maio 28

Frases que você NUNCA deve dizer a um escritor:


Sei que talvez me achem rabugenta ou mesmo indelicada por abordar esse assunto, mas após ouvir pelo milionésima vez uma dessas perguntas, decidi fazer uma “enquete” com meus colegas escritores e listar aqui as 5 citações mais chatas e inoportunas que já ouvimos e não foi surpresa constatar que todas elas coincidiam. Escrevo isso aqui, na esperança de que se um dia cruzar com um de vocês queridos amigos que acompanham o blog, eu não seja obrigada a ouvir nenhuma dessas pérolas…
1 – “Eu não li o seu livro, mas…” ou “Eu não li seu livro porque…” – A verdade é que você não leu porque não ficou a fim – e isso aliás, é um direito seu, ninguém é obrigado a gostar ou interessar-se por algo. Só que você não vai dizer isso, vai inventar desculpas esfarrapadas. Portanto, melhor e mais educado não tocar no assunto.
2 – “Eu também sonho em escrever um livro, falando sobre a minha vida…” – Sinto destroçar seus sonhos, mas se você não é o Neymar, nem uma garota de programa ou algo que o valha, dificilmente esse seu sonho se tornará realidade… Ninguém se interessa pela vida de uma pessoa comum, não importa o quanto você se julgue incomum, se você não é milionário nem famoso, para os demais habitantes do planeta Terra você é tão somente mais um ilustre desconhecido.
3 – Tenho uma ideia legal, por que você não escreve um livro sobre isso? – Na verdade, nós escritores não escrevemos mais não porque não temos ideias o suficiente, mas porque, via de regra, não temos tempo suficiente. Acredite, já sofremos o suficiente com nossas próprias ideias não colocadas no papel para precisar de outras mais.
4 – Eu escrevi um texto/livro, você poderia ler e me dizer o que achou? – Na maioria das vezes, nós escritores, além de escrever, ainda temos que ralar num outro emprego de 40 horas semanais, cuidar da família, da casa e de tantos outros afazeres, portanto, sem querer magoá-lo, muito provavelmente, não teremos tempo para analisar seu manuscrito, melhor enviá-lo para um agente, um consultou ou editor, que além de tudo, são mais gabaritados que nós escritores para darem um parecer sobre seu texto.
5 – Você escreveu sozinho? – Quando ouço isso, tenho vontade de responder: “Claro que não, paguei um ghost writer para fazê-lo, afinal, sou tããão rica!!!” Ou então: – “Ah não, na verdade, eu tive ajuda do “além” para isso.”  
Elaine Velasco é autora da série Limiar, para mais informações e postagens, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br
maio 28

Frases que você NUNCA deve dizer a um escritor:


Sei que talvez me achem rabugenta ou mesmo indelicada por abordar esse assunto, mas após ouvir pelo milionésima vez uma dessas perguntas, decidi fazer uma “enquete” com meus colegas escritores e listar aqui as 5 citações mais chatas e inoportunas que já ouvimos e não foi surpresa constatar que todas elas coincidiam. Escrevo isso aqui, na esperança de que se um dia cruzar com um de vocês queridos amigos que acompanham o blog, eu não seja obrigada a ouvir nenhuma dessas pérolas…
1 – “Eu não li o seu livro, mas…” ou “Eu não li seu livro porque…” – A verdade é que você não leu porque não ficou a fim – e isso aliás, é um direito seu, ninguém é obrigado a gostar ou interessar-se por algo. Só que você não vai dizer isso, vai inventar desculpas esfarrapadas. Portanto, melhor e mais educado não tocar no assunto.
2 – “Eu também sonho em escrever um livro, falando sobre a minha vida…” – Sinto destroçar seus sonhos, mas se você não é o Neymar, nem uma garota de programa ou algo que o valha, dificilmente esse seu sonho se tornará realidade… Ninguém se interessa pela vida de uma pessoa comum, não importa o quanto você se julgue incomum, se você não é milionário nem famoso, para os demais habitantes do planeta Terra você é tão somente mais um ilustre desconhecido.
3 – Tenho uma ideia legal, por que você não escreve um livro sobre isso? – Na verdade, nós escritores não escrevemos mais não porque não temos ideias o suficiente, mas porque, via de regra, não temos tempo suficiente. Acredite, já sofremos o suficiente com nossas próprias ideias não colocadas no papel para precisar de outras mais.
4 – Eu escrevi um texto/livro, você poderia ler e me dizer o que achou? – Na maioria das vezes, nós escritores, além de escrever, ainda temos que ralar num outro emprego de 40 horas semanais, cuidar da família, da casa e de tantos outros afazeres, portanto, sem querer magoá-lo, muito provavelmente, não teremos tempo para analisar seu manuscrito, melhor enviá-lo para um agente, um consultou ou editor, que além de tudo, são mais gabaritados que nós escritores para darem um parecer sobre seu texto.
5 – Você escreveu sozinho? – Quando ouço isso, tenho vontade de responder: “Claro que não, paguei um ghost writer para fazê-lo, afinal, sou tããão rica!!!” Ou então: – “Ah não, na verdade, eu tive ajuda do “além” para isso.”  
Elaine Velasco é autora da série Limiar, para mais informações e postagens, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br
maio 26

O IGLU

Olá amigos do blog!

Hoje trago uma estória que foi enviada pela Maria Teresa Santoro Dörrenberg, uma das seguidoras do blog que gentilmente nos agraciou com seu texto.

Lembrem-se de deixar seus comentários.
Um forte abraço a todos!

O Iglu


                                                  mt/2010

Estava tudo escuro. As pessoas dormiam. Só aquele monótono barulho do motor do avião tinha vida. Eu me cansei de jogar videogame e o pus na mesinha na minha frente.

