março 26

Qualquer coisa

Olá amigos do blog.
Hoje trago mais um conto de autoria do escritor Paulo Henrique Gomes Gontijo.
Quem tiver um conto e quiser postar por aqui bastá envia-lo para meu e-mail para ser analisado.
Desde já agradeço ao Paulo por nos brindar com mais um conto.
Um forte abraço a todos!

“—Qualquer coisa.—havia um tom de lascívia naquela resposta.”
Paulo Henrique Gomes Gontijo
Conto Qualque Coisa

                                      QUALQUER COISA

A noite estava fervilhando naquela sexta-feira, que estava quente como um braseiro. Naquele ponto nervoso da cidade, jovens de todas as idades e sexo saíam das lojas noturnas com bebidas na mão, cruzavam, como baratas tontas, de um lado para o outro da avenida, disputando o escasso espaço com fileiras infinitas de carros alucinantes de faróis altos e buzinas ensurdecedoras. As mulheres gargalhavam enquanto conversavam em grupos irrequietos, rapazes estavam à busca de aventuras, todos impelidos pelo afã daquela noite que apenas começava, mas que já prometia muitas emoções.
Numa esquina, Marieta puxou sua saia mais um pouco para cima, salientando ainda mais as suas generosas coxas; ajeitou o cabelo anelado, puxou a alça de sua bolsa a tiracolo e iniciou sua caminhada na calçada em meio àquelas pessoas desvairadas. No semblante, seu tênue sorriso emitia uma mensagem patente de que estava à disposição de propostas quentes, fortes e animalescas. Mulher de programa há um bom tempo, ela contava com trinta e poucos anos, e apesar de uma vida sofrida, a natureza lhe era generosa ao conservar-lhe, de uma forma geral, os mesmos dotes atrativos com os quais nascera, e que lhe davam um significativo trunfo no exercício daquela profissão, a mais antiga do mundo.
O seu andar, por sobre saltos altos, era calmo, estiloso e contrastava com a agitação daquelas pessoas. Fez uma longa caminhada até a outra esquina, ganhando assobios, insinuações e elogios pornográficos dos homens pelos quais cruzava, assédios estes que ela correspondia na mesma proporção das investidas, ora com reciprocidade, ora com deboche. Ali na outra extremidade do quarteirão, ela aproximou-se de quatro colegas de ponto, que estavam na esquina, todas elas vestidas no mesmo estilo despudorado e vulgar.
            —Olá, Marieta! — cumprimentou Rita, uma morena magra de cabelos encaracolados.— Pronta para o batente?
            —Olá! Claro! A noite hoje promete… — Marieta cumprimentou todas as outras e ficaram ali conversando.
            Passados poucos minutos, um luxuoso carro parou próximo a elas e o vidro automático do lado do passageiro foi aberto.
            —Ei, minha linda!—disse o motorista lá de dentro apontando o dedo para Marieta.—Venha aqui.—Marieta prontamente foi até lá e curvou-se na janela do veículo.
            As quatro colegas olharam entre si com semblantes carregados de um certo recalque. Escutaram Marieta respondendo da seguinte forma para o abordador:
            —Qualquer coisa.—havia um tom de lascívia naquela resposta.—Eu faço qualquer coisa que você quiser. Sou extremamente liberal. Gosto de tudo.
            Marieta despediu-se das garotas e entrou no carro, que rapidamente arrancou. As mulheres olharam uma para outra, retorcendo os lábios. Era sempre assim. Sempre que Marieta estava em campo, fazia-se necessário que elas se dispersassem o quanto antes, se quisessem, de verdade, arranjar um programa.
Além de Marieta ser uma mulher extremamente provocante, que despertava instantaneamente o desejo sexual nos homens, ela tinha, além disto, outras cartas nas mangas. Ela realizava qualquer desejo do cliente. Era sabido entre as mulheres daquele ponto que, com exceção à violência e ao sadomasoquismo, Marieta não tinha qualquer pudor ou restrição quanto a sexo. Muitas daquelas mulheres, que entraram exclusivamente naquela vida por causa do dinheiro, não conseguiam atender a todas as fantasias ou desejos do cliente. Algumas terminantemente só aceitavam fazer sexo desde que a forma não fugisse do convencional, como forma de se preservarem da autoviolação ou talvez de se resguardarem moralmente, por assim dizer. E o trato era coisa que tinha de ser muito bem estabelecido. Sabiam que era muito perigoso combinar algo inverídico apenas para garantir o programa e não cumpri-lo posteriormente. Várias prostitutas já haviam sido mortas por não quererem se sujeitar ao que fora combinado.
            Naquela noite, depois daquele seu primeiro encontro, Marieta foi deixada no mesmo ponto de prostituição. Encontrou-se com algumas de suas colegas, das quais apenas duas haviam conseguido um programa. Marieta por sua vez, conseguiu, ao longo daquela madrugada, mais três “clientes”, o que não foi surpresa para nenhuma de suas colegas.
Já eram cinco horas da manhã e estava ainda escuro quando Marieta aproximava-se de sua casa, carregando duas sacolas, uma em cada mão. Equilibrava-se a duras penas sobre o salto alto, por causa do cansaço. Pensava sobre o que ela era. Pensava também sobre o que pensavam que ela fosse. Para as suas colegas, assim como para muitos, ela era uma puta. Uma puta desavergonhada, que ganhava a vida com um sexo selvagem e desenfreado. Um sexo tão despudorado que, ela sabia disso, era o motivo de sua vitória sobre suas colegas na disputa pelos clientes. Bem, era exatamente isso o que ela era. Uma puta…Eu faço qualquer coisa, lembrou-se ela da resposta que era dada a seus clientes diante de suas propostas. E um sorriso estranho surgiu em seus lábios ao se lembrar disto.
            Chegou à porta de sua casa, que era uma espécie de barracão, depositou as sacolas no chão e destrancou a porta de madeira carcomida. Entrou, mergulhando na escuridão que ali reinava. Depositou uma das sacolas sobre a mesa da cozinha e com a outra dirigiu-se a um quarto. Era um cômodo bem pequeno, com cheiro de mofo, onde o teto era baixo, tornando o ar pesado. Por puro instinto, sentou-se na beirada da cama que havia ali, escondida pelo breu e passou a mão sobre a coberta que abrigava dois corpos adormecidos. Sabia que estavam dormindo, mas não poderia esperar o dia raiar. Não depois de ter a consciência sobre o estado no qual eles foram dormir, após constatarem que as latas da despensa encontravam-se vazias.
            —Mãe?—era a voz sonolenta e melodiosa de um menino.
            —Sim, filho. É a mamãe.—deu-lhe um beijo gostoso na testa.— Olha o que eu trouxe para vocês.
            O menino preguiçosamente pôs-se sentado na cama. A irmã, um ano mais velha, também acordou com o murmúrio de vozes e se sentou na cama.
            —Sabe aquele sanduíche que vocês adoram, que é vendido lá naquele supermercado requintado?—as crianças responderam que sim, entusiasticamente, rindo de emoção e ansiedade. Marieta então continuou:—Pois então, eu comprei pra vocês…
            As crianças pularam sobre a mãe, que com muito custo, retirou, rindo com eles, os sanduíches de dentro da sacola, passando-os para as mãozinhas ávidas e apressadas de seus filhos. A luz foi acesa e enquanto comiam, Marieta deitou-se à cabeceira e enlaçou o filho que permanecera ali sentado sobre a cama. E enquanto via as duas crianças sobre o leito, matando a fome com voracidade, sentiu uma paz morna dentro de si. Um calor calmante que se irradiava por todo o corpo. Era uma sensação prazerosa, gratificante… E que para senti-la, ela faria qualquer coisa. Qualquer coisa…
 Conto: Qualquer Coisa
 Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo
março 25

