abril 27

AMNÉSIA

Olá amigos do blog! Antes de começar o conto, gostaria de dividir com vocês, um pouquinho de como esta estória nasceu. Na verdade tenho um grande amigo e ao mesmo tempo, fã de minhas obras que propôs um desafio. Criar um suspense em plena praia a luz do dia e no máximo com 3 páginas… Como adoro desafios, decidi presenteá lo com a estória abaixo. 
Será que nos “Hospícios” todos os pacientes são verdadeiramente “Loucos” ?
Hermes M. Lourenço



“A esperança renova a alma.”
Eram palavras que não saiam de meus pensamentos, enquanto sentado na areia da praia sentia o ardor do sol radiante em minha pálida face, que se acalentava ritmicamente com a suave brisa marítima.
Sentia-me como um vampiro resistente a exposição solar.
Não tinha um corpo atlético, ainda mais depois de me alimentar mal por duas semanas, que se agravava pelo uso de diversas medicações. Queria lembrar-me de tudo, mas não conseguia e algo me afligia.
Tudo incomodava, mas a sensação agradável dos dedos dos pés remexendo a fria areia da praia fazia com que minha bateria se revigorasse por completo, mesmo em meio a minha juventude plena e voraz.
A praia estava com pouco movimento. Eventualmente algumas garotas, passavam como se estivessem desfilando em uma passarela. Emanavam uma beleza irradiante, onde algumas vezes conseguia flagrar algum olhar sorrateiro, ainda que interrompido, pelos vendedores ambulantes que exibiam seus produtos e colocavam em transe as poucas clientes que transitavam pela praia.
O sol estava a pique. Respirava a esperança mesclada com a oportunidade de um novo recomeço que não tardariam em chegar.
Foi então que percebi que uma linda mulher se aproximou com um olhar angelical, estendendo a toalha de praia bem ao meu lado.
“Incomodo-lhe se ficar aqui perto de você?” – perguntou com uma voz encantadora enquanto eu observava as curvas perfeitamente geométricas que iam do glúteo ao busto, capazes de entorpecer o olhar de qualquer homem que por ali passasse. A pele morena e o cabelo loiro ondulado conferiam-lhe uma beleza divina contrastando o céu com o azul dos olhos. Era a beleza da criação se manifestando em forma viva ao meu lado.
“Claro!” – foram as primeiras estupidas palavras que passaram em minha mente… Respondi gaguejando.
Nem mesmo as sirenes da policia que percorriam a Avenida Atlântica eram capazes de tirar minha concentração diante de tamanha beleza.
“Nada melhor do que dar uma fugidinha para curtir a vida!” – insinuou ela com um olhar provocador.
“O que você faz?” – perguntei na tentativa de uma abordagem mais direta deixando as cerimônias de lado.
“Sou estrategista. Apaixonada por lógica sequencial” – respondeu calmamente.
Senti que estava ao lado de uma astronauta ou algo semelhante. De qualquer forma aquela mulher parecia ser extremamente inteligente e havia algo de familiar em que naquele momento, eu era incapaz de lembrar.
“Vamos mergulhar?” – perguntou-me com o olhar provocador. “Odeio entrar na água sozinha!” – exclamou enquanto prendia os cabelos ondulados e exalava o feromônio que me levava a submissão completa.
Percebi que ela não era de muita conversa e como era estrategista, certamente já conhecia minhas segundas intenções.
“Ótima ideia! Estou precisando me refrescar”. – respondi calmamente.
Ela levantou-se rindo. Segurou minhas mãos enquanto caminhávamos para o mar. Tinha a sensação contínua de que a conhecia de algum lugar.
Percebi que as poucas pessoas que estavam na praia me observavam como se houvesse algo de errado. Porém, compreendia perfeitamente a indignação e inveja dos poucos homens que caminhavam pela praia e cobiçavam minha musa que eu acabara de descobrir.
Enquanto caminhava para a praia percebi que um homem nos seguia em direção ao mar. Talvez entrar no mar ao meu lado fosse uma forma de se safar da perseguição de um ex-namorado inconformado.
Assim que senti a água do mar nivelar com minha cintura, com um olhar sereno ela me disse:
“Preciso de sua ajuda. Estou sendo perseguida pelo meu ex-marido. É aquele homem ali atrás. Ele me ameaçou dizendo que meus dias estão contados. Não tive escolha se não me aproximar de você, achando que ele fosse se afastar…” – respondeu-me com os olhos marejados.
