dezembro 1

O Velho Padre

Olá amigos do blog!

Hoje trago para vocês mais um conto de minha autoria.
Antes de começar, sempre digo que os piores crimes escondem-se por trás da pureza.
A propósito, você aceita um chá?


O Velho Padre
O segredo é saber como superar o medo.
Havia sido surpreendido por uma forte tempestade em plena madrugada enquanto dirigia por uma pequena estrada de terra em direção a Carmo do Cajuru, uma pequena cidade localizada no interior de Minas Gerais ao som do bip intermitente de meu celular que anunciava que a bateria havia descarregado por completo.
Era comum que uma vez por ano minha família se reunisse em um pequeno sítio localizado a 10 Quilômetros da Igreja do Marimbondo – como era localmente chamada por todos os moradores de Cajuru.
Toda vez que passava perto da pequena igreja acabava me lembrando de algumas histórias que desde minha tenra infância invadiam minha memória. Misteriosos casos de aparições, pessoas desaparecidas e várias lendas e mitos resgatados pela antiga crença popular.
Há um mês havia concluído o curso Superior de Engenharia Civil em Belo Horizonte. A saudade de minha família querida que quando se reuniam, pareciam que haviam liberado festividades em uma ala psiquiátrica. O fato é que eles eram geniais.
Quase pouco se conseguia observar da estrada através do vidro embaçado. O carro deslizava entre curvas e as enxurradas lamacentas que o farol de milha ainda conseguia mostrar. A haste do limpador de vidros rapidamente oscilava de um lado ao outro de forma intermitente revelando por alguns segundos a visão da estrada sinuosa.
Até que perdi totalmente o controle de meu carro, que deslizou à beira de um pequeno barranco, ficando completamente atolado, e após alguns segundos uma pane elétrica fez com que tudo tornasse um breu absoluto, clareado ocasionalmente pelos raios que dominavam a noite de ébano.
Tentei diversas vezes sair daquela encosta, porém naquele momento o remorso de não ter comprado um veículo com tração 4×4 me torturava.
– Era só o que me Faltava! – Disse enquanto procurava uma lanterna e uma capa de chuva que por sorte havia deixado em caso de emergência.
Desci do carro. A tempestade continuava intensa. A luz de minha lanterna mostrava que o vento fazia com que as árvores encurvassem como uma saudação oriental enquanto o frio se revelava assim que saí do carro.
Senti as meias se encharcarem. Era pouco provável que alguém pudesse passar naquele local ainda mais no meio de uma madrugada em meio a uma tempestade.
Olhei para os lados, desliguei a lanterna por alguns segundos, a procura de uma casa ou algum abrigo. Foi então que notei ao longe uma pequena fonte de luz que se sobressaia entre os clarões dos relâmpagos e as estrondosas trovoadas.
Caminhei com dificuldade em direção ao ponto luminoso. “ Onde há luz há esperança.”
Após alguns minutos de caminhada e reflexões consegui ver a imagem da Igreja do Marimbondo. Por sorte a luz provinha de uma pequena casa situada ao lado da antiga construção e para minha surpresa à fonte emanava de diversos lampiões.
Bati na velha porta de madeira enquanto a água da chuva escorria pela minha face e gotejava de todos os cantos possíveis. Não ficaria espantado caso ninguém respondesse, pois quem seria o louco que iria incomodar alguém no meio da madrugada?
Por sorte após alguns minutos a porta se abriu com o ranger estridente de dobradiças que apelavam desesperadamente pelo óleo, revelando um senhor de aproximadamente 70 anos, um pouco curvado pela escoliose enquanto os cabelos brancos e a barba branca destacava-se  uma aparência  angelical.
– Boa noite meu filho, em que posso ajuda-lo? – Disse o bondoso homem, usando uma camisa com gola semelhante a um padre, cujo  sono, eu havia interrompido.