Chico Anysio



Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, conhecido como Chico Anysio (Maranguape, 12 de abril de 1931 — Rio de Janeiro, 23 de março de 2012), foi um humorista, ator, dublador, escritor, compositor e pintor brasileiro, notório por seus inúmeros quadros e programas humorísticos na Rede Globo, emissora onde trabalhou por mais de 40 anos.
Ao dirigir e atuar ao lado de grandes nomes do humor brasileiro no rádio e na televisão, como Paulo Gracindo, Grande Otelo, Costinha, Walter D’Ávila, Jô Soares, Renato Corte Real, Agildo Ribeiro, Ivon Curi, José Vasconcellos e muitos outros, tornou-se um dos mais famosos, criativos e respeitados humoristas da história do país.
Morreu em 23 de março de 2012, no Rio de Janeiro.
Além de escrever e interpretar seus próprios textos no rádio, televisão e cinema, sempre com humor fino e inteligente, Chico se aventurou com relativo destaque pelo jornalismo esportivo, teatro, literatura e pintura, além de ter composto e gravado algumas canções. 
 Fonte:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Chico_Anysio


março 11

Resenha Faces de um Anjo

Olá amigos do blog.
Confesso que hoje fiquei sem palavras ao ver uma das primeiras resenhas de meu livro Faces de um Anjo, feita por Fábio Guolo, escritor da Draco Saga  – em breve resenha aqui -, e futuro colega de editora.
 Ser escritor no Brasil não é fácil, mas confesso a todos vocês que encontro forças quando vejo que meu trabalho realmente valeu a pena.
Segue resenha que pode ser conferida no skoob: http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/202195

