Elaine Velasco, novos autores

Narração em Primeira e Terceira Pessoa

Tenho percebido que muitas pessoas ainda têm dificuldade em diferenciar uma narração em primeira pessoa de uma narração em terceira pessoa, por isso, decidi escrever esse artigo aqui, afim de tentar lançar um pouco de luz sobre esse assunto e ainda discutir os prós e os contras de cada tipo. Primeiro, vamos à diferenciação entre elas e suas subdivisões:

Narrador


Derivado do latim narro  (dar a conhecer, tornar conhecido). É aquele que transmite a mensagem da narrativa. Quem conta a história.
A narração pode ser feita em primeira ou em terceira pessoa, sendo assim podemos classificar os narradores como narrador em 1ª pessoa e narrador em 3ª pessoa.
Narrador em primeira pessoa
Narrador personagem: além de contar a história em primeira pessoa, faz parte dela, sendo por isso chamado de personagem. É marcado por características subjetivas, opiniões em relação aos fatos ocorridos, sendo assim uma narrativa parcial, já que não se pode enxergar nenhum outro ângulo de visão. A narrativa é dotada de características emocionais daquele que narra. Esse tipo de personagem tem visão limitada dos fatos, de modo que isso pode causar um clima de suspense na narrativa. O leitor vai fazendo suas descobertas ao longo da história junto com a personagem.
NARRADOR PROTAGONISTA: o narrador é a personagem principal da história. Todos os acontecimentos giram em torno de si mesmo, e por isso a narrativa é a mais impregnada de subjetividade. O leitor é induzido a compartilhar dos sentimentos de satisfação ou insatisfação vividos pela personagem, o que dificulta ainda mais a visão geral da história.
NARRADOR COMO TESTEMUNHA: É uma das personagens que vivem a história contada, mas não é a personagem principal. Também registra os acontecimentos sob uma ótica individual, mas como é personagem secundário da trama não há uma sobrecarga de emoções na narração.
Narrador em terceira pessoa
Narrador onisciente: É aquele que sabe de tudo. Há vários tipos de narrador onisciente, mas podemos dizer que são chamados assim porque conhecem todos os aspectos da história e de seus personagens. Pode por exemplo descrever sentimentos e pensamentos das personagens, assim como pode descrever coisas que acontecem em dois locais ao mesmo tempo.
NARRADOR ONISCIENTE NEUTRO: Relata os fatos e descreve as personagens, mas não influencia o leitor com observações ou opiniões a respeito das personagens. Fala somente dos fatos indispensáveis para a boa compreensão da narrativa.
NARRADOR ONISCIENTE SELETIVO: Narra os fatos sempre com a preocupação de relatar opiniões, pensamentos e impressões de uma ou mais personagens, influenciando assim o leitor a se posicionar a favor ou contra eles.
Narrador observador: é o que presencia a história, mas ao contrário do onisciente não tem a visão de tudo, mas apenas de um ângulo. Comporta-se como uma testemunha dos fatos relatados, mas não faz parte de nenhum deles, e a sua única atitude é a de reproduzir as ações que enxerga a partir do seu ângulo de visão. Não participa das ações nem tem conhecimento a respeito da vida, pensamentos, sentimentos ou personalidade das personagens.
E aí, deu pra entender mais ou menos as diferenças? Bem, isto posto, vamos discutir as vantagens e as desvantagens de cada tipo de narração.
Narração em primeira pessoa: A vantagem ao se usar esse tipo de narração, é que o leitor se sentirá mais “envolvido” com a personagem que narra, por partilhar com ela seus sentimentos, emoções e impressões, portanto, será mais fácil criar uma empatia por ela. Entretanto, daí deriva a primeira desvantagem desse tipo de narração: Se o leitor achar a personagem/narradora odiosa, ele dificilmente irá prosseguir com a leitura, por não concordar com a “visão de mundo” da personagem. Outra desvantagem, é que não se poderá narrar cenas aonde a personagem não esteja presente, tampouco narrar os sentimentos e pensamentos das outras personagens, apenas poderá narrar-se a impressão que a narradora tem acerca desses assuntos.
Narração em terceira pessoa: A vantagem desse tipo de narração é que o autor torna-se mais “livre”, podendo narrar cenas independentes, bem como sentimentos e pensamentos de inúmeras personagens, de modo que, se o leitor não se identificar com o protagonista, ele poderá se envolver com algum personagem secundário ou ainda apenas com situações ocorridas. A desvantagem é que esse tipo de narração torna o leitor mais “distante”, é mais difícil para ele sentir “dentro” da história ou “na pele” do protagonista. 
Certa vez, acompanhei uma palestra com o editor da Tarja, e o questionei sobre esse assunto. Perguntei-lhe, se na opinião dele, era mais fácil trabalhar com a narração em primeira ou em terceira pessoa. Ele me disse que atualmente os escritores tem optado por trabalhar mais com a narração em primeira pessoa, embalados pelo recente sucesso de livros que utilizam esse artifício, entretanto, ele julga que isso é um equívoco, pois a narração em primeira pessoa é muito mais difícil, pois a construção da personagem deve ser feita de forma meticulosa e suas impressões sobre o mundo e as pessoas, muito bem exploradas, algo que um escritor iniciante com certeza terá dificuldade em fazer. Também acompanhei uma entrevista certa vez com Stephenie Meyer, autora da série Crepúsculo e ao ser perguntada se guardava algum arrependimento sobre a série, ela declarou: Arrependo-me apenas de tê-lo escrito em primeira pessoa, pois não pude explorar os sentimentos e pensamentos dos outros persongens como eu queria. 
Meu primeiro livro publicado, Limiar – Entre o céu e o inferno, é narrado em terceira pessoa, pois de fato, julguei esse tipo de narração mais adequado para o que eu queria. Entretanto, no momento, trabalho num outro livro, no qual uso narração em primeira pessoa. Diante de minhas experiências, posso afirmar que cada tipo de narração deve ser utilizado de acordo com o que se pretende atingir, tendo cada uma suas vantagens, desvantagens e regras, cabendo a cada autor saber pesá-las bem.
E você? O que acha?
Para acompanhar mais postagens de Elaine Velasco, acesse: elainevelasco.blogspot.com.br