Eles moram em iglus, como do museu no parque da minha cidade, ou dos desenhos da TV, das histórias de Natal. Vou morar em um iglu cercado de neve.
Da janela vi as nuvens e a lua.
É um lugar branco e gelado, sem árvore nem nada. Só água, gelo e céu. É frio e quieto lá e iglus são muito pequenos. Não vou ter um quarto, nem vai caber brinquedos. Tudo cheio de gelo e céu. Não vou andar de bicicleta. Vai ser legal?
Eu estava meio triste. Olhei para mãe, mas ela dormia também.
Ah! mas vou pescar um peixão, o maior que tiver. Patinar e descer montanha e deslizar na neve. Vai ser cool!
Aí mãe soltou um bocejo.
Mãe, eles moram em iglus?
Ela riu.
Não, querido, eles moram em casas normais. Iglus estão no Alaska, no Ártico. Não vamos pra lá.
Pena! Eu já gostava da ideia de morar em um iglu.
E então as casas foram aparecendo na janela e não eram iglus e o trem corria e eu não conseguia ver as casas direito e passava floresta e aparecia bosque e estação e vinha vilarejo e eu tentava olhar as casas e não conseguia e fiquei cansado desse filme maluco e desisti de olhar as casas.
Fui morar num apartamento na cidade, que não era uma casa, mas era grande e eu tinha um quarto e não era iglu, nem tinha neve. Pena!
Bom dia, senhora Dabia!
Era assim que começava minha vida na nova escola, todos os dias. No terceiro acompanhei o coro: ‘Bom dia, senhora Dabia’. O resto eu não entendia. Eles falavam e eu olhava, falavam e eu olhava. Depois não dei mais bola e falava errado mesmo. A professora era legal. Ela falava comigo fazendo sinais, mostrando figuras.
O telefone não tocava como na minha casa. Mae e eu não tínhamos amigos.
Mas isso durou pouco. Eu passeava muito pra conhecer o lugar, ia ao shopping igual da minha cidade, ia a uns parques lindos, tinha lagoa e pato. Até castelo no meio. Ia pra museu, subia na torre de TV, tomava sorvete. Tinha uma feira das pulgas enorme no sábado e as festas de rua. Era uma cidade movimentada. Era divertido ver o que acontecia. Descobrir as coisas, correr no parque, levar pão pros patos. Até ajudar mãe com as sacolas do supermercado era divertido. A gente fazia tudo de metro, que era velho, sujo e tinha um cheiro esquisito. Mas era muito grande, parecia que não tinha fim.
Eu falava com mãe na nossa língua. Apontava coisas interessantes, perguntava, pedia coisas. Mãe dizia que eu era o maior pedinte que ela conheceu. Eu falava tudo em voz alta e isso ajudou a gente a conhecer as pessoas. Mãe não. Ela era quieta. Acho que tinha vergonha de falar errado. Mas depois de um tempo a gente tinha um monte de amigos.
 Entrei no clube de pesca da cidade. Tinha encontro no fim de semana, fora da cidade, num grande lago. A gente aprendia a pescar e treinava o tempo todo, até com chuva. Isso era super! O chato era entrar na água cedinho, quando já era quase inverno. Nessa época eu falava a língua deles melhor e aprendi um monte de coisas interessantes sobre pescaria e peixes.
Um dia, cheguei em casa com um peixão enorme. Foi o maior que pesquei até hoje. Eu tava tão feliz com meu troféu e o peixe que levei ele vivo pra lá. Tinha uns amigos tomando café lá.
Sob protestos de mãe, pus o peixão na banheira. Ele voltou a nadar, todo imponente e feliz. Eu fiquei só curtindo meu peixe e minha vitória.
E os amigos vieram olhar meu peixão. Aí chegou o Sebastian, meu vizinho, e ele não acreditou que eu tinha pescado aquele peixe enorme. Tive que explicar pra ele. Todos conversavam sobre meu peixe e até mãe tava orgulhosa, mas ela desinfetou a banheira depois. Eu tinha um livro sobre peixes e mostrei a eles o tipo do meu peixe.
O peixe só nadava, feliz de ter plateia, mas mais feliz tava eu que me senti o herói do dia. Foi muito engraçado ver as pessoas tomando café no banheiro.
Nessa época eu já pedalava minha bicicleta novinha. Todo mundo andava de bici. Eu fazia miséria com a minha, mas mãe me fazia por capacete e joelheira. Fim de semana eu ia pedalar e fazer pic-nic no parque. Era o máximo.
Outra coisa muito legal naquele lugar era a feira de natal. Todinha iluminada, no meio da praça, uma maravilha. Um natal que eu ia de férias pro meu país, fomos comprar uns presentes lá e eu achei um bem bacana pro meu tio: era um hambúrguer igualzinho do McDonalds, perfeito, só que tinha um pedaço de coco de plástico no lugar da carne. Pus o hambúrguer numa linda caixa enfeitada. Na noite de natal, no maior suspense dei o sanduiche especial pro tio. Quando ele viu, ficou vermelho que nem um camarão. Pensei que ele ia me bater. Todo mundo chorava de rir. Aí, ele me pegou pelos pés, me virou de ponta cabeça e me chacoalhou. Depois tirou meu sapato e jogou da janela do apartamento da minha avó, do 11. andar. Mesmo vingado, ninguém parou de rir. Meus primos contam até hoje essa história. Foi um grande natal.
Nem tudo era festa na minha vida. Tivemos que mudar de casa. Eu mudei de escola também e nessa não tinha a senhora Dabia. Tinha problemas com umas matérias chatas e não entendia os cálculos. Por que eu tinha que saber aquilo tudo? Minhas notas despencaram, até que arrumamos um professor. Foi duro. Eu ficava muito cansado. Quando ia aprender aqueles cálculos e as outras coisas chatas? Mas o professor era legal e até comecei a gostar de umas matérias.
Mas o que eu gostava mesmo de fazer era desenhar e inventar coisas. Ventilador e misturador de cacau com peças do secador de cabelo velho de mãe, motor pra meu carro lego. Desenhar caricaturas engraçadas das pessoas.
Desde que me conheço por gente, mãe diz que eu sou meio estabanado e vivo tropeçando e pisando nos pés dela. Mas ela me ama mesmo assim.

Que surpresa achar esse texto entre os guardados. Estava arrumando fotos antigas e encontrei as folhas dobradas. O título do antigo trabalho escolar era “Aventuras de um Jovem Homem”.

Como um “jovem homem”, pensei em 1000 coisas que eu poderia contar da minha vida estrangeira, mas ninguém tem muito tempo. E por que alguém iria se interessar pelas coisas que um garoto faz? Garotos dessa idade só querem se meter, descobrir novidades, fazer coisas diferentes e se sentir heróis, como das histórias que eles leem ou veem nos filmes. Meninos são todos iguais. Eu sou igual. Só achei que ia morar num iglu. Uma ideia maluca. Nada como voar para Marte, encontrar um vilão extraterreno vermelho. Nada muito especial.
Morei nesse lugar muito, muito tempo, anos, e depois eu não me sentia mais estranho lá. Falava igual a eles, pensava igual e sonhava na língua deles. Um dia me olhei no espelho e tava até parecido com eles. Fiz um filme na minha cabeça de tudo que vi e conheci. Só não gostei de umas coisinhas que aconteceram e de algumas pessoas que conheci.
Uma vez, na escola, fui falar com um garoto e ele me disse ‘verschwinden!’ muito alto. Eu não sabia a palavra, mas entendi que era um palavrão e fiquei muito chateado. Cheguei em casa chorando, afinal eu não tinha feito nada pra ele me ofender. Mãe procurou no dicionário e encontrou ‘suma! desapareça!’. Ela disse que o menino tava com algum problema e depois dela me consolar, me senti melhor, mas nunca mais falei com o menino. Mas isso foi no começo, quando eu ainda era muito estranho lá.
Depois voltei pra minha terra. Fiquei surpreso porque aí eu me sentia estranho na minha terra e na minha língua também. Eu tinha nascido e vivido no meu país tanto tempo. Quando voltei me sentia meio, meio um esquimó no meio deles. Vivi com essa sensação como uma sombra, nunca me acostumei a ser quem eu era antes. Sempre me senti meio, meio esquimó ali.
Hoje eu vivo naquela minha nova terra de antes, que não é mais nova pra mim e não moro em iglu, nem me sinto um esquimó, mas eu ainda gosto da ideia de morar em um iglu.
 