Candidato a Best Seller

É impressionante a evolução de Hermes M. Lourenço apurada neste livro.
Digno de ser comparado a Best Sellers como O Código Da Vinci e Anjos e Demônios, Hermes é facilmente comparado ao Dan Brown com a trama desenrolada neste livro.
Letícia Lorn, a protagonista, evoca a síntese da beleza, inteligência e suspense por ser ao mesmo tempo uma cientista, uma bruxa e apresentar beleza estonteante.
Samael representa a personificação do vilão atormentado contribui deveras para que o leitor seja presenteado com um final arrebatador, de tirar o fôlego!
E as 256 páginas deste livro, aliadas à excelente diagramação tornam a leitura rápida e fluída. Além disso a trama de Hermes não deixa o leitor desgrudar do livro 1 minuto sequer.
O li em 3 dias porque tinha outras obrigações, mas se pudesse o teria lido em uma sentada só.
Indispensável!

Fábio Guolo 

março 11

Rancor

Olá Amigos do Blog!
Primeiramente peço desculpas, pois sei que ando meio em atraso com algumas postagens aqui no blog.
Tal fato deve-se que estou finalizando um novo livro e em abril já estarei trabalhando com o Sr. Nicolas Flynth e seu fiel escudeiro Xenóbio, na continuação da trilogia do Enigma do Fogo Sagrado.
Bem, me explico. 
Quando escrevi o Enigma do Fogo Sagrado – Livro I – A irmandade da Rosa Branca, eu já sabia desde o início que ele seria uma trilogia – inclusive tenho os esboços da parte II e III concluidos bem como 60% do livro II já escrito. Sou muito metódico, e diante dos elogios da Irmandade da Rosa Branca, decidi aprimorar meus estudos na arte de escrita para literalmente surpreender meus leitores com o livro II e III. Quem já teve a oportunidade de ler Faces de um Anjo, já deve ter percebido uma enorme diferença. Agora pasmem – apenas quem já leu Faces de um Anjo: ainda estava no meio de meus estudos…rs.
Pois bem. O Fato é que tem livro novo a caminho, praticamente já saindo do forno. Será um livro um pouco maior do que Faces de um Anjo – creio que terá entre 300 e 350 páginas, com início, meio e fim, mas que irá surpreendê-los a cada página.
Bem, mudando um pouco de assunto, hoje trago mais uma nova surpresa, só que desta vez é do escritor Paulo Henrique Gomes Gontijo, que decidiu presenteá-los com mais um novo conto de sua autoria.
Espero que gostem e comentem.
Um forte abraço a todos!

