março 11

Rancor

Olá Amigos do Blog!
Primeiramente peço desculpas, pois sei que ando meio em atraso com algumas postagens aqui no blog.
Tal fato deve-se que estou finalizando um novo livro e em abril já estarei trabalhando com o Sr. Nicolas Flynth e seu fiel escudeiro Xenóbio, na continuação da trilogia do Enigma do Fogo Sagrado.
Bem, me explico. 
Quando escrevi o Enigma do Fogo Sagrado – Livro I – A irmandade da Rosa Branca, eu já sabia desde o início que ele seria uma trilogia – inclusive tenho os esboços da parte II e III concluidos bem como 60% do livro II já escrito. Sou muito metódico, e diante dos elogios da Irmandade da Rosa Branca, decidi aprimorar meus estudos na arte de escrita para literalmente surpreender meus leitores com o livro II e III. Quem já teve a oportunidade de ler Faces de um Anjo, já deve ter percebido uma enorme diferença. Agora pasmem – apenas quem já leu Faces de um Anjo: ainda estava no meio de meus estudos…rs.
Pois bem. O Fato é que tem livro novo a caminho, praticamente já saindo do forno. Será um livro um pouco maior do que Faces de um Anjo – creio que terá entre 300 e 350 páginas, com início, meio e fim, mas que irá surpreendê-los a cada página.
Bem, mudando um pouco de assunto, hoje trago mais uma nova surpresa, só que desta vez é do escritor Paulo Henrique Gomes Gontijo, que decidiu presenteá-los com mais um novo conto de sua autoria.
Espero que gostem e comentem.
Um forte abraço a todos!

                                                                            RANCOR

Alguma coisa chamou a atenção da velha mendiga enquanto ela andava sem rumo por uma das ruas movimentadas daquela grande cidade. Ela parou por um instante, em seguida aproximou-se daquela caixa de lixo à beira da calçada. Seu rosto encarquilhado e cinzento comprimiu-se; seus olhos discrepantemente azuis faiscaram; vívidos e astuciosos, mirando aquela revista velha, suja e amassada que estava abandonada em meio ao lixo.
Mordeu o pão recheado com fígado e cebola que acabara de ganhar do dono de um bar e mastigou o naco com displicência. Fez uma careta de enjôo e jogou fora o alimento em outro tambor de lixo que estava próximo.  Aproximou-se mais da caixa e abaixou-se para pegar a revista. Ao puxá-la, espalhou um pouco de sujeira pelo chão e um caldo preto escorreu da revista sobre a sua longa saia, o que não a incomodou, pois toda a sua roupa era esfarrapada e já se encontrava imunda, como se ela tivesse acabado de rolar sobre o pó de carvão. Bateu a mão sobre a capa para retirar o grosso da sujeira e ergueu-a à altura dos olhos. E então, seu corpo estremeceu de ódio. Pensou em atirar a revista ao lixo novamente, agarrou-a com as duas mãos com o intuito de rasgá-la, mas de repente se conteve. Com a respiração ofegante aquela velha indigente ergueu a revista à sua vista novamente e com o rosto contorcido, fitou a foto da mulher da capa. Aquela bela mulher, aquela maldita, que havia destruído a sua vida…
            Ela procurou sentar-se num banco de uma praça, pôs a sua trouxa de quinquilharias ao lado e pegou a revista. Olhou para a foto, começando a sentir o ódio invadindo novamente as suas entranhas. A mulher, cuja foto abrangia toda a capa era exuberante, intensa. Seus cabelos louros anelados eram como um adorno naquele maquilado rosto angular de pele aveludada. Seus olhos azuis, expressivos, irradiavam uma luz esfuziante, enquanto um sorriso alargava aqueles lábios grossos, vermelhos de um intenso batom. A temática daquela velha revista era o mundo glamouroso da vida social. E o nome daquela belíssima mulher, a velha mendiga o sabia bem, era Matilde… Matilde Rocha. E como ela a odiava…
             Matilde Rocha era o orgulho em pessoa, a arrogância personificada. Repudiava a pobreza, detestava os miseráveis. E fazia questão de expor isto aos quatro ventos, para que qualquer um pudesse ouvir. Dizia que a pobreza era um mal contagioso, do qual não se podia nem sequer se aproximar. Não nascera rica, mas por ser muito bonita, conseguira casar-se com um milionário da indústria siderúrgica, o que a levou a ter uma vida de ostentação e esbanjamento. Não precisaria trabalhar nunca, mas para ter mais acesso às badalações sociais, resolveu montar uma empresa organizadora de festas com o único intuito de ter uma aproximação maior e mais freqüente com pessoas poderosas, o que não deixaria de ser uma oportunidade de estar também sempre em evidência. Seu passatempo preferido era humilhar os empregados em público e desfeitear qualquer pessoa, pelos motivos mais banais. Houve uma ocasião, que ninguém soube explicar bem por qual motivo, Matilde expulsou ultrajantemente um casal de uma de suas festas. Fora um espetáculo deprimente de se assistir, mas o fato é que todas as pessoas de seu convívio conheciam bem o caráter daquela mulher. Disseram na época, que quando ela sofreu um grave acidente de carro e tivera de fazer uma complicada cirurgia em uma de suas pernas, ela já estava começando a pagar por seus pecados de soberba e arrogância. Mas a verdade é que o acidente não modificou em nada o seu comportamento. Pelo contrário. Depois de um longo tempo em recuperação, ela passou a se sentir ainda mais cheia de poder, como que agraciada pelo destino, uma vez tendo sobrevivido. E mesmo ficando com uma seqüela na perna, que a deixou visivelmente manca, a sua acidez tornou-se ainda mais cáustica. Uma vez coxa, ela tornou-se mais animalesca, mais ferina, lançando impropérios aos quatro cantos. Mas o castigo daquela vagabunda ainda viria. Ah, como viria…
Anos mais tarde, as empresas de seu marido caminharam para a falência. A união conjugal se desfez inevitavelmente, pois não suportou a falta do único elo que os prendia: o dinheiro. E toda aquela ostentação desabou, dando àquela mulher o que ela merecia.
            A velha indigente fechou repentinamente a revista. Olhou ao redor da praça, levantou-se e jogou a revista, com violência, numa lixeira.
            — É no lixo que você merece ficar! — Vociferou ela com uma entonação profunda de ódio. Mas de repente, uma tristeza anuviou o seu semblante.

Então, ela pegou a sua trouxa e saiu caminhando trôpegamente pela praça, arrastando 
uma de suas pernas.

Conto: Rancor                                            
Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo


Copyright 2019. All rights reserved.

Posted 11 de março de 2012 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

2 COMMENTS :

Agradecemos sua visita! Volte sempre que puder! Se quiser deixe um comentário com sua opinião, assim que pudermos responderemos. Comentários ofensivos não serão aceitos.