Maria Teresa Santoro Dörrenberg

Texto integral postado com autorização da autora.

 
maio 26

O IGLU

Olá amigos do blog!

Hoje trago uma estória que foi enviada pela Maria Teresa Santoro Dörrenberg, uma das seguidoras do blog que gentilmente nos agraciou com seu texto.

Lembrem-se de deixar seus comentários.
Um forte abraço a todos!

O Iglu


                                                  mt/2010

Estava tudo escuro. As pessoas dormiam. Só aquele monótono barulho do motor do avião tinha vida. Eu me cansei de jogar videogame e o pus na mesinha na minha frente.

Eles moram em iglus, como do museu no parque da minha cidade, ou dos desenhos da TV, das histórias de Natal. Vou morar em um iglu cercado de neve.
Da janela vi as nuvens e a lua.
É um lugar branco e gelado, sem árvore nem nada. Só água, gelo e céu. É frio e quieto lá e iglus são muito pequenos. Não vou ter um quarto, nem vai caber brinquedos. Tudo cheio de gelo e céu. Não vou andar de bicicleta. Vai ser legal?
Eu estava meio triste. Olhei para mãe, mas ela dormia também.
Ah! mas vou pescar um peixão, o maior que tiver. Patinar e descer montanha e deslizar na neve. Vai ser cool!
Aí mãe soltou um bocejo.
Mãe, eles moram em iglus?
Ela riu.
Não, querido, eles moram em casas normais. Iglus estão no Alaska, no Ártico. Não vamos pra lá.
Pena! Eu já gostava da ideia de morar em um iglu.
E então as casas foram aparecendo na janela e não eram iglus e o trem corria e eu não conseguia ver as casas direito e passava floresta e aparecia bosque e estação e vinha vilarejo e eu tentava olhar as casas e não conseguia e fiquei cansado desse filme maluco e desisti de olhar as casas.
Fui morar num apartamento na cidade, que não era uma casa, mas era grande e eu tinha um quarto e não era iglu, nem tinha neve. Pena!
Bom dia, senhora Dabia!
Era assim que começava minha vida na nova escola, todos os dias. No terceiro acompanhei o coro: ‘Bom dia, senhora Dabia’. O resto eu não entendia. Eles falavam e eu olhava, falavam e eu olhava. Depois não dei mais bola e falava errado mesmo. A professora era legal. Ela falava comigo fazendo sinais, mostrando figuras.
O telefone não tocava como na minha casa. Mae e eu não tínhamos amigos.
Mas isso durou pouco. Eu passeava muito pra conhecer o lugar, ia ao shopping igual da minha cidade, ia a uns parques lindos, tinha lagoa e pato. Até castelo no meio. Ia pra museu, subia na torre de TV, tomava sorvete. Tinha uma feira das pulgas enorme no sábado e as festas de rua. Era uma cidade movimentada. Era divertido ver o que acontecia. Descobrir as coisas, correr no parque, levar pão pros patos. Até ajudar mãe com as sacolas do supermercado era divertido. A gente fazia tudo de metro, que era velho, sujo e tinha um cheiro esquisito. Mas era muito grande, parecia que não tinha fim.
Eu falava com mãe na nossa língua. Apontava coisas interessantes, perguntava, pedia coisas. Mãe dizia que eu era o maior pedinte que ela conheceu. Eu falava tudo em voz alta e isso ajudou a gente a conhecer as pessoas. Mãe não. Ela era quieta. Acho que tinha vergonha de falar errado. Mas depois de um tempo a gente tinha um monte de amigos.
 Entrei no clube de pesca da cidade. Tinha encontro no fim de semana, fora da cidade, num grande lago. A gente aprendia a pescar e treinava o tempo todo, até com chuva. Isso era super! O chato era entrar na água cedinho, quando já era quase inverno. Nessa época eu falava a língua deles melhor e aprendi um monte de coisas interessantes sobre pescaria e peixes.
Um dia, cheguei em casa com um peixão enorme. Foi o maior que pesquei até hoje. Eu tava tão feliz com meu troféu e o peixe que levei ele vivo pra lá. Tinha uns amigos tomando café lá.
Sob protestos de mãe, pus o peixão na banheira. Ele voltou a nadar, todo imponente e feliz. Eu fiquei só curtindo meu peixe e minha vitória.
E os amigos vieram olhar meu peixão. Aí chegou o Sebastian, meu vizinho, e ele não acreditou que eu tinha pescado aquele peixe enorme. Tive que explicar pra ele. Todos conversavam sobre meu peixe e até mãe tava orgulhosa, mas ela desinfetou a banheira depois. Eu tinha um livro sobre peixes e mostrei a eles o tipo do meu peixe.
O peixe só nadava, feliz de ter plateia, mas mais feliz tava eu que me senti o herói do dia. Foi muito engraçado ver as pessoas tomando café no banheiro.
Nessa época eu já pedalava minha bicicleta novinha. Todo mundo andava de bici. Eu fazia miséria com a minha, mas mãe me fazia por capacete e joelheira. Fim de semana eu ia pedalar e fazer pic-nic no parque. Era o máximo.
Outra coisa muito legal naquele lugar era a feira de natal. Todinha iluminada, no meio da praça, uma maravilha. Um natal que eu ia de férias pro meu país, fomos comprar uns presentes lá e eu achei um bem bacana pro meu tio: era um hambúrguer igualzinho do McDonalds, perfeito, só que tinha um pedaço de coco de plástico no lugar da carne. Pus o hambúrguer numa linda caixa enfeitada. Na noite de natal, no maior suspense dei o sanduiche especial pro tio. Quando ele viu, ficou vermelho que nem um camarão. Pensei que ele ia me bater. Todo mundo chorava de rir. Aí, ele me pegou pelos pés, me virou de ponta cabeça e me chacoalhou. Depois tirou meu sapato e jogou da janela do apartamento da minha avó, do 11. andar. Mesmo vingado, ninguém parou de rir. Meus primos contam até hoje essa história. Foi um grande natal.
Nem tudo era festa na minha vida. Tivemos que mudar de casa. Eu mudei de escola também e nessa não tinha a senhora Dabia. Tinha problemas com umas matérias chatas e não entendia os cálculos. Por que eu tinha que saber aquilo tudo? Minhas notas despencaram, até que arrumamos um professor. Foi duro. Eu ficava muito cansado. Quando ia aprender aqueles cálculos e as outras coisas chatas? Mas o professor era legal e até comecei a gostar de umas matérias.
Mas o que eu gostava mesmo de fazer era desenhar e inventar coisas. Ventilador e misturador de cacau com peças do secador de cabelo velho de mãe, motor pra meu carro lego. Desenhar caricaturas engraçadas das pessoas.
Desde que me conheço por gente, mãe diz que eu sou meio estabanado e vivo tropeçando e pisando nos pés dela. Mas ela me ama mesmo assim.