10 thoughts on “Narração em Primeira e Terceira Pessoa

  1. gostei, quando foi tratado dos pontos fortes e fracos de cada uma delas e o ponto de vista dos escritores. foi de grande importancia porque, é possivel ver que que mesmo sendo agradável a primeira pessoas ao se ler, ela se mostra bastante fragil, o que eu quero dizer com isso é o seguinte. quando se trata de relatar uma historia ocorrida em seu dia a dia a primeira passe é bastante utilizada porque é algo ligado a voce, no entanto quando se trata de um personagem como foi colocado no texto é necessario um maior nivel de aprendizado sobre como escrever atraves de um personagem, pensar como ele se vestir como ele. no caso da terceira se ostra mais facil, mesmo que em alguns momento temos que nos colocar na posição de um dos personagens para criarmos dialogos, mas mesmo assim o texto é mais seco que o texto em primeira pessoa. estou pesquisando sobre esse tema para saber qual a melhor forma de se escrever se é em terceira ou em primeira, mesmo com as vantagens e desvantagens a terceira se mostra mais valida, em alguns casos, mas como escritor temos que imaginar que nao somos nós que determinamos a forma que um texto tem que ser escrito cada texto cada contexto tem sua forma sua maneira de ser escrita dessa forma temos que compreender e praticas as diversas formas de escrever para que possamos assim ter o melhor dominio e poder passar para nossos leitores as informaçoes de forma mais profunda que possivel mesmo sendo em terceira pessoa ou mais seca tratando na primeira pessoa.
    http://fragmentoscontemporaneos.tk
    http://portalmultifoco.tk
    @ns_rafael

  2. Há um meio termo que eu acho muito interessante e que frequentemente utilizo. Trata-se do uso da primeira pessoa por mais de um personagem. Por exemplo, Luís narra o capítulo 1, Maria narra o capítulo 2, Luciana narra o capítulo 3, e, dependendo da trama, eles vão se revezando na narrativa. É difícil, mas o resultado é muito bom, porque agrega as vantagens das duas narrativas normais.

  3. Estou com uma dúvida. Escrevendo meu livro em primeira pessoa, senti a necessidade de contar uma parte da história que o meu personagem não estava presente. Esta parte está isolada em um capítulo reservado. Estou errado ao fazer desta forma?

    1. Realmente, seria separado mesmo.

      afim (junto) = afinidade
      a fim (separado) = finalidade: com a finalidade de, com o fim de, com o objetivo de…

      “a fim de tentar” (com a finalidade de tentar). Separado, então.

      Parabéns pelo texto.

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