais irá falar.  
2 – Você não tem como saber exatamente como o povo daquele país se comporta, por isso seu personagem poderá ficar “artificial” bem como a reação das pessoas à ele.
         E quanto ao uso de nomes “estrangeiros” ou nomes inventados por você para seu personagem, você também estará criando problemas, pois:
1 – Estará dificultando a identificação do público com ele,
2 – Estará dificultando a memorização dos nomes deles, o que sempre é ruim, tenho um colega que escreveu um livro com nomes bem originais e depois quando fui ler resenhas do livro dele, todos só comentavam que foi difícil compreender a história porque não conseguiam memorizar o nome dos personagens, por isso cuidado, originalidade e criatividade são bons, mas como tudo na vida, há limites.
           Para pra pensar em todos os livros nacionais que você já leu. Quais foram os que você mais gostou? Onde eles eram ambientados?
           Em minha adolescência, li vários livros ambientados no Rio de Janeiro e muitos mais ambientados em São Paulo. Achava maravilhoso quando o personagem pegava o metrô e descia na estação República, aquela mesma na qual eu havia passado no dia anterior.
           Pense em Monteiro Lobato com suas locações interioranas em Sítio do Pica-pau amarelo? Ele não é uma referência da literatura brasileira infantil até hoje à toa. Quantos de nós aprendemos a amar seus cenários que lembravam os sítios de nossos próprios avós onde vivemos aventuras mil?
           E André Vianco, cujo maior mérito sempre foi sua ambientação em São Paulo, colocando seus vampiros em meio a agitada vida da metrópole? E Eduardo Spohr com seus anjos sobrevoando o Cristo Redentor?
           É claro que há os que dirão: mas e Paulo Coelho? Ele geralmente ambienta suas histórias no exterior. Sim, concordo, mas veja bem, via de regra são lugares que ele DE FATO conheceu, em alguns, ele até morou alguns anos. Deste modo, ele consegue falar dos lugares e dos costumes de forma satisfatória.
           Ah, e é claro que tudo isso nos leva a mais um assunto que gostaria de abordar: a adoção de pseudônimos. Sabemos que 90% dos escritores fazem isso, mas eu gostaria de fazer aí uma ressalva. Tenho conhecido autores que adotam nomes tais como “Stefanie Brigdet“, “Carl Smith” e por aí vai – aliás, são os mesmos que ambientam suas histórias no exterior e dão nomes difíceis a seus personagens – e a justificativa deles é que pretendem alçar carreira internacional, por isso adotaram o nome “americanizado“. Ora, Paulo Coelho não tornou-se Paul Rabitt para ser melhor aceito no mercado internacional e mesmo assim ele é o autor brasileiro que mais vende lá fora.

           Nosso país é tão vasto e possui tantos cenários não explorados literariamente, que tal escrever um livro ambientado em Rio Branco, Manaus, Curitiba, Cuiabá? Nunca li nada assim! E que tal criar alguma Carolina, que se apaixona por um garoto chamado Pedro e assinar tudo isso com o singelo pseudônimo de João Silva? Por que não? Valorize suas raízes, tenha orgulho de seu país e de você, porque assim, nós, leitores, também teremos. 

            Já dizia o grande Tolstói:


Elaine Velasco é autora da série Limiar,ambientada em sua cidade natal,onde reside ainda hoje. A história se desenrola em torno de Samuel, Ester e Miguel. Para saber mais, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br