Que surpresa achar esse texto entre os guardados. Estava arrumando fotos antigas e encontrei as folhas dobradas. O título do antigo trabalho escolar era “Aventuras de um Jovem Homem”.

Como um “jovem homem”, pensei em 1000 coisas que eu poderia contar da minha vida estrangeira, mas ninguém tem muito tempo. E por que alguém iria se interessar pelas coisas que um garoto faz? Garotos dessa idade só querem se meter, descobrir novidades, fazer coisas diferentes e se sentir heróis, como das histórias que eles leem ou veem nos filmes. Meninos são todos iguais. Eu sou igual. Só achei que ia morar num iglu. Uma ideia maluca. Nada como voar para Marte, encontrar um vilão extraterreno vermelho. Nada muito especial.
Morei nesse lugar muito, muito tempo, anos, e depois eu não me sentia mais estranho lá. Falava igual a eles, pensava igual e sonhava na língua deles. Um dia me olhei no espelho e tava até parecido com eles. Fiz um filme na minha cabeça de tudo que vi e conheci. Só não gostei de umas coisinhas que aconteceram e de algumas pessoas que conheci.
Uma vez, na escola, fui falar com um garoto e ele me disse ‘verschwinden!’ muito alto. Eu não sabia a palavra, mas entendi que era um palavrão e fiquei muito chateado. Cheguei em casa chorando, afinal eu não tinha feito nada pra ele me ofender. Mãe procurou no dicionário e encontrou ‘suma! desapareça!’. Ela disse que o menino tava com algum problema e depois dela me consolar, me senti melhor, mas nunca mais falei com o menino. Mas isso foi no começo, quando eu ainda era muito estranho lá.
Depois voltei pra minha terra. Fiquei surpreso porque aí eu me sentia estranho na minha terra e na minha língua também. Eu tinha nascido e vivido no meu país tanto tempo. Quando voltei me sentia meio, meio um esquimó no meio deles. Vivi com essa sensação como uma sombra, nunca me acostumei a ser quem eu era antes. Sempre me senti meio, meio esquimó ali.
Hoje eu vivo naquela minha nova terra de antes, que não é mais nova pra mim e não moro em iglu, nem me sinto um esquimó, mas eu ainda gosto da ideia de morar em um iglu.
 

Maria Teresa Santoro Dörrenberg

Texto integral postado com autorização da autora.

 
maio 23

AS ROMÃS

As romãs 
                                                                                                                             

Nenhuma romã eu tive,
meu vizinho é que as tinha.
Lembro-me do tempo em que se abriam,
as frestas femininas…
Nada  nem ninguém as traduzia,
nem se sabia para que lado iam ,
as sementes úmidas,
urgentes e descabidas.
Das romãs apenas havia
uma idéia geral.
O domínio do assunto “romã”
era faltoso,
impalpável.
Nem o vizinho, provavelmente, as tinha, as romãs!
Sei que o vento espalhava seu langor,
e tudo era espanto ao redor do vermelho
que dizia ao mundo
coisas do âmbito do segredo.
Ah, as romãs, tinham a ver com a soltura dos ventos
e a abertura das prisões!


                          Eulàlia Jordà
maio 23

AS ROMÃS

As romãs 
                                                                                                                             

Nenhuma romã eu tive,
meu vizinho é que as tinha.
Lembro-me do tempo em que se abriam,
as frestas femininas…
Nada  nem ninguém as traduzia,
nem se sabia para que lado iam ,
as sementes úmidas,
urgentes e descabidas.
Das romãs apenas havia
uma idéia geral.
O domínio do assunto “romã”
era faltoso,
impalpável.
Nem o vizinho, provavelmente, as tinha, as romãs!
Sei que o vento espalhava seu langor,
e tudo era espanto ao redor do vermelho
que dizia ao mundo
coisas do âmbito do segredo.
Ah, as romãs, tinham a ver com a soltura dos ventos
e a abertura das prisões!


                          Eulàlia Jordà
maio 23

Conto do Fantastiverso: Capítulo 3

“Sete autores. 
Sete livros. 
Uma história.”

Sinopse: O anjo caído Samael está reunindo um exército composto de criaturas sobrenaturais. Os anjos tentarão impedi-lo. Mas descobrirão que o único sentimento mais forte que a vingança é o amor…