                                                                            RANCOR

Alguma coisa chamou a atenção da velha mendiga enquanto ela andava sem rumo por uma das ruas movimentadas daquela grande cidade. Ela parou por um instante, em seguida aproximou-se daquela caixa de lixo à beira da calçada. Seu rosto encarquilhado e cinzento comprimiu-se; seus olhos discrepantemente azuis faiscaram; vívidos e astuciosos, mirando aquela revista velha, suja e amassada que estava abandonada em meio ao lixo.
Mordeu o pão recheado com fígado e cebola que acabara de ganhar do dono de um bar e mastigou o naco com displicência. Fez uma careta de enjôo e jogou fora o alimento em outro tambor de lixo que estava próximo.  Aproximou-se mais da caixa e abaixou-se para pegar a revista. Ao puxá-la, espalhou um pouco de sujeira pelo chão e um caldo preto escorreu da revista sobre a sua longa saia, o que não a incomodou, pois toda a sua roupa era esfarrapada e já se encontrava imunda, como se ela tivesse acabado de rolar sobre o pó de carvão. Bateu a mão sobre a capa para retirar o grosso da sujeira e ergueu-a à altura dos olhos. E então, seu corpo estremeceu de ódio. Pensou em atirar a revista ao lixo novamente, agarrou-a com as duas mãos com o intuito de rasgá-la, mas de repente se conteve. Com a respiração ofegante aquela velha indigente ergueu a revista à sua vista novamente e com o rosto contorcido, fitou a foto da mulher da capa. Aquela bela mulher, aquela maldita, que havia destruído a sua vida…
            Ela procurou sentar-se num banco de uma praça, pôs a sua trouxa de quinquilharias ao lado e pegou a revista. Olhou para a foto, começando a sentir o ódio invadindo novamente as suas entranhas. A mulher, cuja foto abrangia toda a capa era exuberante, intensa. Seus cabelos louros anelados eram como um adorno naquele maquilado rosto angular de pele aveludada. Seus olhos azuis, expressivos, irradiavam uma luz esfuziante, enquanto um sorriso alargava aqueles lábios grossos, vermelhos de um intenso batom. A temática daquela velha revista era o mundo glamouroso da vida social. E o nome daquela belíssima mulher, a velha mendiga o sabia bem, era Matilde… Matilde Rocha. E como ela a odiava…
             Matilde Rocha era o orgulho em pessoa, a arrogância personificada. Repudiava a pobreza, detestava os miseráveis. E fazia questão de expor isto aos quatro ventos, para que qualquer um pudesse ouvir. Dizia que a pobreza era um mal contagioso, do qual não se podia nem sequer se aproximar. Não nascera rica, mas por ser muito bonita, conseguira casar-se com um milionário da indústria siderúrgica, o que a levou a ter uma vida de ostentação e esbanjamento. Não precisaria trabalhar nunca, mas para ter mais acesso às badalações sociais, resolveu montar uma empresa organizadora de festas com o único intuito de ter uma aproximação maior e mais freqüente com pessoas poderosas, o que não deixaria de ser uma oportunidade de estar também sempre em evidência. Seu passatempo preferido era humilhar os empregados em público e desfeitear qualquer pessoa, pelos motivos mais banais. Houve uma ocasião, que ninguém soube explicar bem por qual motivo, Matilde expulsou ultrajantemente um casal de uma de suas festas. Fora um espetáculo deprimente de se assistir, mas o fato é que todas as pessoas de seu convívio conheciam bem o caráter daquela mulher. Disseram na época, que quando ela sofreu um grave acidente de carro e tivera de fazer uma complicada cirurgia em uma de suas pernas, ela já estava começando a pagar por seus pecados de soberba e arrogância. Mas a verdade é que o acidente não modificou em nada o seu comportamento. Pelo contrário. Depois de um longo tempo em recuperação, ela passou a se sentir ainda mais cheia de poder, como que agraciada pelo destino, uma vez tendo sobrevivido. E mesmo ficando com uma seqüela na perna, que a deixou visivelmente manca, a sua acidez tornou-se ainda mais cáustica. Uma vez coxa, ela tornou-se mais animalesca, mais ferina, lançando impropérios aos quatro cantos. Mas o castigo daquela vagabunda ainda viria. Ah, como viria…
Anos mais tarde, as empresas de seu marido caminharam para a falência. A união conjugal se desfez inevitavelmente, pois não suportou a falta do único elo que os prendia: o dinheiro. E toda aquela ostentação desabou, dando àquela mulher o que ela merecia.
            A velha indigente fechou repentinamente a revista. Olhou ao redor da praça, levantou-se e jogou a revista, com violência, numa lixeira.
            — É no lixo que você merece ficar! — Vociferou ela com uma entonação profunda de ódio. Mas de repente, uma tristeza anuviou o seu semblante.

Então, ela pegou a sua trouxa e saiu caminhando trôpegamente pela praça, arrastando 
uma de suas pernas.

Conto: Rancor                                            
Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo
março 11

Em breve!

 
 
 “A chave da imortalidade consiste em conhecer o segredo para se enganar a morte.”

                              Hermes M. Lourenço
 

Data prevista para conclusão Março/2012 
Envio para editora: Abril de 2012

março 8

A Despedida

Olá Amigos do Blog!
Hoje fiquei muito feliz, pois o autor Paulo Henrique Gomes Gontijo, autor do livro: O Olhar dos Inocentes – vide resenha aqui – nos presenteou com um maravilhoso conto.
Um forte abraço a todos.

