março 26

Qualquer coisa

Olá amigos do blog.
Hoje trago mais um conto de autoria do escritor Paulo Henrique Gomes Gontijo.
Quem tiver um conto e quiser postar por aqui bastá envia-lo para meu e-mail para ser analisado.
Desde já agradeço ao Paulo por nos brindar com mais um conto.
Um forte abraço a todos!

“—Qualquer coisa.—havia um tom de lascívia naquela resposta.”
Paulo Henrique Gomes Gontijo
Conto Qualque Coisa

                                      QUALQUER COISA

A noite estava fervilhando naquela sexta-feira, que estava quente como um braseiro. Naquele ponto nervoso da cidade, jovens de todas as idades e sexo saíam das lojas noturnas com bebidas na mão, cruzavam, como baratas tontas, de um lado para o outro da avenida, disputando o escasso espaço com fileiras infinitas de carros alucinantes de faróis altos e buzinas ensurdecedoras. As mulheres gargalhavam enquanto conversavam em grupos irrequietos, rapazes estavam à busca de aventuras, todos impelidos pelo afã daquela noite que apenas começava, mas que já prometia muitas emoções.
Numa esquina, Marieta puxou sua saia mais um pouco para cima, salientando ainda mais as suas generosas coxas; ajeitou o cabelo anelado, puxou a alça de sua bolsa a tiracolo e iniciou sua caminhada na calçada em meio àquelas pessoas desvairadas. No semblante, seu tênue sorriso emitia uma mensagem patente de que estava à disposição de propostas quentes, fortes e animalescas. Mulher de programa há um bom tempo, ela contava com trinta e poucos anos, e apesar de uma vida sofrida, a natureza lhe era generosa ao conservar-lhe, de uma forma geral, os mesmos dotes atrativos com os quais nascera, e que lhe davam um significativo trunfo no exercício daquela profissão, a mais antiga do mundo.
O seu andar, por sobre saltos altos, era calmo, estiloso e contrastava com a agitação daquelas pessoas. Fez uma longa caminhada até a outra esquina, ganhando assobios, insinuações e elogios pornográficos dos homens pelos quais cruzava, assédios estes que ela correspondia na mesma proporção das investidas, ora com reciprocidade, ora com deboche. Ali na outra extremidade do quarteirão, ela aproximou-se de quatro colegas de ponto, que estavam na esquina, todas elas vestidas no mesmo estilo despudorado e vulgar.
            —Olá, Marieta! — cumprimentou Rita, uma morena magra de cabelos encaracolados.— Pronta para o batente?
            —Olá! Claro! A noite hoje promete… — Marieta cumprimentou todas as outras e ficaram ali conversando.
            Passados poucos minutos, um luxuoso carro parou próximo a elas e o vidro automático do lado do passageiro foi aberto.
            —Ei, minha linda!—disse o motorista lá de dentro apontando o dedo para Marieta.—Venha aqui.—Marieta prontamente foi até lá e curvou-se na janela do veículo.
            As quatro colegas olharam entre si com semblantes carregados de um certo recalque. Escutaram Marieta respondendo da seguinte forma para o abordador:
            —Qualquer coisa.—havia um tom de lascívia naquela resposta.—Eu faço qualquer coisa que você quiser. Sou extremamente liberal. Gosto de tudo.
            Marieta despediu-se das garotas e entrou no carro, que rapidamente arrancou. As mulheres olharam uma para outra, retorcendo os lábios. Era sempre assim. Sempre que Marieta estava em campo, fazia-se necessário que elas se dispersassem o quanto antes, se quisessem, de verdade, arranjar um programa.
Além de Marieta ser uma mulher extremamente provocante, que despertava instantaneamente o desejo sexual nos homens, ela tinha, além disto, outras cartas nas mangas. Ela realizava qualquer desejo do cliente. Era sabido entre as mulheres daquele ponto que, com exceção à violência e ao sadomasoquismo, Marieta não tinha qualquer pudor ou restrição quanto a sexo. Muitas daquelas mulheres, que entraram exclusivamente naquela vida por causa do dinheiro, não conseguiam atender a todas as fantasias ou desejos do cliente. Algumas terminantemente só aceitavam fazer sexo desde que a forma não fugisse do convencional, como forma de se preservarem da autoviolação ou talvez de se resguardarem moralmente, por assim dizer. E o trato era coisa que tinha de ser muito bem estabelecido. Sabiam que era muito perigoso combinar algo inverídico apenas para garantir o programa e não cumpri-lo posteriormente. Várias prostitutas já haviam sido mortas por não quererem se sujeitar ao que fora combinado.