Capítulo 3
Eu podia sentir o seu medo. O seu chamado silencioso ecoando em minha mente enquanto eu disparava à sua procura, com todos os meus sentidos vampirescos em alerta. Algo estava errado, muito errado. E tudo o que conseguia pensar naquele momento era em Ceci. Em protegê-la. Nem mesmo meu amor por Aaron conseguia suplantar o desejo de encontrar e salvar aquela criança.
À minha volta, o silêncio era ainda mais assustador. E enquanto eu corria em direção aos quartos das crianças, tentava absorver o máximo de informações possíveis na esperança de descobrir o que estava acontecendo. Porém, os únicos cheiros que captava com meus sentidos aguçados eram ainda os mesmos de antes. Não obstante, havia algo mais, eu também podia sentir um terrível e conhecido odor se espalhando pelo ar, empesteando-o… O horrível cheiro da morte.
— Ceci! — sussurrei, ao entrar em seu quarto. Temendo que se falasse seu nome alto demais, pudesse colocá-la em perigo.
As luzes estavam apagadas e sua cama encontrava-se revirada e vazia. E ao ver aquela cena, senti como se dedos gelados e implacáveis estivessem se fechando em torno do meu coração. Um calafrio percorrera minha espinha. Desesperada e atordoada, eu direciono minha atenção para o guarda roupas e corro até ele, apreensiva. E sem pensar duas vezes, rapidamente abro as portas. A menina salta em meus braços, assustada e tremendo de medo.
— O que foi? O que aconteceu? — eu pergunto, erguendo-a em meu colo, mas ela nada diz. Estava em total estado de pânico. — O que foi? — eu volto a perguntar.
Mas Ceci estava assustada demais e chorava sem parar. Ela tentara falar, mas não conseguira; as palavras lhe escapavam da boca, embaralhadas e sem sentido.
 — Shhh! — eu lhe fiz sinal para que se acalmasse e a embalei em meus braços tentando reconfortá-la. Porém ao invés disso, eu a vi arregalar seus enormes olhos verdes, e escancarar sua boca, aterrorizada.
— E-eles estão… — ela tenta me alertar.
Algo estava vindo nos pegar. Eu pressenti o perigo às nossas costas, e todo o meu corpo se inundara de adrenalina, à medida que meu sistema nervoso se preparava para reagir. Meu coração começou a martelar contra meu peito; tão forte que eu podia ouvir o meu sangue pulsando em minhas têmporas. Eu precisava salvar Ceci, ela era tudo o que importava naquele momento. Daria a minha vida se preciso fosse para salvá-la. Se ao menos Aaron estivesse ali para me ajudar. Se ao menos eu tivesse lhe avisado que sairia à procura de Ceci, ao invés de deixá-lo desacordado no motel onde nos instalamos, quem sabe agora ele estivesse ao meu lado, protegendo nós duas: eu e essa linda e indefesa garotinha. Mas, ao invés disso, ali estava eu em um dos quartos do abrigo do Padre Miguel com Ceci em meus braços apavorada, e me preparando para enfrentar a presença terrivelmente ameaçadora que se aproximava. Agora não havia mais como voltar atrás, era lutar ou morrer. E eu escolhi lutar. Lutar para salvar Ceci e, principalmente, para voltar para Aaron. Então, resoluta e cheia de coragem, eu me viro com Ceci em meus braços, e encaro nosso destino.
Eu acordei molhada de suor e o silêncio me acolhera. Fora um pesadelo então? Ceci estava bem, afinal. Que alívio, eu pensei, respirando fundo para recobrar o fôlego.
Eu me levanto e deixo o meu quarto. Toda a Casa das Tochas jaz em um silêncio inquietante, da mesma forma que antes. Apenas barulhos ocasionais de louça, oriundos da cozinha, chegam aos meus ouvidos. Mas, fora isso, o silêncio impera incólume em toda a residência; perturbador e asfixiante.
Aaron me deixara sozinha e saíra com Nestor e os outros vampiros, na esperança de descobrir o que Stéfano e seus comparsas estavam tramando. E eu fiquei para proteger Ceci e me recuperar dos traumas recentes que sofri quando saí em busca de resgatar a menina. Mas valeu a pena, faria tudo de novo, se assim fosse preciso. Apesar de todos os riscos e de quase ter matado a nós duas.
Enquanto caminhava pela casa, fui, aos poucos, me dando conta de que não estava mais na Casa das Tochas, e sim na Casa de Campo — a luxuosa e alternativa morada de Aaron e seu covil de vampiros. Uma terrível angústia se apoderara de todo o meu ser quando pensei no quanto aquela residência significava para ele. No quanto ele gostava de morar lá. E então, repentinamente e sem que fossem convidadas, lágrimas começaram a brotar em meus olhos e escorreram quentes, sobre minhas bochechas. E eu ainda tentava afastá-las quando ouvi um súbito farfalhar semelhante ao bater das asas de uma ave. Porém, muito mais intenso, como se oriundo de enormes ou gigantescas asas. O que me deixou intrigada.
O som da campainha tocando obrigou-me a me recobrar do meu torpor e eu direcionei minha atenção à porta, para onde me encaminhei a fim de descobrir quem era o nosso convidado. E qual não foi a minha surpresa ao ver que se tratava de um homem alto, de cabelos e olhos escuros, penetrantes, e semblante austero.
— Pois não — disse, erguendo uma sobrancelha para ele —, posso ajudá-lo?
— Eu posso entrar?
— Claro — assenti, relutante, enquanto me afastava para que ele entrasse. — Por favor.
— Obrigado — ele responde já se encaminhando para dentro da sala. Porém, ao passar por mim, eu senti uma vibração percorrer todo o meu sistema nervoso. Um instinto tão primitivo quanto o próprio tempo se ativara, fazendo um arrepio de frio percorrer a minha espinha e eriçar meus pelos.
Havia algo muito errado com aquele homem, ou aquela criatura. Pois, fosse ele o que fosse, de uma coisa eu tinha certeza: ele não era humano. Como eu logo descobriria.
— Então, quer tomar alguma coisa, uma água, um café talvez.
— Ruby… — ele dissera, sorrindo com um canto da boca. — Eu sei que você já sacou que eu não sou humano, então, acho que podemos pular essa parte.
Eu senti o sangue subindo através de meu pescoço e minhas bochechas se aquecendo. Além de um completo estranho, nosso visitante era também, muito ousado.
 — Certo — disse —, nesse caso, quem é você e o que veio fazer aqui?
— Eu vou ser curto e grosso, Ruby — ele respondeu. — O meu nome é Samael e eu vim para falar com o seu líder, o Aaron. Será que você pode me fazer o favor de ir chamá-lo?
