dezembro 30

Deus em primeiro lugar


Olá Amigos do Blog!

Hoje trago para vocês um conto que recebi do talentoso autor Manoel Barbosa de Souza, Pov. Lagoa do Pires, Uauá-BA.
Gosto de contos que trazem mensagens subliminares, ainda mais quando nos coloca para refletir sobre nossa vida, nossas ações e principalmente sobre nossos pecados capitais.
Aproveito também para desejar a todos um Ano Novo Repleto de saúde, sucesso e felicidade.
Um forte abraço a todos!

 


Deus em primeiro lugar
Um jovem de aparência humilde, calmo e ofegante repousava sobre uma pedra, onde em silêncio refletia sobre um sonho bom que teve com Deus. O sonho afirmava para que o mesmo fosse ao encontro esplendoroso do espírito do Criador que só a partir de então daria o galardão merecido, de acordo com seus pedidos. Este que sempre lamentava a Deus implorando uma vida melhor se mostrava ao dispor de qualquer possível solicitação do Senhor.
Naquele momento de solidão eis que outro homem vinha em direção ao pensativo rapaz, este que também se mostrava solitário. Apresentaram-se; era um pobre, nada mais do que um velho nômade já quase sem esperança de conseguir sobreviver à rotina de estar mudando de lugar. Um dos problemas era sua idade avançada.
O que ele realmente almejava era encontrar uma aldeia onde nasceu ao lado de seus pais, aquele senhor era filho único, e a região em que nascera era munida de pessoas pacatas, de terras férteis, assim recordava o idoso do tempo de menino, que só o deixou aquele lazer por ter sido levado embora por um casal de ladino que o roubou de seus pais levando para outro país muito distante.
Aquele senhor assegurou que os pais eram donos de uma significante quantidade de terra, e o problema era não recordar mais dos caminhos daquela aldeia. Disseminou um pacto ao jovem que se ele ajudasse a reencontrar sua terra natal daria toda a propriedade que lhe pertencia, e também deveria viver com o mesmo dando algum suporte se fosse preciso, pois não se identificava mais com os trabalhos pesados do campo e em troca morariam juntos.
 O jovem que se mostrava sem nenhum status, logo pensou na promessa que Deus tinha lhe feito, provavelmente haveria de encontrar com o seu Deus naquela jornada e se não o encontrasse teria terras, para colher bons frutos, como assim combinaram os dois aliados.
Os dois homens seguiam a direção sul daquelas planícies, escoltavam rumo a um caminho que parecia o mais trafegado por aquelas campinas. Com bastante otimismo o jovem demonstrava recíproca confiança no companheiro. O jovem provido de boa forma física sempre em ritmo acelerado tomava a frente da caminhada.
Caminharam durante todo o dia e ao final da tarde eis que uma grande tempestade avançava aquela imensidão geográfica. Os dois amigos estavam ofegantes de tanto andarem, mas o melhor era encontrar o mais rápido possível a terra prometida.
No momento de tensão o velho afirmara para o jovem que estava recordando atemporalmente algumas antigas elevações geográficas daquele lugar, isso era um bom sinal que a terra destinada estava bem mais próxima de ambos.
Os raios de relâmpago rasgavam o céu em zigue-zague, trovões estampavam sons ensurdecedores estremecendo toda a terra, oferecendo – lhes perigo. De repente uma surpresa, encontraram uma grande mochila cheia de dinheiro e o jovem por estar sempre a frente sentiu-se o privilegiando de ser o merecedor, porém, demonstrou bondade de ofertar uma pequena parte ao velho para que o mesmo ajudasse-o a conduzir o pesado bornal.
O homem idoso cada vez apresentava sinal de cansaço e o moço bastante robusto se enchia de alegria, pois sua grande intuição fazia acreditar que aqueles acontecimentos era a predestinação de Deus.
Os ventos frios do dilúvio já sopravam forte anunciando o alcance do temporal, ao seguirem aproximadamente 500 metros, outra surpresa, encontraram um baú cheio de barras de ouro e pedras preciosas, o jovem ficou em fulguras, porém, o velho parecia desafeiçoado, só tino para reencontrar sua aldeia mesmo de forma incerta.
            O companheiro para dar mais ânimo ao seu aliado ofereceu-lhe a metade do dinheiro para que o perambulante ficasse satisfeito e assim prosseguissem a viagem conduzindo o grande tesouro. Contudo o jovem se mostrava mais confiante, notando que a realidade de sua pobreza se findava.
O velho estava se entregando suas ultimas forças, então aconselhou o amigo a guardar aquele baú na margem do caminho para voltarem em outro momento ao local com reforço para conduzirem aquele pertence valiosíssimo. O que estava em vantagem seria zelar suas vidas: advertiu o ancião.
O rapaz para atrair o peregrino ao seu objetivo pôs duas barras de ouro em suas mãos, mas tudo parecia em vão, nada o reanimava.
O pobre homem queixava-se cada vez mais, sem conseguir forças para conduzir o todo tesouro. Seu companheiro lamentava a fraqueza do amigo. Estimulo-o que o idoso chamasse por Deus que possivelmente ele teria vigor sobre o fracasso.