                       
 A DESPEDIDA

Armando Pereira tinha seus quase sessenta anos e era um dos fazendeiros mais ricos do interior de Minas Gerais. Era dono de mais de cinco mil cabeças de gado de corte. Sua produção de carne e leite era uma das maiores do país. Tinham ao todo, mais de cinquenta empregados que ali mesmo, em suas terras, eram alojados juntamente com suas famílias. Disso ele se orgulhava por ter conseguido tudo com esforço próprio e, depois de casado, passou a contar com a ajuda e o amor de sua companheira e eterna esposa Rosália. Com ela, teve dois filhos: José e dois anos depois, Venâncio. Assim que eles saíram da infância, passaram também a ajudar o pai no árduo trabalho, de maneira que a fazenda tornou-se a grande indústria que era por causa daquela coesa união familiar. Armando era um homem realizado. Tinha um negócio que prosperara e uma família maravilhosa. Mas diante de todas aquelas conquistas que o tornaram um homem poderoso e respeitado, uma grande tristeza o consumia pro dentro: a de não poder sequer se despedir de sua amada mulher que, inconsciente há mais de um ano, levava uma vida vegetativa sobre a cama, nas agruras de uma doença incurável.
Naquele entardecer de Setembro, assim como fazia todos os dias, após chegar do campo, Armando sentou-se ao lado do leito da esposa e pôs-se a passar-lhe as mãos carinhosamente sobre a testa e os cabelos. A feição da pobre mulher passara a ser sempre a mesma, impassível, terrivelmente pálida; um rosto agora magro que abrigava olhos arroxeados e fundos, sempre fechados, mas cujos traços ainda levava à lembrança de Armando a linda mulher que Rosália fora um dia. A respiração da mulher mostrava-se descompassada e de sua boca, semiaberta, vinha um chiado rouco, diferente, que causou estranheza no marido. Enquanto acarinhava seu rosto, aquele homem remoia-se em pensamentos de indignação e revolta, que chegavam a beirar a blasfêmia contra o seu Deus. Rosália fora, outrora, uma verdadeira amazona; montava como ninguém. Com seu cavalo, era ela que ao lado do marido administrava toda a fazenda com punhos fortes e, ao mesmo tempo, serenos. Armando ergueu o rosto e olhou através da janela para a vasta terra cultivada, onde os empregados começavam a recolher suas ferramentas de trabalho; olhou para outra direção e viu o capataz conduzindo a grande manada para o curral. Com o entardecer, chegava o fim de mais um expediente. Olhando tudo aquilo, seu coração comprimiu-se ainda mais. Trabalhara a vida inteira para poder dar uma condição digna para  toda a família. Chegara a abrir mão de tantas coisas em função dos dias melhores que ainda viriam…E agora que estavam em condições de usufruir de tudo aquilo, Rosália arranjara aquela doença. Aquela, cujo nome não podia ser dito. Ela chegara a um ponto tal de definhamento que nem se despedir, ela era capaz, por causa do estado inconsciente ao qual a doença a levara. Armando segurou as mãos de Rosália e apertou-as enquanto se lembrava angustiosamente dos beijos que eram trocados entre eles. Nos últimos meses, ele já dera inúmeros beijos em seus lábios, como se  cada um deles fosse sempre o último, mas eles não correspondiam, não correspondiam com nenhum movimento, por menor que fosse…Nem mesmo um beijo de despedida ela vai me dar…
Naquela noite, depois de ter deixado a esposa aos cuidados de Maria, a enfermeira, Armando desabou-se no sofá da sala, vencido pelo cansaço e tristeza. E com a mesma roupa que trabalhara durante o dia, ali dormiu. E sonhou com Rosália, como acontecia em quase todas as noites. Mas naquela noite foi diferente, ao contrário dos sonhos habituais em que a esposa lhe aparecia sempre doente. Neste, ele descia os degraus da igreja da pequena cidade onde assistiam à missa todos os domingos. Quando chegou à calçada ele avistou, galopando como a amazona que ela sempre fora, Rosália sobre o seu cavalo alazão. Desça aqui! Disse ele. Ela passou por ele, com seus cabelos voando, ao sabor do vento e do galope, com uma expressão de vitória, de incrível felicidade. Meu Deus! Ele pensou. Há quanto tempo não vejo Rosália montando desse jeito. Ela continuou o seu trajeto até sumir lá na frente, numa esquina. Achando muita graça em tudo aquilo Armando assistiu, instantes depois, o retorno dela, cavalgando magistralmente exatamente no mesmo ritmo em que estava. E ela estava linda. Da sua expressão irradiava uma espécie de luz fulgurante, translúcida, que refletia um êxtase transbordante. Sorrindo para ele, ela novamente passou, não atendendo ao pedido que ele fazia para que ela parasse ali e apeasse. Depois de sumir na outra extremidade da rua, ela novamente retornou, mas em vez de seguir pelo mesmo caminho, ela optou por mudar a direção e subir a íngreme e comprida rua que dava no alto da montanha, bem lá na saída da pequena cidade. Armando a viu sumindo na distância ao ritmo daquele majestoso galope. Ela vai embora. Ela vai embora sem se despedir de mim. De repente, ele a viu retornando e se encheu de alegria. Ela se aproximou, puxou as rédeas e o cavalo parou bem ao lado dele, batendo as patas ruidosamente no chão. Eles se olharam e riram um para o outro como se tudo aquilo fosse uma espécie de brincadeira, uma peraltice. Então ela se inclinou sobre o animal, aproximou seu rosto bem perto do de Armando e encostou os seus lábios no dele. Foi um beijo mágico, morno, gostoso. E mesmo quando ela sumiu novamente, galopando a toda velocidade, a caminho do alto da montanha, ele ainda tinha consigo a sensação do beijo morno em seus lábios.
Armando foi acordado com uma leve sacudidela no peito. Abriu os olhos e viu José, o filho mais velho, inclinado sobre ele. Olhou ao redor e se lembrou de que havia dormido na sala, cujas dependências estavam imersas na escuridão. Depois que a esposa adoecera, ele amiúde se entregava ao sono sobre o sofá da sala. E era sempre José que vinha acorda-lo para que passasse para o quarto.
— Pai…— José disse com uma voz contida.
Mas de repente, Armando soube que o filho não lhe chamara para que passasse para sua cama. Não naquela noite. Levou instintivamente a mão aos próprios lábios, como se estivessem formigando, e disse com a voz entrecortada:
— Eu já sei, meu filho. — Ele disse segurando-lhe os braços.
— Sua mãe… — surgiu um tênue sorriso em seu rosto.— Sua mãe voltou a cavalgar.
Conto: A Despedida
Autor: Paulo Henrique Gomes Gontijo
março 6

