maio 1

Enquanto houver tempo

Olá amigos do blog!
Quem pensou que ele havia desaparecido, se enganou.
Paulo Henrique Gomes Gontijo nos agraciou com mais um belíssimo conto, instigante e surpreendente.
Espero que gostem!
Um forte abraço a todos.

ENQUANTO HOUVER TEMPO

 
A noite chegou, como que de repente, lançando suas sombras escuras sobre a cidade. Era uma noite fria, quase gélida, nevoenta, que confirmava para dentro de poucos dias a intensificação do inverno castigador que os noticiários estavam prevendo para aquele ano. A lua, opalescente, parecia lutar para se manter luminosa, envolta numa espécie de esponja negra que a tudo tentava enegrecer. Naquela rua de um bairro de casas luxuosas, a tranqüilidade já se podia notar; apenas uns poucos garotos brincavam de bola, bem no meio dela, aproveitando a quase total ausência de veículos àquela hora. Sérgio Andrade, com um lento caminhar, caminhava em direção à sua casa. Andava com as mãos enfiadas nos bolsos de seu sobretudo e seu pescoço contraía-se sobre os ombros, numa manifestação de frio. Olhou  para as crianças gritando e deteve-se por um instante para apreciar a energia daqueles meninos, que indiferentes ao frio, brincavam animadamente. Nenhum deles pareceu notar a presença um tanto quanto estranha de Sérgio, que ali estacara para observa-los. Sérgio passou a observar especificamente um daqueles garotos, pois aquela criança o fazia lembrar em muito o seu próprio filho, Gustavo de oito anos. Achou graça enquanto via o menino gritando, xingando os seus colegas na disputa pela bola. Lembrou-se do quanto Gustavo gostava de futebol e nas inúmeras vezes em que ele havia prometido leva-lo ao estádio para ver o seu time jogando. E de repente o sorriso morreu em seu rosto e sua fisionomia tornou-se vazia, empedernida. Abaixou a cabeça e retomou a sua caminhada. Ao chegar em frente a sua casa, poucos metros à frente, estacou novamente e passou a vislumbrar toda aquela fachada, de dois pavimentos. Em seu peito, ardia um terrível sentimento de dívida para com seu filho e sua mulher, Lúcia. Depois de um tempo de contemplação, ele entrou. Ao chegar a sala, que se encontrava quase que totalmente submersa na escuridão, avistou sua mulher na cozinha de costas, à pia, preparando alguma coisa. Pensou em ir até lá, mas sentiu que não era conveniente. Não naquele momento. Então, exausto emocionalmente, ele deixou-se sentar no sofá e se perguntou o que poderia fazer para consertar suas faltas perante a sua família. Era claro que aquele acidente automobilístico que ele sofrera três dias antes era uma sacudida de Deus. Batera o carro por causa do excesso de trabalho, isso era inquestionável. A batida fora uma forma de mostrar que bens materiais não são tudo na vida. Tais bens são todos perecíveis, voláteis ao passo que valores como o amor, a família, são imensuráveis, são eternos. Tanto era verdade que agora ele estava ali, sem o seu luxuoso carro, que tivera perda total e, como se não bastasse, com uma dívida emocional enorme para com sua mulher e filho, numa relação tão estranha e distante que parecia existir um gigantesco muro entre eles.
Sérgio vinha levando uma vida profissional muito agitada nos últimos tempos. Advogado obtivera oportunidades muito tentadoras no grande escritório em que trabalhava. Como viera de uma família de parcos recursos financeiros, sabia bem o que era viver sem dinheiro, o que, obviamente, o levou a agarrar exageradamente a primeira oportunidade que aparecera para sair daquela situação. Quando ainda era recém-casado, com muito sacrifício, ele custeou a faculdade de direito enquanto trabalhava durante o dia. A relação conjugal neste período de arrocho financeiro, por mais incrível que pudesse parecer, era maravilhosa, totalmente adversa de quando Sérgio iniciou a sua ascensão profissional, logo depois de formado. Naquela época de estudante, Sérgio mostrava-se extremamente carinhoso e cuidadoso para com Lúcia. Tinha poucos horários livres, era verdade, mas ela compreendia muito bem tudo aquilo. É que nos momentos em que estavam juntos, tudo era vivido intensamente, de maneira que ela nunca se sentira relegada a segundo plano. Gustavo nasceu depois de um ano de casados e já contava com seus cinco anos quando Sérgio se