Um assombroso turbilhão de nuvem negra já sombreava os dois, as gotas do aguaceiro eram tão pesadas pareciam que iam estilhaçar seus corpos.
O jovem percebeu que aquele homem não seria capaz de lhe dar nenhum tipo de assistência, deixava clara a razão de ser tão pobre. Na observação do jovem era isso que fazia daquele degredado o pior dos vagabundos.
Advertiu o ancião ao rapaz que eles não seriam capazes de resistir tão rigoroso temporal, melhor seria adiantar, aconselhava o retirante, o bom é que já se avistava uma luzinha que se ofuscava em uma neblina que engolia a visão de todo os arredores. Era a presença e garantia da aldeia de seus compatriotas.
Por ser dificílimo lidar com tamanha insensatez do nômade, o jovem desvaleu-se do velho e pediu que o mesmo seguisse em frente, no entanto ordenou que o companheiro devolvesse as barras de ouro ao baú, não seria aconselhável alguém fraquejar e ser recompensado.
O jovem se sentia realizado com toda aquela riqueza, ainda mais avistando a luz que anunciava qualquer acolhida para a sua segurança quando lá chegasse. O jovem colocou o bornal sobre o baú e puxava bruscamente fazendo com que a caixa deslizasse facilmente sobre o lamaçal.
 O dilúvio se debulhava em água fria misturada a granizos, puxar o baú sobre o lamaçal não era mais conveniente, pois à medida que a força dos pés dava pressão sobre a terra embebida ele se infiltrava literalmente de cara na lama, foi aí que o mesmo lembrou-se do conselho do companheiro, de esconder o tesouro na margem do caminho para depois retornar e conduzi-lo com mais segurança.
O turbilhão de tão agressivo sufocava sua respiração e a visibilidade do caminho era bastante turva, até a luz que supostamente seria a da terra prometida se apagou completamente, apenas os clarões dos raios que rasgavam as alturas verticalmente facilitavam alguns passos adiante.
Seguia o homem apenas com a mochila permeável e umedecida fazendo com que a água ensopasse os chumaços de dinheiro em papel moeda que por fim se diluíam.
 Já não era mais possível contar com aquela riqueza frágil. O que deixava o moço ainda conformado era saber que as barras de ouro não corriam o rico de se dissolverem como ocorreu com o dinheiro.
Ao abandonar os chumaços invalido para trás, sem nenhum utensílio melhorou a sua locomoção, voltou a avistar a luzinha bem mais ativa estava ele propriamente na terra prometida, o moço quase para não se segurar de pé, seu corpo completamente resfriado, era como se atingisse – lhe a alma, o sangue parecia ter parado de circular, todo aquele cenário frio, fazia com que o pobre moço trincasse os dentes invariavelmente.
A solução para o seu transtorno estava estampada nos olhos. Avistara o velho e companheiro sobe o aconchego de um casebre, sentado sobre um trono rústico feito de tronco de árvore.
Era tudo o que o jovem queria para se salvar daquele pesadelo, o velhinho com muita calma acenava com a mão, o único desafio era um caudaloso rio que a cada instante parecia aumentar sua correnteza, ficar ali era morrer congelado, não tinha outra saída a não ser a de atravessar as torrentes do rio.
O jovem colocou o primeiro pé na água e seguiu em frente, ao ficar no centro do rio sua vista começou a embaralhar e lhe causar tonturas com o pouco que conseguia enxergar do movimento brusco da torrente pesada, ameaçava lhe tombar em instantes, o velhinho levantou-se do trono e com um cajado erguido na mão vinha em frente pedindo para que o jovem não se apavorasse.
Era impossível alguém não temer tão brusco movimento e um abafado rumor de vozes de águas assassinas que além de causar pavor, escavavam seus pés, levantando-os lentamente da superfície. O olhar sombroso tomava conta do rapaz, o velho com palavras de apoio encorajava o mesmo pedindo que ele não desse nenhuma passada nem à frente nem para trás.
O aguaceiro das pesadas nuvens dissiparam, apenas o rio se situava em resistência. O ancião já estava também em situação de risco, porém, sua tranquilidade, não fazia menção do perigo, posicionava-se igualmente no meio do rio, levemente arrastando os pés devagar para que o rio não o tombasse. Pedia ao jovem cautela que após alguns passinhos a diante, a ponta do bastão alcançaria a sua mão.
O pedido de calma não foi o suficiente para deixar o moço tranquilo, a tentativa de travessia nas águas fazia de seu peso o mais leve possível, por isso ele associou que se o seu corpo adquirisse naquele momento um pouco mais de peso, ele ficaria mais fixo entre a torrente apavorante. Teve então a lembrança de que se colocasse o pesado baú de ouro sobre sua cabeça pudesse atravessar o rio com bastante apoio, até mesmo sem precisar da ajuda de alguém.
O ancião ao perceber a insegurança do rapaz exclamou para que o mesmo não tomasse aquela decisão de regressão. Mas foi tarde, o jovem olhou para traz contorceu o corpo e ao girar o passo, as águas suspenderam – no mesmo levando-o para sempre.     