Surpresa, eu aperto os meus olhos para ele, e então respondo: — Você vem até a minha casa e acha que pode me dar ordens? Eu ao menos te conheço? Por que, sinceramente, eu não me lembro de já tê-lo visto antes.
Ele sorri provocadoramente e responde: — Será por que nós nunca fomos apresentados?
— Agora chega, sai da minha casa agora, antes que eu perca a minha paciência. E querido… Acredite em mim quando eu digo — sinto minhas feições tornando-se ameaçadoras, a besta dentro de mim ansiando por emergir, e falo pausadamente: — você não vai querer me ver brava.
Em resposta, Samael gargalha debochadamente e se aproxima de mim.
— Ok, Ruby. Foi um prazer falar com você… Brincar com você. Agora, será que pode me chamar o seu líder? Minha conversa só diz respeito a ele.
Eu senti o sangue me subindo novamente, a raiva aumentando.
— O Aaron não está em casa. Seja lá o que for que tem pra falar com ele, pode tratar comigo mesma.
Samael gargalha novamente com escárnio.
— Com você?
— Qual é a graça? Você não tem educação não? Seus pais não te ensinaram a ter respeito pelas pessoas?
Em resposta, o semblante dele se obscurece e duas imensas asas cinzentas emergem em suas costas.
— Ruby, você não faz a menor ideia das forças que estão em movimento nesse momento no tabuleiro. Então, como disse, eu não vou perder o meu tempo discutindo assuntos, ou coisas de extrema importância, com você.
O anjo caído me vira as costas e afasta-se em direção à saída.
— Eu não serei ignorada dessa maneira! — bradei, e usando minha velocidade vampiresca atravesso na frente do anjo. — Você vai falar comigo de qualquer maneira agora.
— Saia da minha frente!
— Não!
— Não me obrigue a forçá-la — avisa ele, seus lábios comprimindo-se para formar apenas uma linha levemente avermelhada.
— Eu já fui considerada uma rainha, não serei humilhada dessa forma!
— Você se acha realmente especial, não é? — ele caçoa. — Deve ser por conta desse seu sangue amaldiçoado que corre em suas veias e que permite que um monstro como você perambule por aí em pleno dia.
Quando dera por mim, meu punho já o havia arremessado para longe, pegando-o de surpresa.
— Sua vadia! — exclama ele —, como você ousa? — seu rosto tornara-se uma máscara obscura.
O anjo partira para cima de mim, mas eu rapidamente desviei de seus ataques. Seus socos encontravam apenas as paredes e o assoalho, o que fora aos poucos, destruindo toda a mobília da sala e os quadros que até ainda pouco, ornamentavam as paredes da sala.
— Não pode me pegar — eu provoquei —, mas eu sim. — eu rapidamente me posicionei atrás dele e agarrei suas asas, impedindo-o de voar.
— Há, acha que basta isso para me conter? — ele interroga — Eu era um comandante celestial, sua rameira.
Meus sentidos ainda tentaram me alertar, porém já era tarde demais. Poderosas rajadas de energia se dispersaram do corpo do anjo e me atingiram, não uma, mais várias, centenas de vezes, enquanto meu corpo era projetado para longe, só se detendo ao se chocar contra o teto para, em seguida, se esborrachar no chão.
— Nunca mais ouse me desafiar novamente vampira, ou então, eu não serei tão misericordioso quanto hoje — ele me alerta.
— Não! — eu exclamei, furiosa —, eu nunca mais o desafiarei novamente… — pois eu vou matá-lo! — Novamente eu me lancei contra o ex-celestial e novamente fui barrada em pleno ar.
Energias incandescentes crepitavam de seus dedos, paralisando todos os meus músculos, e impedindo que eu me movesse. Não conseguia pensar direito também, pois havia a voz… A voz dele estava dentro de minha cabeça, me sussurrando coisas, relatando terríveis verdades primitivas que ninguém deveria ter ciência, pois estavam além do conhecimento humano, bem como do meu.
Subitamente, enquanto o anjo me torturava, uma corrente de ar gelada começou a circular ao nosso redor. Sua força foi gradativamente aumentando e o anjo desviou sua atenção de mim para se voltar para uma garotinha que se aproximava de nós com os braços levemente erguidos ao lado do corpo e recitando palavras, preces em uma língua que eu jamais havia ouvido antes. E seus olhos… Os olhos dela brilhavam, incandescentes em meio ao transe. O que Ceci estava fazendo?
— Ceci não… — eu gritei para ela, em alerta — Saia daqui agora.
A menina não me ouviu e continuou falando no mesmo dialeto estranho, detendo-se a alguns metros de mim, que ainda estava sob a influência de Samael.
— Sai da minha cabeça, bruxa! — eu ouvi o anjo gritar pra Ceci.
Ao invés disso, ela erguera os braços e a ventania se transformou em um ciclone no meio da sala, arrastando tudo em seu caminho, relâmpagos atravessaram o corpo de Samael e ele gritou em agonia, finalmente me soltando.
— Ceci, pare! — eu gritei novamente, tentando despertá-la do transe. Contudo, ela mantivera seu ataque, os olhos ardendo em uma fúria desmedida, vidrados.
Samael continuava gritando, seu corpo se transformando em um facho de luz, que aos poucos foi se desintegrando, até desaparecer em meio a um clarão luminoso. Só então os olhos de Ceci se apagaram e seu corpo diminuto caíra ao chão, desfalecido. Eu corri até ela e a peguei em meus braços.
— Ceci — disse —, acorda!
Com esforço, ela abre seus imensos olhos verdes para me encarar, como se acordando de um sonho.
— Agora estamos quites — ela diz com sua voz infantil.
— Quites?
— É, você me salvou dos homens maus e agora eu salvei você daquele demônio.
— Como você fez aquilo? Poderia ter morrido.
— Eu precisava salvar você, então entrei na mente dele e conjurei aquele encantamento. Estava tudo lá, na cabeça dele.
— Nunca mais faça isso de novo, está me ouvindo? Nunca mais.
Ela nada dissera, apenas me abraçara com força. E naquela hora, só Deus poderia saber o quanto isso bastava. Eu mais uma vez agira por impulso e coloquei não apenas a minha, mas também a vida dela em perigo. E, por motivos desconhecidos, quis o destino que fosse a própria Ceci a salvar nossas vidas dessa vez. Aaron logo mais chegaria e eu muito teria que explicar a ele, bem como enfrentar a desconfiança e o repúdio de Nestor também. Mas, em face do que acabara de acontecer, eu consideraria isso um bônus; uma punição por novamente me deixar levar pela raiva e não pela razão. Afinal, o que poderia o ancião e mentor de meu amado fazer, que eu já não tivesse lidado antes?