Novidades da editora Dracaena

                    
                          Novos autores em destaque na Editora Dracaena
Lançamento: O Escolhido – Legado – Juliana Walker
Titulo: O Escolhido – Legado
Autora: Juliana Walker
Editora: Dracaena
ISBN: 9788564469686
Páginas: 304
Onde Comprar:
http://www.travessa.com.br/O_ESCOLHIDO/artigo/54c27c70-316e-4789-9b8b-a00f38956a80
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4039784/o-escolhido/
Sinópse:
Avan entrará em uma era de terror novamente. Inocentes perderão suas vidas. Das sombras o mal renascerá novamente. Aqueles que juntos nasceram, separados estarão, mas nunca tão fortes. Um será escolhido para destruir, o outro para salvar.
Pelas mãos de seu irmão ele perecerá. O escolhido destruído há de ser, ou as trevas em Avan voltará.
Uma profecia feita anos atrás se mostra verdadeira a partir do momento em que Avan, esse mundo esquecido se vê novamente cara a cara com o inimigo, a fera sem sombra, que aterrorizava Avan antes, e volta agora, mas com que propósito?
Seu mestre ainda estaria vivo? E se os destruidores estiverem de volta, isso significará talvez o fim da era de paz em Avan, mas uma paz que sempre fora insegura, uma paz que dependia da espera de seus heróis, fays, mas será que é preciso ser um fay para ser herói?
Nesta primeira parte da série O Escolhido, narra a trajetória pela salvação de uma terra que há muito fora devastada por seres malignos chamados de Os Destruidores, e juntando personagens que tem ligações fortes, Ike, Neo, e Ana, três órfãos, o passado, o presente e o futuro darão o desfecho para a próxima guerra em Avan.
Lançamento:  O Punhal – Jéssica Anitelli
 
Titulo: O Punhal
Autora: Jéssica Anitelli
Editora: Dracaena
ISBN: 9788564469716
Páginas: 322
Onde Comprar:
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4043939/o-punhal/
http://www.siciliano.com.br/produto/4043939/o-punhal/4043939
Sinópse:
“Seus olhos verdes sempre cruzavam com aqueles olhos gélidos durante a noite. Ao vê-los, junto com aquela pele esbranquiçada, o coração disparava, os pelos do corpo arrepiavam e a boca secava. Eram essas as sensações que Diogo sentia ao ver a figura daquele homem que o seguia desde criança. Sentia medo, lógico, mas por outro lado tinha a sensação de que algo em sua alma os ligava.
Mal sabia que Augusto, um vampiro com mais de 100 anos, tinha planos para ele, planos esses que envolviam sua ida para a vida noturna.
Após a noite em que o sangue de Augusto tocar seus lábios sua adolescência nunca mais será a mesma, se tornará sombria, tenebrosa, intrigante e ao mesmo tempo fascinante.
Mas conseguirá ocultar lembranças e sentimentos humanos? Esquecerá o amor por Júlia?
As mudanças sofridas no início de sua existência noturna serão baseadas em Henrique, um vampiro que possuía os mesmos olhos verdes de Diogo e de sua família, tão verdes quanto às esmeraldas contidas no punhal.”
 