 
Manoel Barbosa de Souza

                                     Conto publicado com autorização do autor.




Manoel Barbosa de Souza nasceu em 28 de dezembro de 1977 na zona rural de uma pequena cidade de nome Uauá no Estado da Bahia. Filho único de um casal de lavradores de origem bastante humilde. Viveu da agricultura de subsistência. Desde seus 9 anos de idade, já ajudava seu pai nos trabalhos da roça, nesta mesma idade passou a estudar em uma escolinha na comunidade. Ele sempre com muita dedicação estudava todos os livros que a professora leiga lhe atribuía.

Com 19 anos de idade passou a estudar na 5ª série do Ensino Fundamental em um colégio Estadual. Aos 26 anos concluiu o Ensino Médio. No ano de 2008 casou-se e no ano seguinte nasceu uma bela menina deste relacionamento. Em 2010 iniciou uma faculdade com licenciatura em Língua Portuguesa. Concluiu esse curso em dezembro de 2012.

Desde criança amava as histórias populares, contadas por seu avô ou por qualquer pessoa. Tudo isso acontecia sentados em roda, nos terreiros dos vizinhos, sobe o céu estrelado.

Passou a transmitir seus enredos para o papel quando começou a cursar o Ensino Fundamental, sem se quer saber se aquilo se tratava de uma mera “literatura”.

Foi graças a escritores renomados como: Victor Hugo, Graciliano Ramos… Que ele foi cada vez mais se tornado apaixonado pela literatura, o primeiro romance que Manoel se agraciou foi “A Aventuras de Pedrinho” de Lourenço Filho, em sua infância.
dezembro 12