formou. Uma vez tendo se tornado advogado, a presença do marido continuou inevitavelmente esporádica, mas agora sob outra alegação: a de conseguir uma vida digna para a família com a nova profissão. Lúcia, com uma certa angústia, aceitou aquela situação como necessária, achando que tão logo Sérgio começasse a ter uma estabilidade, ele iria poder enfim diminuir o ritmo de trabalho e assim se dedicar mais à família. Mas não foi o que aconteceu nos anos seguintes. O padrão de vida realmente se elevou visivelmente: casa nova, carro novo e a melhor escola para Gustavo. Mas a presença de Sérgio era cada vez mais rara em casa e conseqüentemente na vida do filho que crescia. Quando Lúcia resolveu alertar-lhe sobre isso, ele se exaltou e acusou-a de não estar querendo o bem de todos, inclusive o do próprio filho, Gustavo. Ela prometeu que nunca mais iria lhe falar mais nada em relação àquele assunto.
Sérgio, ali sentado no escuro da sala, passou as mãos aflitivamente nos cabelos e suspirou fundo ao se lembrar das várias situações em que errara feio com eles, sem ter a noção de que os estava magoando profundamente. Aliás, foram somente erros…Ele não mais dava a mínima atenção para Lúcia. Chegava tarde em casa e pegava Gustavo já dormindo e a esposa a espera-lo. Depois de um rápido lanche, caía esbodegado na cama, reclamando que estava terrivelmente cansado, deixando-a acordada, solitária. Acordava cedo, tomava um rápido café e saía, dando um insignificante aceno para a esposa, pois já estava com o celular colado na orelha, debatendo-se com sócios e clientes. Houve um restaurante, ao qual Lúcia tanto queria ir, que chegou a ponto de fechar suas portas sem ela ter conhecido, por causa dos constantes adiamentos que Sérgio promovia por causa das sucessivas reuniões de clientes. Com lágrimas nos olhos, lembrou-se dos meninos que brincavam na rua, o que lhe trouxe inevitavelmente à mente o semblante de frustração e decepção que o filho apresentava no rosto nas constantes ocasiões em que estava pronto para ir ao estádio, com o uniforme de seu time favorito, e recebia a notícia do pai de que não mais poderiam ir conforme o combinado, por causa de um imprevisto profissional. Erros… Somente erros.
Sérgio levantou os olhos e viu Gustavo descendo as escadas rapidamente, com o rosto molhado de lágrimas. Seu coração disparou de emoção, mas permaneceu ali, no escuro da sala; observou calado o garoto correndo para a cozinha, chamando pela mãe. Lúcia virou-se e o abraçou fortemente. Sérgio então se levantou e caminhou até eles, não conseguindo conter também suas lágrimas.
Pouco tempo depois, os meninos ainda brincavam na rua quando Sérgio passou por eles, desesperado, chorando alto num lamento de remorso e arrependimento. Mas nenhum dos garotos podia escutar nada daqueles urros de dor, e continuaram todos compenetrados na brincadeira. Sérgio continuou correndo sem rumo, pois era-lhe insuportável permanecer em sua casa e escutar seu filho desconsolado, chorando nos ombros da mãe, que tentava conforta-lo pacientemente. E ele, como pai, sem poder fazer nada. Absolutamente nada.
—Por que ele foi dormir ao volante, mãe?—lamentava o garoto em prantos.— Por que, por que…?
Enquanto houver tempo
Paulo Henrique Gomes Gontijo


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Posted 1 de maio de 2012 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

3 COMMENTS :

  1. By Paulo Gomes on

    Cara, Inez, muito obrigado pelo comentário do meu conto. São justamente estas ideias que quis expressar neste conto. Um abraço.

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  2. By Inêz on

    Olá Paulo!
    Gotei muito desde conto,acho que todas as pessoas deveriam ler,principalmente nos dias de hoje em que as pessoas só pensam em trabalhar e ganhar dinheiro para gastar com besteiras e maltratar o corpo,poucas pessoas fazem uso benéfico do dinheiro,a maioria gastam com futilidades.Abandonam os filhos em nome do trabalho e do dinheiro.Depois enchem seus filhos de presentes,como se esse preenchessem o vazio da ausência dos pais.Infelizmente o consumismo se tornou o Deus da hummanidade.E os jovens de hoje se tornaram apáticos e sem sonhos!
    Inez de Oliveira

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