A Editora Dracaena divulga capas de três futuros lançamentos:
Limiar – Entre o céu e o inferno – Elaine Velasco
O Diário Serial – Igor Castro
 Portais – Ledinilson Ribeiro Moreira
Previsão de lançamentos: Abril de 2012
Em breve mais informações sobre as obras e seus autores.
Para mais informações visite: http://www.dracaena.com.br/
 
 
 
março 1

Entrevista com o autor Paulo Henrique G. Gontivo

“…acho maravilhoso na literatura é que você não precisa ter um tema estrondoso para chamar a atenção, mas sim  descrever estrondosamente um tema…”
Paulo Henrique Gomes Gontijo
Olá Amigos do Blog!
Hoje trago para vocês uma entrevista com o escritor Paulo Henrique Gomes Gontijo, autor do livro O Olhar dos Inocentes que de forma independente produziu seu livro. –Para quem não viu confira a resenha clicando aqui.
Confesso que foi uma leitura prazerosa e envolvente, portanto super recomendada.
Para quem não sabe, Paulo Henrique Gomes Gontijo (ou Paulo H. G.Gontijo) nasceu em Divinópolis/MG em 04/05/1971. Filho de comerciantes, é o mais novo de oito irmãos. Graduou-se em Direito, mas é na literatura que encontra sua identidade. “O olhar dos inocentes” é sua primeira publicação.
Um forte abraço a todos!
01)  Fale um pouco sobre quem é Paulo Henrique Gomes Gontijo.
Sou Divinopolitano, nasci em 04/05/1971, tenho formação em Direito e sou comerciante meio que por osmose pois meu pai  era comerciante, assim como minha mãe também  já teve uma  loja de tecidos.  Amo a família e a literatura.
02) Explique aos seguidores do blog como surgiu a sua vontade de escrever e o desejo de se tornar um escritor.
A vontade de ser escritor começou logo na minha infância., pois eu comecei a ler aos 10 anos.  Eu ficava fascinado com o poder que o livro tinha de me fazer viajar, emocionar e chorar mesmo estando dentro da minha casa. Era muito intenso. E pensava: que poder é este? E a cada livro que eu lia, eu me enchia de admiração pelo escritor, pela capacidade que ele tinha de, com suas palavras, evocar sentimentos tão arrebatadores no meu emocional.  Daí surgiu gradativamente a vontade de querer realizar nas pessoas o mesmo feito,  provocar nelas  o mesmo sentimento de viagem emocional que eu sentia desde lá na minha infância.
03)  Como se dá seu processo de escrita – desde as ideias até a concepção final do livro.
Eu acho que quem ama literatura isso se torna meio que instintivo. Um acontecimento mais banal do dia-a-dia dispara um turbilhão de idéias.  Lembro-me que durante as minhas aulas de direito penal na faculdade, a minha mente não parava de supor as mais inusitadas situações enquanto o professor explicava os diferentes tipos penais. E eu pensava: isso daria uma ótima estória. E o que eu acho maravilhoso na literatura é que você não precisa ter um tema estrondoso para chamar a atenção, mas sim  descrever estrondosamente um tema que, muitas vezes, é  convencional. A morte de Ivan Ilitch de Tolstói,  é um destes exemplos. O autor  descreve neste livro a morte do personagem— um tema relativamente corriqueiro —de uma forma tão estupenda que faz o corpo da gente estremecer de emoção.
04)  Vi que o livro O Olhar dos Inocentes, foi uma produção independente. Esclareça aos leitores do blog como se dá esse processo e o custo-benefício.
No meu caso especificamente, eu tinha engavetado há tantos anos este sonho, que, já estando com meus quarenta anos, não pensei duas vezes em pegar uma parte das minhas economias e publicar o meu livro. Sabemos que não é barato. Mas foi o preço de ver o meu sonho realizado o mais depressa possível, ao invés de arriscar numa eterna demora, ou mesmo , nunca vê-lo publicado,  enquanto eu ficasse à espera de que alguma editora se interessasse em editá-lo. Mas o processo em si é simples. Escrever, contratar um revisor, que no meu caso, ele elaborou também a capa, ajudou-me no título,  e arrumar uma gráfica que tenha um trabalho bacana.
05)  Em seu livro envolve gênero ação- policial, associado à um grande drama vivido pela protagonista Maria Clara. De onde surgiu a ideia para desenhar a protagonista.