Selos Literários

Olá Amigos do Blog!
Hoje apresento para vocês um novo selo literário.
Ultimamente o autor nacional para se fortalecer e promover nossa literatura tem se unido a diversos selos literários.
Há aqueles que criticam e há aqueles que apoiam. Penso que tudo que desenvolvemos em prol da literatura é válido.
Eu participo do Selo Brasileiro de Literatura e posso garantir que é uma experiência maravilhosa. Pude conhecer e interagir com outros autores – de outros Estados – chegando até a participar de bienais com eles. É importante essa interação na qual podemos falar a mesma língua e dividir as mesmas preocupações e agonias.
Posso lhes assegurar que destes diversos selos literários, já vi fusão de autores escrevendo juntos um livro – exemplo: um autor especialista em romance e outro em policial – e dessa mistura tive a oportunidade de ler livros espetaculares.
Não é só do Selo Brasileiro de Literatura que participo. Aqui em Minas sou membro titular da SOBRAMES –MG – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – e participo na medida do possível de reuniões literárias com verdadeiros mestres da ABRAMES – Academia Brasileira de Médicos Escritores – que ocupam cadeiras cativas por mérito e destaque em excelência literária.
Recentemente tive o convite de autores de Belo Horizonte – Thiago, Lednilson – e uma blogueira que tornou-se grande amiga após a Bienal do Livro de Minas Gerais, a Paola Patrício e decidimos criar um selo literário diferente, onde há a parceria de autores e Blogues na divulgação de um selo, onde o objetivo principal é a divulgação da literatura nacional e de nosso trabalho.
O regime de parceria desde a criação do blog, postagem e site tem se mostrado que funciona, ou seja, confirma a teoria de que a união faz a força.
Este selo é chamado de Sintonia Literária e aqueles que quiserem acompanhar a gestação, o parto e crescimento deste novo selo é só clicar na logo acima.
Também aproveito para comunicar que a partir de 20 de Dezembro a 01 de Janeiro irei me ausentar um pouco do blog, pois estou de férias e aproveitando para adiantar meus novos livros – estou trabalhando em dois desta vez – kkk
Hoje tive contato com meu amigo e editor, e já de antemão posso lhes assegurar que tem ótimas novidades a caminho, mas no momento certo elas serão divulgadas aqui em nosso espaço virtual.
Gostaria de desejar a todos os fiéis e bravos seguidores do blog A Arte de Escrever ótimas festividades e um ano novo de muitas realizações para todos nós.
Um forte abraço a todos!

PS: Quem clicar na árvore de Natal na guia a direita irá ter uma surpresa! kkkkkk
dezembro 1

O Velho Padre

Olá amigos do blog!

Hoje trago para vocês mais um conto de minha autoria.
Antes de começar, sempre digo que os piores crimes escondem-se por trás da pureza.
A propósito, você aceita um chá?