– Mil perdões! – respondi tentando amenizar o incômodo – Meu carro quebrou a alguns quilômetros daqui e fiz uma longa caminhada para encontrar sua casa que vi que estava com a luz acesa e decidi pedir ajuda.
– Fez bem meu filho. Entre, saia logo dessa chuva que vou pegar uma toalha.
Ao entrar na pequena e humilde casa, pude notar por entre a luz dos lampiões algumas fotografias de  santos dentro de molduras, enfeitando a parede da pequena casa que chamava a atenção pela perfeição que haviam sido feitas e entre elas destacava-se um quadro vazio com o nome de São Sebastião.
A casa era pequena, talvez tivesse dois quartos, uma sala e uma estreita cozinha.
O Velho e bondoso senhor após alguns instantes apareceu com uma toalha.
– Tome, aproveite para se secar antes que pegue um resfriado. – Disse caminhando com  uma  certa  dificuldade, e foi quando percebi que ele usava um calçado ortopédico que ajustava a altura dos pés.  – Pobre homem! – pensei enquanto colocava a capa de chuva junto da lanterna desligada.
– Você aceita um chá?
– Não, obrigado. Não há necessidade. Preciso apenas de um telefone para poder chamar o reboque.
– Meu filho eu moro nessa região há mais de 30 anos. Posso lhe garantir que neste horário você não irá encontrar nenhum reboque. A cidade só acorda depois das 6 horas da manhã.
 -Vou preparar um chá. Isso irá lhe aquecer e lhe fará bem. Daqui a pouco irá amanhecer e espero que a chuva passe, então poderemos  pedir ajuda.
– Pois é. Acho que o senhor tem razão. Um chá quente iria vir bem a calhar. Mas não há necessidade. Só por ter me acolhido não tenho palavras para agradecê-lo.
– Minha missão é ajudar o próximo. Antigamente eu era padre, porém tive que abandonar meu ofício depois de ter me apaixonado por uma jovem mulher.
– O senhor abandonou o celibato? – respondi surpreendido.
– Sim meu filho. Há momentos na vida que temos que escolher qual caminho a seguir – Respondeu o velho padre, enquanto abria uma garrafa térmica e colocava a água quente em um copo.  Abriu uma caixa e retirou um pequeno sachê preparado artesanalmente. – Espero que goste de camomila. É um chá que nos acalma.
– Gosto sim.  Ainda mais nesse frio. – Respondi colocando a toalha pendurada no encosto da cadeira. – Mas me diga o que aconteceu? O senhor se casou com ela?
– Não meu filho…   Respondeu o padre ainda cabisbaixo aproximando-se com a xícara já cheia de água quente e colocou próxima de minhas mãos. – Açúcar?
– Não obrigado. Prefiro o chá natural mesmo.
– Pois é meu filho.  Eu me apaixonei por uma linda moça. Ironicamente ela chamava-se Maria.
– Lutei contra tudo e todos. Após 15 anos de celibato, decidi jogar tudo para o alto.
Uma sensação agradável e confortante me dominava enquanto bebia aquele chá. Fazia sentir nas nuvens até invadido por uma confortante onda de calor.
– Não é fácil ter que recomeçar a vida após 15 anos dentro da igreja. Como foi que o senhor fez?
– Eu fui morar com ela. Vivemos momentos maravilhosos juntos. Tudo parecia um sonho. Fiz um curso de fotografia e comecei a trabalhar profissionalmente. Estava indo tudo bem, até aquele dia que jamais vou me esquecer.
Bebi mais um gole de chá. Estava maravilhoso  a sensação. Porém estava me sentindo um pouco confuso e minhas mãos pareciam adormecer. Talvez fosse o frio sendo quebrado pela onda de calor.  – Mas o que aconteceu? – perguntei enquanto degustava aquele saboroso chá.
– Ela me traiu. Eu estava desconfiado pelo comportamento dela, após 7 anos de relacionamento quando um dia ela me procurou e disse que nós não estávamos dando certo. Senti que havia retirado o chão em que eu costumava pisar. Então comecei a segui-la e consegui fotografar a traição.
 Isso é muito triste… Respondi com a fala entrecortada. As palavras não fluíam normalmente. Comecei a ser dominado por uma sensação de sono que se misturava com anestesia.  Sentia meu corpo paralisado, mas compreendia perfeitamente tudo que aquele nobre senhor me dizia.