            Naquela noite, depois daquele seu primeiro encontro, Marieta foi deixada no mesmo ponto de prostituição. Encontrou-se com algumas de suas colegas, das quais apenas duas haviam conseguido um programa. Marieta por sua vez, conseguiu, ao longo daquela madrugada, mais três “clientes”, o que não foi surpresa para nenhuma de suas colegas.
Já eram cinco horas da manhã e estava ainda escuro quando Marieta aproximava-se de sua casa, carregando duas sacolas, uma em cada mão. Equilibrava-se a duras penas sobre o salto alto, por causa do cansaço. Pensava sobre o que ela era. Pensava também sobre o que pensavam que ela fosse. Para as suas colegas, assim como para muitos, ela era uma puta. Uma puta desavergonhada, que ganhava a vida com um sexo selvagem e desenfreado. Um sexo tão despudorado que, ela sabia disso, era o motivo de sua vitória sobre suas colegas na disputa pelos clientes. Bem, era exatamente isso o que ela era. Uma puta…Eu faço qualquer coisa, lembrou-se ela da resposta que era dada a seus clientes diante de suas propostas. E um sorriso estranho surgiu em seus lábios ao se lembrar disto.
            Chegou à porta de sua casa, que era uma espécie de barracão, depositou as sacolas no chão e destrancou a porta de madeira carcomida. Entrou, mergulhando na escuridão que ali reinava. Depositou uma das sacolas sobre a mesa da cozinha e com a outra dirigiu-se a um quarto. Era um cômodo bem pequeno, com cheiro de mofo, onde o teto era baixo, tornando o ar pesado. Por puro instinto, sentou-se na beirada da cama que havia ali, escondida pelo breu e passou a mão sobre a coberta que abrigava dois corpos adormecidos. Sabia que estavam dormindo, mas não poderia esperar o dia raiar. Não depois de ter a consciência sobre o estado no qual eles foram dormir, após constatarem que as latas da despensa encontravam-se vazias.
            —Mãe?—era a voz sonolenta e melodiosa de um menino.
            —Sim, filho. É a mamãe.—deu-lhe um beijo gostoso na testa.— Olha o que eu trouxe para vocês.
            O menino preguiçosamente pôs-se sentado na cama. A irmã, um ano mais velha, também acordou com o murmúrio de vozes e se sentou na cama.
            —Sabe aquele sanduíche que vocês adoram, que é vendido lá naquele supermercado requintado?—as crianças responderam que sim, entusiasticamente, rindo de emoção e ansiedade. Marieta então continuou:—Pois então, eu comprei pra vocês…
            As crianças pularam sobre a mãe, que com muito custo, retirou, rindo com eles, os sanduíches de dentro da sacola, passando-os para as mãozinhas ávidas e apressadas de seus filhos. A luz foi acesa e enquanto comiam, Marieta deitou-se à cabeceira e enlaçou o filho que permanecera ali sentado sobre a cama. E enquanto via as duas crianças sobre o leito, matando a fome com voracidade, sentiu uma paz morna dentro de si. Um calor calmante que se irradiava por todo o corpo. Era uma sensação prazerosa, gratificante… E que para senti-la, ela faria qualquer coisa. Qualquer coisa…
 Conto: Qualquer Coisa
 Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo


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Posted 26 de março de 2012 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

1 COMMENTS :

  1. By Inêz on

    Paulo,você consegue tirar o meu fôlego,que final !!!Parabéns,estou ficando fã de seus contos.
    bjs,
    Inêz

    Reply

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