fevereiro 20

Morrer ou Viver?


Para morrer temos que aprender a viver.
Vejo a morte como uma viagem eterna sem destino. Para os que partem lembranças dos que ficam e para os que ficam saudades de quem se foi.
Desde o pobre que nasce sem oportunidades, mergulhado até a cabeça em um barril cheio de insuficiência social, ao rico, que vive nadando de braçada no vislumbre de uma piscina de luxúria.
Ambos têm algo em comum: o excesso e o pouco, cuja única intersecção é a certeza de que um que dia tudo irá acabar, restando apenas uma grande lição para aquele que for capaz de enxergar.
Sim. A morte também é uma professora. Ensina ao rico que a fortuna não se leva e ao pobre que o sofrimento um dia irá terminar.
Muitas religiões dizem que existe vida após a morte e tentam provar através dos milagres, aparições, fatos e conspirações. Cada um tenta vender seu “peixe” da melhor forma que lhe aprouver e há aqueles que lucram com especulações. Neste ponto ambos procuram o conforto, um o físico e outro o espiritual.
Nunca tive medo de morrer. Acho que viver é mais difícil, principalmente em saber que um dia tudo o que lutamos e conquistamos irá ficar para trás. Por isso filósofos antigos dizem que para ser um homem tem que se plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.
Eu já discordo dessa teoria plenamente, talvez na tez de um pseudo filósofo moderno. Árvores são derrubadas, gravidez é abortada e muitos livros tendem ao fracasso.
A flor morre, a árvore morre, o rio morre, até o planeta morre. Por que então deveríamos ser eternos?
Meu sinônimo de morte é o tempo, pois é ele quem assiste todo nosso inicio, meio e fim e fica ali, bem na nossa frente de braços cruzados sem fazer nada, apenas vendo os grãos de areia cairem na ampulheta do destino.
Morrer é ser ceifado da vida. Por outro lado, viver é ser ceifado da morte ainda que momentaneamente.
E a saudade? Também não dura. O vilão tempo acaba com ela, até o dia que desapareça por completo.
O tempo é a morte, carregando suas armas: a ampulheta e a foice, respectivamente com o mesmo objetivo.
Será que o tempo morre?
Infelizmente não, enquanto dure. É imortal enquanto não acabar.
Mas nisso tudo aprendi uma grande lição.
Não temo a morte, porque a morte é uma ilusão e ilusões são truques que a ilusionista vida está nos pregando no espetáculo da saudade.
E quanto a nós, boa pergunta…
Somos apenas grãozinhos de areia presos na ampulheta do destino que diverte alguém, que simplesmente assiste o tempo passar.
É por isso  que sempre digo que para viver é preciso saber morrer, ao menos enquanto houver tempo.

Hermes M. Lourenço

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