– Foi então meu filho, que decidi me vingar. Jurei a mim mesmo que a partir daquele dia, todas as máculas deixadas pela mulher que tanto amava, seria vingado. Comecei a criar as fotos com as imagens de santos que você viu na parede. Maria foi minha primeira foto, depois Pedro – o crucificado de ponta cabeça – que na verdade era o amante da Maria que tanto amava.  Agora com você aumento minha coleção. Você será São Sebastião e seu sofrimento será fotografado e registrado por toda eternidade.
Senti uma sensação de medo terrível. Tinha consciência de tudo, mas estava em estado catatônico, sedado por alguma substância… Não me restava esperanças.
 Aquele maldito padre aproximou-se novamente e sussurrou em meu ouvido.
– Não se preocupe. Ninguém jamais irá encontrá-lo. Todos estão sepultados na tumba da igreja pela eternidade… Afinal, quem irá profanar um túmulo santo?
Após alguns minutos tudo ficou escuro.
Por alguns instantes comecei a sentir dardos sendo lançados e cravejando meu corpo em meio a cintilar do flash fotográfico. Percebi que minhas mãos estavam amarradas. A dor era suportável até que tudo se tornou uma escuridão eterna.
– Bom dia! – Respondeu o bom velhinho enquanto abria a porta com um ranger sedento de óleo.
– Senhor, eu sou detetive e estou à procura de um jovem que desapareceu na madrugada de ontem. A família está desesperada a sua procura. Encontramos o carro dele abandonado a alguns quilômetros daqui. Por acaso o senhor o viu ou ouviu alguém comentando sobre algum forasteiro perambulando pela madrugada?
– Não meu filho. Ninguém me procurou. A única coisa que ouvi na madrugada de ontem foram raios e trovões.
– É… Ninguém tem notícia. A propósito, o senhor é padre? – Disse o detetive observando a gola na camisa.
– O senhor está sozinho, perguntou o bom velhinho?
– Sim, por quê? – respondeu o detetive.
– Gostaria de entrar para tomarmos um chazinho? Afinal, um velho padre sempre carece de uma boa conversa com uma nobre companhia.
– Até que não seria uma má ideia. Afinal, faz tempo que não venho para estas redondezas.
Assim que o detetive entrou as fotografias se destacaram. Havia a foto de diversos santos, dentre eles a de São Sebastião e uma moldura em branco que se destacava na parede com o nome gravado de São Judas Tadeu.
No chão, encostado na parede da velha casa, havia um machado.


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Posted 1 de dezembro de 2012 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

5 COMMENTS :

  1. By Manoel Barbosa de Souza on

    Esta história é surpreendente, já li e a relia, no final do enredo o meu inconsciente ficou pedindo para que o rapaz se livrasse da armadilha do padre, ou seja, que o mesmo conseguisse fugir daquele local. Textos como estes faz com que o leitor deixe fluir em seu pensamento um incansável desejo de poder reconduzir a trajetória do enredo feito pelo próprio autor.
    Hermes, não sei se entende sobre trilogia, se em outro conto fosse contada a mesma história para dá continuidade ao final, seria então uma dilogia?
    Parabéns por nos presentear com belas história fictícias. Um grande abraço!

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  2. By Angélica Roz on

    Que sinistro Hermes!
    Daria um belo filme de terror hein?

    De agora em diante, se alguém me convidar para tomar um chá, sairei correndo!!! O.O hehehe

    Beijos!

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  3. By Hermes M. Lourenço on

    Obrigado Vanessa. Ultimamente ando entretido com os livros que as vezes acabo deixando os contos para trás…
    Um forte abraço e obrigado pela visita!

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