“Não se preocupe. Você não está sozinha.” – disse confortando-a ao mesmo tempo em que sentia meu sangue fervia quando vi que aquele sujeito não parava de nos fitar.
“O que foi!” – esbravejei olhando para um indivíduo de aproximadamente 30 anos, cabelos curtos e com uma tatuagem de dragão sobre a pele morena destacando-se no ombro direito.
“O que foi o que? Se tá louco cara! Se tá procurando confusão, vou lhe ensinar a não mexer com a mulher dos outros!.” – gritou nos desrespeitando.
Não podia deixar barato a situação. Foi então que a mulher com olhar angelical puxou o cabelo ao lado revelando que a orelha direita havia sido extirpada.
“Foi ele quem fez isso… Carregarei essa mágoa por toda minha vida”.
Perdi totalmente o controle quando vi a maldade que aquele miserável havia feito com a pobre e mulher. Ninguém destrói a vaidade de uma mulher e sai impune. Não pensei duas vezes… Me aproximei daquele maldito e consegui dar-lhe uma gravata e mergulhamos no mar. Ele se debatia como um peixe fora d’água, até que após alguns minutos de privação do oxigênio, percebi que o corpo se relaxou totalmente. Era o fim de mais um maníaco.
Assim que saí da água, notei que aquela linda mulher havia desaparecido. Foi um salva vidas se aproximando.
Corri em direção a praia. Não compreendia o que estava acontecendo. Olhava para os lados a procura daquela mulher e não a encontra. Sentei-me na areia e vi que o salva vidas tentava reanimar aquele sujeito. Minutos depois, senti uma forte descarga elétrica percorrer meu corpo até que fui totalmente imobilizado pelos policiais que exibiam seus teasers em punho.
Algum tempo depois já estava dentro da viatura. Foi quando mais uma vez vi no horizonte a imagem daquela exuberante mulher conversando com um flanelinha. Nesse momento a viatura começou a se movimentar e foi a última vez que a vi…
“Obrigada…” – disse a linda mulher com uma voz encantadora, exibindo curvas perfeitamente geométricas capazes de inebriar os olhares de qualquer homem que por ali passasse. A pele morena e o cabelo loiro ondulado conferiam-lhe uma beleza majestosa que se destacava com o azul dos olhos.
“Não há de que. Estamos aqui para isso! A propósito, eu te conheço de algum lugar?” – perguntou o flanelinha.
“Sim… Da televisão. Sou neuropsiquiatra. Meu marido a alguns anos atrás enlouqueceu alegando que eu queria ficar com o seguro. Porém, em um determinado dia ele teve um surto psicótico onde ele cortou as próprias orelhas e tentou me matar.” – respondeu tirando uma nota de cinquenta reais da bolsa de praia.
“Deve ser difícil para a senhora, uma médica, assistir seu marido terminar assim…”.
“Pois é… Lamentável. Ao menos consegui recompor minha vida com o auxílio do seguro que ele deixou. Isso me ajudou em meu segundo casamento.” – respondeu a linda mulher com um sorriso irônico.
“Senhora!” – exclamou o flanelinha – “Obrigado pela gorjeta!” – respondeu olhando hipnotizado para a imagem da onça pintada gravada na nota de cinquenta.
“Não há de que!” – respondeu a médica entrando em um luxuoso BMW estacionado na orla marítima.
Assim que entrou no luxuoso veículo, destacavam-se espalhados sobre o banco trazeiro artigos de própria autoria em substâncias indutoras de esquizofrenia bem como diversos livros de lógica sequencial.
Ela jogou a bolsa de praia suja de areia sobre as publicações, até que alguns minutos depois o silêncio foi interrompido pelo toque do celular.
“Dra. Ana?”
“Sim. Em que posso ajuda-la?”
“Doutora Ana! É Bianca quem está falando, sua nova secretária. Não sei nem como lhe dizer, mas a polícia acabou de ligar dizendo que seu marido acabou de falecer. Parece que seu ex fugiu do manicômio e afogou seu marido na praia. Mas ele já foi preso e devolvido a ala psiquiatrica.”
Sem dizer nada, desligou o celular. Mentalmente era capaz de visualizar o funeral de um empresário que deixava diversas empresas para se administrar.
Enquanto dirigia e exibia sua tatuagem de dragão no braço direito. Riu quando lembrou que todos desconheciam o vultoso seguro que havia sido feito à alguns anos atrás.


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Posted 27 de abril de 2013 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

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