 
Perdeu os dois primeiros capítulos? Confira aqui:
Capítulo 1: http://www.aartedeescrever.com/?p=167
Capítulo 2: http://www.aartedeescrever.com/?p=163

maio 23

Conto do Fantastiverso: Capítulo 3

“Sete autores. 
Sete livros. 
Uma história.”

Sinopse: O anjo caído Samael está reunindo um exército composto de criaturas sobrenaturais. Os anjos tentarão impedi-lo. Mas descobrirão que o único sentimento mais forte que a vingança é o amor…

Capítulo 3
Eu podia sentir o seu medo. O seu chamado silencioso ecoando em minha mente enquanto eu disparava à sua procura, com todos os meus sentidos vampirescos em alerta. Algo estava errado, muito errado. E tudo o que conseguia pensar naquele momento era em Ceci. Em protegê-la. Nem mesmo meu amor por Aaron conseguia suplantar o desejo de encontrar e salvar aquela criança.
À minha volta, o silêncio era ainda mais assustador. E enquanto eu corria em direção aos quartos das crianças, tentava absorver o máximo de informações possíveis na esperança de descobrir o que estava acontecendo. Porém, os únicos cheiros que captava com meus sentidos aguçados eram ainda os mesmos de antes. Não obstante, havia algo mais, eu também podia sentir um terrível e conhecido odor se espalhando pelo ar, empesteando-o… O horrível cheiro da morte.
— Ceci! — sussurrei, ao entrar em seu quarto. Temendo que se falasse seu nome alto demais, pudesse colocá-la em perigo.
As luzes estavam apagadas e sua cama encontrava-se revirada e vazia. E ao ver aquela cena, senti como se dedos gelados e implacáveis estivessem se fechando em torno do meu coração. Um calafrio percorrera minha espinha. Desesperada e atordoada, eu direciono minha atenção para o guarda roupas e corro até ele, apreensiva. E sem pensar duas vezes, rapidamente abro as portas. A menina salta em meus braços, assustada e tremendo de medo.
— O que foi? O que aconteceu? — eu pergunto, erguendo-a em meu colo, mas ela nada diz. Estava em total estado de pânico. — O que foi? — eu volto a perguntar.
Mas Ceci estava assustada demais e chorava sem parar. Ela tentara falar, mas não conseguira; as palavras lhe escapavam da boca, embaralhadas e sem sentido.
 — Shhh! — eu lhe fiz sinal para que se acalmasse e a embalei em meus braços tentando reconfortá-la. Porém ao invés disso, eu a vi arregalar seus enormes olhos verdes, e escancarar sua boca, aterrorizada.
— E-eles estão… — ela tenta me alertar.
Algo estava vindo nos pegar. Eu pressenti o perigo às nossas costas, e todo o meu corpo se inundara de adrenalina, à medida que meu sistema nervoso se preparava para reagir. Meu coração começou a martelar contra meu peito; tão forte que eu podia ouvir o meu sangue pulsando em minhas têmporas. Eu precisava salvar Ceci, ela era tudo o que importava naquele momento. Daria a minha vida se preciso fosse para salvá-la. Se ao menos Aaron estivesse ali para me ajudar. Se ao menos eu tivesse lhe avisado que sairia à procura de Ceci, ao invés de deixá-lo desacordado no motel onde nos instalamos, quem sabe agora ele estivesse ao meu lado, protegendo nós duas: eu e essa linda e indefesa garotinha. Mas, ao invés disso, ali estava eu em um dos quartos do abrigo do Padre Miguel com Ceci em meus braços apavorada, e me preparando para enfrentar a presença terrivelmente ameaçadora que se aproximava. Agora não havia mais como voltar atrás, era lutar ou morrer. E eu escolhi lutar. Lutar para salvar Ceci e, principalmente, para voltar para Aaron. Então, resoluta e cheia de coragem, eu me viro com Ceci em meus braços, e encaro nosso destino.
Eu acordei molhada de suor e o silêncio me acolhera. Fora um pesadelo então? Ceci estava bem, afinal. Que alívio, eu pensei, respirando fundo para recobrar o fôlego.
Eu me levanto e deixo o meu quarto. Toda a Casa das Tochas jaz em um silêncio inquietante, da mesma forma que antes. Apenas barulhos ocasionais de louça, oriundos da cozinha, chegam aos meus ouvidos. Mas, fora isso, o silêncio impera incólume em toda a residência; perturbador e asfixiante.
Aaron me deixara sozinha e saíra com Nestor e os outros vampiros, na esperança de descobrir o que Stéfano e seus comparsas estavam tramando. E eu fiquei para proteger Ceci e me recuperar dos traumas recentes que sofri quando saí em busca de resgatar a menina. Mas valeu a pena, faria tudo de novo, se assim fosse preciso. Apesar de todos os riscos e de quase ter matado a nós duas.
Enquanto caminhava pela casa, fui, aos poucos, me dando conta de que não estava mais na Casa das Tochas, e sim na Casa de Campo — a luxuosa e alternativa morada de Aaron e seu covil de vampiros. Uma terrível angústia se apoderara de todo o meu ser quando pensei no quanto aquela residência significava para ele. No quanto ele gostava de morar lá. E então, repentinamente e sem que fossem convidadas, lágrimas começaram a brotar em meus olhos e escorreram quentes, sobre minhas bochechas. E eu ainda tentava afastá-las quando ouvi um súbito farfalhar semelhante ao bater das asas de uma ave. Porém, muito mais intenso, como se oriundo de enormes ou gigantescas asas. O que me deixou intrigada.
O som da campainha tocando obrigou-me a me recobrar do meu torpor e eu direcionei minha atenção à porta, para onde me encaminhei a fim de descobrir quem era o nosso convidado. E qual não foi a minha surpresa ao ver que se tratava de um homem alto, de cabelos e olhos escuros, penetrantes, e semblante austero.
— Pois não — disse, erguendo uma sobrancelha para ele —, posso ajudá-lo?
— Eu posso entrar?
— Claro — assenti, relutante, enquanto me afastava para que ele entrasse. — Por favor.
— Obrigado — ele responde já se encaminhando para dentro da sala. Porém, ao passar por mim, eu senti uma vibração percorrer todo o meu sistema nervoso. Um instinto tão primitivo quanto o próprio tempo se ativara, fazendo um arrepio de frio percorrer a minha espinha e eriçar meus pelos.
Havia algo muito errado com aquele homem, ou aquela criatura. Pois, fosse ele o que fosse, de uma coisa eu tinha certeza: ele não era humano. Como eu logo descobriria.
— Então, quer tomar alguma coisa, uma água, um café talvez.
— Ruby… — ele dissera, sorrindo com um canto da boca. — Eu sei que você já sacou que eu não sou humano, então, acho que podemos pular essa parte.
Eu senti o sangue subindo através de meu pescoço e minhas bochechas se aquecendo. Além de um completo estranho, nosso visitante era também, muito ousado.
 — Certo — disse —, nesse caso, quem é você e o que veio fazer aqui?