O Velho Padre
O segredo é saber como superar o medo.
Havia sido surpreendido por uma forte tempestade em plena madrugada enquanto dirigia por uma pequena estrada de terra em direção a Carmo do Cajuru, uma pequena cidade localizada no interior de Minas Gerais ao som do bip intermitente de meu celular que anunciava que a bateria havia descarregado por completo.
Era comum que uma vez por ano minha família se reunisse em um pequeno sítio localizado a 10 Quilômetros da Igreja do Marimbondo – como era localmente chamada por todos os moradores de Cajuru.
Toda vez que passava perto da pequena igreja acabava me lembrando de algumas histórias que desde minha tenra infância invadiam minha memória. Misteriosos casos de aparições, pessoas desaparecidas e várias lendas e mitos resgatados pela antiga crença popular.
Há um mês havia concluído o curso Superior de Engenharia Civil em Belo Horizonte. A saudade de minha família querida que quando se reuniam, pareciam que haviam liberado festividades em uma ala psiquiátrica. O fato é que eles eram geniais.
Quase pouco se conseguia observar da estrada através do vidro embaçado. O carro deslizava entre curvas e as enxurradas lamacentas que o farol de milha ainda conseguia mostrar. A haste do limpador de vidros rapidamente oscilava de um lado ao outro de forma intermitente revelando por alguns segundos a visão da estrada sinuosa.
Até que perdi totalmente o controle de meu carro, que deslizou à beira de um pequeno barranco, ficando completamente atolado, e após alguns segundos uma pane elétrica fez com que tudo tornasse um breu absoluto, clareado ocasionalmente pelos raios que dominavam a noite de ébano.
Tentei diversas vezes sair daquela encosta, porém naquele momento o remorso de não ter comprado um veículo com tração 4×4 me torturava.
– Era só o que me Faltava! – Disse enquanto procurava uma lanterna e uma capa de chuva que por sorte havia deixado em caso de emergência.
Desci do carro. A tempestade continuava intensa. A luz de minha lanterna mostrava que o vento fazia com que as árvores encurvassem como uma saudação oriental enquanto o frio se revelava assim que saí do carro.
Senti as meias se encharcarem. Era pouco provável que alguém pudesse passar naquele local ainda mais no meio de uma madrugada em meio a uma tempestade.
Olhei para os lados, desliguei a lanterna por alguns segundos, a procura de uma casa ou algum abrigo. Foi então que notei ao longe uma pequena fonte de luz que se sobressaia entre os clarões dos relâmpagos e as estrondosas trovoadas.
Caminhei com dificuldade em direção ao ponto luminoso. “ Onde há luz há esperança.”
Após alguns minutos de caminhada e reflexões consegui ver a imagem da Igreja do Marimbondo. Por sorte a luz provinha de uma pequena casa situada ao lado da antiga construção e para minha surpresa à fonte emanava de diversos lampiões.
Bati na velha porta de madeira enquanto a água da chuva escorria pela minha face e gotejava de todos os cantos possíveis. Não ficaria espantado caso ninguém respondesse, pois quem seria o louco que iria incomodar alguém no meio da madrugada?
Por sorte após alguns minutos a porta se abriu com o ranger estridente de dobradiças que apelavam desesperadamente pelo óleo, revelando um senhor de aproximadamente 70 anos, um pouco curvado pela escoliose enquanto os cabelos brancos e a barba branca destacava-se  uma aparência  angelical.
– Boa noite meu filho, em que posso ajuda-lo? – Disse o bondoso homem, usando uma camisa com gola semelhante a um padre, cujo  sono, eu havia interrompido.
– Mil perdões! – respondi tentando amenizar o incômodo – Meu carro quebrou a alguns quilômetros daqui e fiz uma longa caminhada para encontrar sua casa que vi que estava com a luz acesa e decidi pedir ajuda.
– Fez bem meu filho. Entre, saia logo dessa chuva que vou pegar uma toalha.
Ao entrar na pequena e humilde casa, pude notar por entre a luz dos lampiões algumas fotografias de  santos dentro de molduras, enfeitando a parede da pequena casa que chamava a atenção pela perfeição que haviam sido feitas e entre elas destacava-se um quadro vazio com o nome de São Sebastião.
A casa era pequena, talvez tivesse dois quartos, uma sala e uma estreita cozinha.
O Velho e bondoso senhor após alguns instantes apareceu com uma toalha.
– Tome, aproveite para se secar antes que pegue um resfriado. – Disse caminhando com  uma  certa  dificuldade, e foi quando percebi que ele usava um calçado ortopédico que ajustava a altura dos pés.  – Pobre homem! – pensei enquanto colocava a capa de chuva junto da lanterna desligada.
– Você aceita um chá?
– Não, obrigado. Não há necessidade. Preciso apenas de um telefone para poder chamar o reboque.
– Meu filho eu moro nessa região há mais de 30 anos. Posso lhe garantir que neste horário você não irá encontrar nenhum reboque. A cidade só acorda depois das 6 horas da manhã.