Sempre gostei de livros cujos temas são dramas psicológicos dos personagens. Acho que é justamente isto que enriquece a estória;  é quando o leitor vivencia os conflitos internos do personagem diante de uma determinada situação e sua condição emocional  que está por trás de suas atitudes. Crime e Castigo, de Dostoiévski, é um exemplo clássico deste gênero.
06)  Quais são as maiores dificuldades que você encontrou para editar esse livro.
Uma vez já estando com o dinheiro em mãos, que, sem demagogia,  todos sabem, sem ele a gente não faz nada— em termos financeiros, obviamente— a  minha maior dificuldade  foi vencer  o medo. Medo da exposição, medo da repercussão, medo de perder o dinheiro investido, enfim… Mas eu o venci. Assim como todos nós temos que procurar vencer as dificuldades para atingir nossos objetivos. Sejam elas  o medo, a falta de dinheiro, a falta de incentivo ou tudo isso junto.  Temos que arrumar um jeito de vencer.
07)  Você poderia nos falar um pouco sobre seus novos projetos?
Tenho vários escritos, todos no meu computador. Um deles,  um livro já totalmente pronto ,  está na fase de negociação com uma editora.  Este segue o mesmo gênero de O olhar dos inocentes. Trata-se de um suspense policial.
08)  Percebi que você tem um dom em prender a atenção do leitor, fato esse que encontramos nas obras Best Sellers. Quais são os comentários que você tem recebido a respeito do Olhar dos Inocentes.
Acredito que a gente escreve aquilo que mais nos chama a atenção. Creio também que a grande massa de pessoas é atraída por estórias instigantes, que faça aflorar emoções. Sou fã de Sidney Sheldon, Agatha Christie,  Allan Poe , Rubem Fonseca , entre outros mestres. E as pessoas têm me dito exatamente isto:  que ficaram presas com a minha estória, que não conseguiram largar o meu livro. Um amigo disse-me que chorou em determinada parte dele. E pra mim, escutar isso é muito, mas muito gratificante. Sinto-me como se fosse uma criança que ganha um presente há muito esperado.
09)  De onde surgiu a ideia do titulo de seu livro?
O  livro, pra mim, tem a obrigação de nos fazer crescer;  a estória, por mais que ela seja trágica e violenta, tem que nos trazer uma lição. Isto é a literatura. E a estória de O olhar dos inocentes é tudo isso: trágica,  violenta e dramática. Mas apesar de todas as agruras pelas quais a protagonista passa, ela consegue encontrar, em meio a tudo isso,  o seu mar de águas tranqüilas, no olhar de uma inocente.
10)  Como foi a elaboração, a construção da estória do livro?
O olhar dos inocentes era pra ser um conto. A minha idéia era lançar um livro de várias estórias policiais e eu já havia escrito exatamente sete.  Mas quando mandei  os meus originais para o revisor, ele me disse: —Você ficou maluco? Cada estória dessas é um livro! — Decepcionei-me por um lado, mas animei-me por outro. A partir do momento em que fui convencido de que  cada “conto” meu era um livro, fui descobrindo que estava deixando de lado muitos detalhes importantes na estória a fim de enquadrá-la forçosamente  em conto. O resultado,  depois disso, achei muito melhor e constatei que se deixasse de pormenorizar a minha estória, ela iria ficar muito, digamos,  deficitária.
11)  Agradeço pela e entrevista e gostaria que deixasse uma mensagem aos seguidores do blog A Arte de Escrever?
Eu é que agradeço pela entrevista. Você não sabe o quanto estou honrado por poder estar aqui, falando sobre a minha obra, fruto de um sonho tão sonhado. Sinto que como escritor, vou ser eternamente aquele menino que ficava horas e horas, viajando nas estórias, querendo sempre que todas as pessoas entendam e compartilhem comigo este prazer imensurável que é o amor pela leitura. Quanto aos seguidores do blog, tenho a dizer o seguinte: Tenham, em tudo o que forem fazer na vida, a mesma emoção que eu descrevi quando eu viajava e ainda viajo pelas minhas estórias.  Emocione-se, sorria, chore, lute, vença todas as dificuldades. Escreva o seu livro. Publique-o. Ou guarde-o.  Consiga tudo o que for necessário para tornar possível  os seus sonhos. Trabalhe no que ame;  passe a amar o que tiver que fazer.  Um abraço a todos.