— Eu vou ser curto e grosso, Ruby — ele respondeu. — O meu nome é Samael e eu vim para falar com o seu líder, o Aaron. Será que você pode me fazer o favor de ir chamá-lo?
Surpresa, eu aperto os meus olhos para ele, e então respondo: — Você vem até a minha casa e acha que pode me dar ordens? Eu ao menos te conheço? Por que, sinceramente, eu não me lembro de já tê-lo visto antes.
Ele sorri provocadoramente e responde: — Será por que nós nunca fomos apresentados?
— Agora chega, sai da minha casa agora, antes que eu perca a minha paciência. E querido… Acredite em mim quando eu digo — sinto minhas feições tornando-se ameaçadoras, a besta dentro de mim ansiando por emergir, e falo pausadamente: — você não vai querer me ver brava.
Em resposta, Samael gargalha debochadamente e se aproxima de mim.
— Ok, Ruby. Foi um prazer falar com você… Brincar com você. Agora, será que pode me chamar o seu líder? Minha conversa só diz respeito a ele.
Eu senti o sangue me subindo novamente, a raiva aumentando.
— O Aaron não está em casa. Seja lá o que for que tem pra falar com ele, pode tratar comigo mesma.
Samael gargalha novamente com escárnio.
— Com você?
— Qual é a graça? Você não tem educação não? Seus pais não te ensinaram a ter respeito pelas pessoas?
Em resposta, o semblante dele se obscurece e duas imensas asas cinzentas emergem em suas costas.
— Ruby, você não faz a menor ideia das forças que estão em movimento nesse momento no tabuleiro. Então, como disse, eu não vou perder o meu tempo discutindo assuntos, ou coisas de extrema importância, com você.
O anjo caído me vira as costas e afasta-se em direção à saída.
— Eu não serei ignorada dessa maneira! — bradei, e usando minha velocidade vampiresca atravesso na frente do anjo. — Você vai falar comigo de qualquer maneira agora.
— Saia da minha frente!
— Não!
— Não me obrigue a forçá-la — avisa ele, seus lábios comprimindo-se para formar apenas uma linha levemente avermelhada.
— Eu já fui considerada uma rainha, não serei humilhada dessa forma!
— Você se acha realmente especial, não é? — ele caçoa. — Deve ser por conta desse seu sangue amaldiçoado que corre em suas veias e que permite que um monstro como você perambule por aí em pleno dia.
Quando dera por mim, meu punho já o havia arremessado para longe, pegando-o de surpresa.
— Sua vadia! — exclama ele —, como você ousa? — seu rosto tornara-se uma máscara obscura.
O anjo partira para cima de mim, mas eu rapidamente desviei de seus ataques. Seus socos encontravam apenas as paredes e o assoalho, o que fora aos poucos, destruindo toda a mobília da sala e os quadros que até ainda pouco, ornamentavam as paredes da sala.
— Não pode me pegar — eu provoquei —, mas eu sim. — eu rapidamente me posicionei atrás dele e agarrei suas asas, impedindo-o de voar.
— Há, acha que basta isso para me conter? — ele interroga — Eu era um comandante celestial, sua rameira.
Meus sentidos ainda tentaram me alertar, porém já era tarde demais. Poderosas rajadas de energia se dispersaram do corpo do anjo e me atingiram, não uma, mais várias, centenas de vezes, enquanto meu corpo era projetado para longe, só se detendo ao se chocar contra o teto para, em seguida, se esborrachar no chão.
— Nunca mais ouse me desafiar novamente vampira, ou então, eu não serei tão misericordioso quanto hoje — ele me alerta.
— Não! — eu exclamei, furiosa —, eu nunca mais o desafiarei novamente… — pois eu vou matá-lo! — Novamente eu me lancei contra o ex-celestial e novamente fui barrada em pleno ar.
Energias incandescentes crepitavam de seus dedos, paralisando todos os meus músculos, e impedindo que eu me movesse. Não conseguia pensar direito também, pois havia a voz… A voz dele estava dentro de minha cabeça, me sussurrando coisas, relatando terríveis verdades primitivas que ninguém deveria ter ciência, pois estavam além do conhecimento humano, bem como do meu.
Subitamente, enquanto o anjo me torturava, uma corrente de ar gelada começou a circular ao nosso redor. Sua força foi gradativamente aumentando e o anjo desviou sua atenção de mim para se voltar para uma garotinha que se aproximava de nós com os braços levemente erguidos ao lado do corpo e recitando palavras, preces em uma língua que eu jamais havia ouvido antes. E seus olhos… Os olhos dela brilhavam, incandescentes em meio ao transe. O que Ceci estava fazendo?
— Ceci não… — eu gritei para ela, em alerta — Saia daqui agora.
A menina não me ouviu e continuou falando no mesmo dialeto estranho, detendo-se a alguns metros de mim, que ainda estava sob a influência de Samael.
— Sai da minha cabeça, bruxa! — eu ouvi o anjo gritar pra Ceci.
Ao invés disso, ela erguera os braços e a ventania se transformou em um ciclone no meio da sala, arrastando tudo em seu caminho, relâmpagos atravessaram o corpo de Samael e ele gritou em agonia, finalmente me soltando.
— Ceci, pare! — eu gritei novamente, tentando despertá-la do transe. Contudo, ela mantivera seu ataque, os olhos ardendo em uma fúria desmedida, vidrados.
Samael continuava gritando, seu corpo se transformando em um facho de luz, que aos poucos foi se desintegrando, até desaparecer em meio a um clarão luminoso. Só então os olhos de Ceci se apagaram e seu corpo diminuto caíra ao chão, desfalecido. Eu corri até ela e a peguei em meus braços.
— Ceci — disse —, acorda!
Com esforço, ela abre seus imensos olhos verdes para me encarar, como se acordando de um sonho.
— Agora estamos quites — ela diz com sua voz infantil.
— Quites?
— É, você me salvou dos homens maus e agora eu salvei você daquele demônio.
— Como você fez aquilo? Poderia ter morrido.
— Eu precisava salvar você, então entrei na mente dele e conjurei aquele encantamento. Estava tudo lá, na cabeça dele.
— Nunca mais faça isso de novo, está me ouvindo? Nunca mais.
Ela nada dissera, apenas me abraçara com força. E naquela hora, só Deus poderia saber o quanto isso bastava. Eu mais uma vez agira por impulso e coloquei não apenas a minha, mas também a vida dela em perigo. E, por motivos desconhecidos, quis o destino que fosse a própria Ceci a salvar nossas vidas dessa vez. Aaron logo mais chegaria e eu muito teria que explicar a ele, bem como enfrentar a desconfiança e o repúdio de Nestor também. Mas, em face do que acabara de acontecer, eu consideraria isso um bônus; uma punição por novamente me deixar levar pela raiva e não pela razão. Afinal, o que poderia o ancião e mentor de meu amado fazer, que eu já não tivesse lidado antes?

 
Perdeu os dois primeiros capítulos? Confira aqui:
Capítulo 1: http://www.aartedeescrever.com/?p=167
Capítulo 2: http://www.aartedeescrever.com/?p=163