 -Vou preparar um chá. Isso irá lhe aquecer e lhe fará bem. Daqui a pouco irá amanhecer e espero que a chuva passe, então poderemos  pedir ajuda.
– Pois é. Acho que o senhor tem razão. Um chá quente iria vir bem a calhar. Mas não há necessidade. Só por ter me acolhido não tenho palavras para agradecê-lo.
– Minha missão é ajudar o próximo. Antigamente eu era padre, porém tive que abandonar meu ofício depois de ter me apaixonado por uma jovem mulher.
– O senhor abandonou o celibato? – respondi surpreendido.
– Sim meu filho. Há momentos na vida que temos que escolher qual caminho a seguir – Respondeu o velho padre, enquanto abria uma garrafa térmica e colocava a água quente em um copo.  Abriu uma caixa e retirou um pequeno sachê preparado artesanalmente. – Espero que goste de camomila. É um chá que nos acalma.
– Gosto sim.  Ainda mais nesse frio. – Respondi colocando a toalha pendurada no encosto da cadeira. – Mas me diga o que aconteceu? O senhor se casou com ela?
– Não meu filho…   Respondeu o padre ainda cabisbaixo aproximando-se com a xícara já cheia de água quente e colocou próxima de minhas mãos. – Açúcar?
– Não obrigado. Prefiro o chá natural mesmo.
– Pois é meu filho.  Eu me apaixonei por uma linda moça. Ironicamente ela chamava-se Maria.
– Lutei contra tudo e todos. Após 15 anos de celibato, decidi jogar tudo para o alto.
Uma sensação agradável e confortante me dominava enquanto bebia aquele chá. Fazia sentir nas nuvens até invadido por uma confortante onda de calor.
– Não é fácil ter que recomeçar a vida após 15 anos dentro da igreja. Como foi que o senhor fez?
– Eu fui morar com ela. Vivemos momentos maravilhosos juntos. Tudo parecia um sonho. Fiz um curso de fotografia e comecei a trabalhar profissionalmente. Estava indo tudo bem, até aquele dia que jamais vou me esquecer.
Bebi mais um gole de chá. Estava maravilhoso  a sensação. Porém estava me sentindo um pouco confuso e minhas mãos pareciam adormecer. Talvez fosse o frio sendo quebrado pela onda de calor.  – Mas o que aconteceu? – perguntei enquanto degustava aquele saboroso chá.
– Ela me traiu. Eu estava desconfiado pelo comportamento dela, após 7 anos de relacionamento quando um dia ela me procurou e disse que nós não estávamos dando certo. Senti que havia retirado o chão em que eu costumava pisar. Então comecei a segui-la e consegui fotografar a traição.
 Isso é muito triste… Respondi com a fala entrecortada. As palavras não fluíam normalmente. Comecei a ser dominado por uma sensação de sono que se misturava com anestesia.  Sentia meu corpo paralisado, mas compreendia perfeitamente tudo que aquele nobre senhor me dizia.
– Foi então meu filho, que decidi me vingar. Jurei a mim mesmo que a partir daquele dia, todas as máculas deixadas pela mulher que tanto amava, seria vingado. Comecei a criar as fotos com as imagens de santos que você viu na parede. Maria foi minha primeira foto, depois Pedro – o crucificado de ponta cabeça – que na verdade era o amante da Maria que tanto amava.  Agora com você aumento minha coleção. Você será São Sebastião e seu sofrimento será fotografado e registrado por toda eternidade.
Senti uma sensação de medo terrível. Tinha consciência de tudo, mas estava em estado catatônico, sedado por alguma substância… Não me restava esperanças.
 Aquele maldito padre aproximou-se novamente e sussurrou em meu ouvido.
– Não se preocupe. Ninguém jamais irá encontrá-lo. Todos estão sepultados na tumba da igreja pela eternidade… Afinal, quem irá profanar um túmulo santo?
Após alguns minutos tudo ficou escuro.
Por alguns instantes comecei a sentir dardos sendo lançados e cravejando meu corpo em meio a cintilar do flash fotográfico. Percebi que minhas mãos estavam amarradas. A dor era suportável até que tudo se tornou uma escuridão eterna.
– Bom dia! – Respondeu o bom velhinho enquanto abria a porta com um ranger sedento de óleo.
– Senhor, eu sou detetive e estou à procura de um jovem que desapareceu na madrugada de ontem. A família está desesperada a sua procura. Encontramos o carro dele abandonado a alguns quilômetros daqui. Por acaso o senhor o viu ou ouviu alguém comentando sobre algum forasteiro perambulando pela madrugada?
– Não meu filho. Ninguém me procurou. A única coisa que ouvi na madrugada de ontem foram raios e trovões.
– É… Ninguém tem notícia. A propósito, o senhor é padre? – Disse o detetive observando a gola na camisa.
– O senhor está sozinho, perguntou o bom velhinho?
– Sim, por quê? – respondeu o detetive.
– Gostaria de entrar para tomarmos um chazinho? Afinal, um velho padre sempre carece de uma boa conversa com uma nobre companhia.
– Até que não seria uma má ideia. Afinal, faz tempo que não venho para estas redondezas.
Assim que o detetive entrou as fotografias se destacaram. Havia a foto de diversos santos, dentre eles a de São Sebastião e uma moldura em branco que se destacava na parede com o nome gravado de São Judas Tadeu.
No chão, encostado na parede da velha casa, havia um machado.