março 8

A Despedida

Olá Amigos do Blog!
Hoje fiquei muito feliz, pois o autor Paulo Henrique Gomes Gontijo, autor do livro: O Olhar dos Inocentes – vide resenha aqui – nos presenteou com um maravilhoso conto.
Um forte abraço a todos.

                       
 A DESPEDIDA

Armando Pereira tinha seus quase sessenta anos e era um dos fazendeiros mais ricos do interior de Minas Gerais. Era dono de mais de cinco mil cabeças de gado de corte. Sua produção de carne e leite era uma das maiores do país. Tinham ao todo, mais de cinquenta empregados que ali mesmo, em suas terras, eram alojados juntamente com suas famílias. Disso ele se orgulhava por ter conseguido tudo com esforço próprio e, depois de casado, passou a contar com a ajuda e o amor de sua companheira e eterna esposa Rosália. Com ela, teve dois filhos: José e dois anos depois, Venâncio. Assim que eles saíram da infância, passaram também a ajudar o pai no árduo trabalho, de maneira que a fazenda tornou-se a grande indústria que era por causa daquela coesa união familiar. Armando era um homem realizado. Tinha um negócio que prosperara e uma família maravilhosa. Mas diante de todas aquelas conquistas que o tornaram um homem poderoso e respeitado, uma grande tristeza o consumia pro dentro: a de não poder sequer se despedir de sua amada mulher que, inconsciente há mais de um ano, levava uma vida vegetativa sobre a cama, nas agruras de uma doença incurável.
Naquele entardecer de Setembro, assim como fazia todos os dias, após chegar do campo, Armando sentou-se ao lado do leito da esposa e pôs-se a passar-lhe as mãos carinhosamente sobre a testa e os cabelos. A feição da pobre mulher passara a ser sempre a mesma, impassível, terrivelmente pálida; um rosto agora magro que abrigava olhos arroxeados e fundos, sempre fechados, mas cujos traços ainda levava à lembrança de Armando a linda mulher que Rosália fora um dia. A respiração da mulher mostrava-se descompassada e de sua boca, semiaberta, vinha um chiado rouco, diferente, que causou estranheza no marido. Enquanto acarinhava seu rosto, aquele homem remoia-se em pensamentos de indignação e revolta, que chegavam a beirar a blasfêmia contra o seu Deus. Rosália fora, outrora, uma verdadeira amazona; montava como ninguém. Com seu cavalo, era ela que ao lado do marido administrava toda a fazenda com punhos fortes e, ao mesmo tempo, serenos. Armando ergueu o rosto e olhou através da janela para a vasta terra cultivada, onde os empregados começavam a recolher suas ferramentas de trabalho; olhou para outra direção e viu o capataz conduzindo a grande manada para o curral. Com o entardecer, chegava o fim de mais um expediente. Olhando tudo aquilo, seu coração comprimiu-se ainda mais. Trabalhara a vida inteira para poder dar uma condição digna para  toda a família. Chegara a abrir mão de tantas coisas em função dos dias melhores que ainda viriam…E agora que estavam em condições de usufruir de tudo aquilo, Rosália arranjara aquela doença. Aquela, cujo nome não podia ser dito. Ela chegara a um ponto tal de definhamento que nem se despedir, ela era capaz, por causa do estado inconsciente ao qual a doença a levara. Armando segurou as mãos de Rosália e apertou-as enquanto se lembrava angustiosamente dos beijos que eram trocados entre eles. Nos últimos meses, ele já dera inúmeros beijos em seus lábios, como se  cada um deles fosse sempre o último, mas eles não correspondiam, não correspondiam com nenhum movimento, por menor que fosse…Nem mesmo um beijo de despedida ela vai me dar…
Naquela noite, depois de ter deixado a esposa aos cuidados de Maria, a enfermeira, Armando desabou-se no sofá da sala, vencido pelo cansaço e tristeza. E com a mesma roupa que trabalhara durante o dia, ali dormiu. E sonhou com Rosália, como acontecia em quase todas as noites. Mas naquela noite foi diferente, ao contrário dos sonhos habituais em que a esposa lhe aparecia sempre doente. Neste, ele descia os degraus da igreja da pequena cidade onde assistiam à missa todos os domingos. Quando chegou à calçada ele avistou, galopando como a amazona que ela sempre fora, Rosália sobre o seu cavalo alazão. Desça aqui! Disse ele. Ela passou por ele, com seus cabelos voando, ao sabor do vento e do galope, com uma expressão de vitória, de incrível felicidade. Meu Deus! Ele pensou. Há quanto tempo não vejo Rosália montando desse jeito. Ela continuou o seu trajeto até sumir lá na frente, numa esquina. Achando muita graça em tudo aquilo Armando assistiu, instantes depois, o retorno dela, cavalgando magistralmente exatamente no mesmo ritmo em que estava. E ela estava linda. Da sua expressão irradiava uma espécie de luz fulgurante, translúcida, que refletia um êxtase transbordante. Sorrindo para ele, ela novamente passou, não atendendo ao pedido que ele fazia para que ela parasse ali e apeasse. Depois de sumir na outra extremidade da rua, ela novamente retornou, mas em vez de seguir pelo mesmo caminho, ela optou por mudar a direção e subir a íngreme e comprida rua que dava no alto da montanha, bem lá na saída da pequena cidade. Armando a viu sumindo na distância ao ritmo daquele majestoso galope. Ela vai embora. Ela vai embora sem se despedir de mim. De repente, ele a viu retornando e se encheu de alegria. Ela se aproximou, puxou as rédeas e o cavalo parou bem ao lado dele, batendo as patas ruidosamente no chão. Eles se olharam e riram um para o outro como se tudo aquilo fosse uma espécie de brincadeira, uma peraltice. Então ela se inclinou sobre o animal, aproximou seu rosto bem perto do de Armando e encostou os seus lábios no dele. Foi um beijo mágico, morno, gostoso. E mesmo quando ela sumiu novamente, galopando a toda velocidade, a caminho do alto da montanha, ele ainda tinha consigo a sensação do beijo morno em seus lábios.
Armando foi acordado com uma leve sacudidela no peito. Abriu os olhos e viu José, o filho mais velho, inclinado sobre ele. Olhou ao redor e se lembrou de que havia dormido na sala, cujas dependências estavam imersas na escuridão. Depois que a esposa adoecera, ele amiúde se entregava ao sono sobre o sofá da sala. E era sempre José que vinha acorda-lo para que passasse para o quarto.
— Pai…— José disse com uma voz contida.
Mas de repente, Armando soube que o filho não lhe chamara para que passasse para sua cama. Não naquela noite. Levou instintivamente a mão aos próprios lábios, como se estivessem formigando, e disse com a voz entrecortada:
— Eu já sei, meu filho. — Ele disse segurando-lhe os braços.
— Sua mãe… — surgiu um tênue sorriso em seu rosto.— Sua mãe voltou a cavalgar.
Conto: A Despedida
Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo


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Posted 8 de março de 2012 by Hermes Lourenço in category "Uncategorized

2 COMMENTS :

  1. By Hermes Marcondes Lourenço on

    Olá Inêz. Também gostei muito do conto. Isso prova a minha teoria de que temos excelentes autores nacionais e que a literatura brasileira não morreu com Machado de Assis.

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  2. By Inêz on

    Que conto! Foi de tirar o fôlego.Parabéns pelo conto maravilhoso Paulo Henrique,espero que nos propicie em ler outros contos como esse.
    Inêz

    Reply

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